Nos últimos meses a Lei de Imprensa foi revogada no Brasil e o diploma para o exercício do jornalismo deixou de ser obrigatório. Paralelamente, uma comissão formada por 8 cabeças-de-chave da pesquisa em jornalismo no país discutia de maneira amplamente aberta e formulava as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de Jornalismo (pdf). Quem assina o documento lançado ontem é José Marques de Melo, Alfredo Vizeu, Eduardo Meditsch, Lucia Araújo, Luiz Motta, Manuel Chaparro, Sérgio Augusto Mattos e Sonia Virgínia Moreira.
Abaixo, anotações com pitacos:
Ponto 1:
“… o conteúdo profissional do curso passou a ser caracterizado como “meramente técnico” e destituído do interesse teórico. Por outro lado, a teoria da comunicação evoluiu desvinculada do exercício da profissão, focada numa crítica geral da mídia, sem compromisso com o diálogo para uma intervenção prática na mesma. Em decorrência, os estudantes de Jornalismo desde então têm sido forçados a uma opção dramática e pouco razoável entre negar a sua profissão, em nome do “espírito crítico”, ou desprezar a teoria estudada nos cursos para se voltarem à prática, reproduzida de maneira acrítica e envergonhada.”
Eles leram meus pensamentos. Academia e mercado deveriam cooperar ao invés de concorrer. E o modelo ideal de profissional deveria ser aquele que trabalha em empresa jornalística ao mesmo tempo em que dedica parte de seu tempo para a atividade acadêmica.
Ponto 2: a proposta de Projeto Pedagógico contempla, além de interdisciplinaridade + teoria e prática + graduação e pós + extensão, preocupação com a empregabilidade dos egressos, devendo apresentar:
Dar ênfase ao espírito empreendedor e ao domínio científico que gerem pesquisas ao conceber, executar e avaliar projetos inovadores capazes de dar conta das exigências contemporâneas e de ampliar a atuação profissional a novos campos, projetando a função social da profissão em contextos ainda não delineados no presente.
e…
Atentar à necessidade de preparar profissionais que possam exercer dignamente a atividade como autônomos em um espaço cuja oferta de emprego não cresce na mesma proporção que a oferta de mão de obra;
Eis uma preocupação louvável e que amplia os horizontes da concepção do profissional jornalista em si, como o sujeito que deve preocupar-se unicamente com a adequação da linguagem, com a postura estética, o equilíbrio das fontes, a força argumentativa ou mesmo com a perfeição técnica.
Ser jornalista, antes de tudo, é ser profissional. E ao sermos reconhecidos pelo Código Brasileiro de Ocupações do Ministério do Trabalho – ao contrário de pro-bloggers ou pro-twitters – é nosso papel identificar demandas de mercado que possam ser atendidas pelos conhecimentos específicos garantidos pela formação superior em jornalismo. Isto é mais que sobrevivência. É honra.
Noutras palavras: se liguem jornalistas! Tem um baita espaço no mundo digital a ser ocupado por nós. Agilizemo-nos, pois!
Ponto 3:
c) Estar focado teórica e tecnicamente na especificidade do jornalismo, com grande atenção à prática profissional, dentro de padrões internacionalmente reconhecidos, comprometidos com a liberdade de expressão, o direito à informação, a dignidade do seu exercício e o interesse público; – grifo dos autores
Temo quando o cerco fecha. O que pode ser entendido por “especificidade” em uma área ancorada pela interdisciplinaridade, conforme exposto no Projeto Pedagógico? Qual o campo de trabalho do jornalista? Esta pergunta me parece sem resposta pronta neste momento. Afinal, estamos em transição, “em crise” como o documento aponta no início. Crise, inclusive, do nosso campo de trabalho.
É nosso dever traçar estratégias para atingir metas de audiência? Gerenciar redes de blogs? Moderar comentários? Mensurar o impacto de tecnologias futuras? Desenvolver formatos de conteúdo para buscar novos públicos? Atender ao mercado publicitário? Dominar linguagens de programação? Gerenciar equipes? Conversar com o público? Formar um cidadão repórter? Não sei! Estamos em trânsito! Daí que focar teórica e tecnicamente na especificidade do jornalismo ainda me parece uma incógnita.
Ponto 4:
“Eixo de fundamentação contextual , que tem por objetivo embasar o conhecimento das teorias da comunicação, informação e cibercultura, suas dimensões filosóficas, políticas, psicológicas e sócio-culturais, inclusive as rotinas de produção e os processos de recepção, bem como a regulamentação dos sistemas midiáticos, em função do mercado potencial, além dos princípios que regem as áreas conexas.”
Hummm… será que em “cibercultura” a comissão acolheu a interação? Pois ao incluir em destaque as “rotinas de produção e os processos de recepção” ainda estamos separando drasticamente emissor e receptor, uma discussão já vencida na comunicação digital, embora esta cisão ainda apareça fortemente nos meios de massa.
Ponto 5:
O Mestrado Profissional deve ser avaliado como caminho para atender simultaneamente a dois tipos de demanda: a) capacitar diplomados em outras áreas do conhecimento para a realização de trabalhos estratégicos, como os de consultoria, planejamento e avaliação de produtos jornalísticos, além da expressão opinativa e/ou interpretativa sobre temas peculiares a suas formações de origem, como colaboradores especializados;
Este item amplia a preocupação dos cursos de jornalismo em despertar o potencial empreendedor dos profissionais. Mais do que descobrir aberturas no mercado de trabalho, o planejamento e avaliação de produtos jornalísticos belisca onde as empresas mais precisam – visão estratégica de mercado, ou visão de publisher. Mas já que este ponto ficou só para o Mestrado Profissional, então let´s investir na ideia!




