Ronda: jornalismo colaborativo


Escrever é difícil? Então fotografe!

Essa história do “I Report“, da CNN, está super bem contada em cinco fotos legendadas. Peca apenas pelo relato em terceira pessoa, visivelmente feito pela redação.

Seria o relato fotográfico um outro gênero típico do jornalismo colaborativo?

É impressionante o destaque que a CNN tem dado aos materiais produzidos pelo público. Ainda hoje de manhã, o Fala Brasil, da Record, replicou umas cenas da CNN, com um “I” bem grandão no canto superior da tela. Era o logo do “I Report“. E isso tá ficando cada vez mais comum na programação hard news deles.

Bacana esse relato publicado pelo Eu Repórter, d’O Globo Online:

Me chamou à atenção especialmente porque, no último domingo, depois de levar minha irmã até o aeroporto de Guarulhos, peguei um ônibus de volta para São Paulo e ali, pertinho da cabeceira da pista, à noite, vi uma bolinha de fogo no céu escuro.

Custei para acreditar ou identificar até porque nunca tinha visto assim, digamos, pessoalmente, mas era, de fato, um balão.

Pelo jeito não é só a galera do Rio que ainda não se conscientizou dos prejuízos que podem ser causados por um balão perto de regiões aeroportuárias ou em qualquer espaço.

Enquanto meu olhinho se perdia no céu acompanhando o vento leve levar aquele pontinho de luz, só conseguia pensar onde ele cairia e, provavelmente, onde causaria um incêndio…

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Percebam a naturalidade do relato… Aquele “registrei”, primeiríssima pessoa, enche o autor de propriedade para falar sobre a pauta.

Lembrei agora do Alexandre Garcia dizendo “O ministro me disse ontem” ou “Conversei com o presidente”…

Fala sério! Aquilo inspirava muita confiança, dava força à informação.

Talvez chegue um dia em que “every citizen is a kind of Alexandre Garcia” :)

Não raro me pergunto até que ponto devemos levar a sério os noticiários colaborativos de grandes veículos.

A dúvida vem do grau de relevância, preocupação e dedicação que esses veículos dispensam a esses noticiários que, muitas vezes, mais parecem um mero canal dentro de um site. E que, por isso, não precisam, necessariamente, de atualizações frequentes.

É o que acontece com o Yo, Periodista que, várias horas depois de encerrada a greve no transporte público de Paris, traz essa manchete na home (14h23):

Pode parecer que só fico procurando defeitos ou coisas tris, mas a verdade é que eu tenho uma pastinha chamada “ronda”, nos meus favoritos, onde está uma penca de noticiários colaborativos que uso para me informar, tanto quanto a Folha Online ou meu feedreader. E nessas horas eu fico puta porque, enquanto leitora, parece que não mereço a atualização mínima compatível à web por parte dos gestores destes sites.

Exemplo dos bons dado pelo Nelson Pinto, cidadão repórter que testemunhou uma cena de violência urbana e entendeu que aquilo precisava virar notícia.

Ele sacou a câmera (talvez celular), fez uma foto e contou o caso no VC Repórter, do Terra:

É essa sacada que faz o “espírito de colaboração” no jornalismo, que precisa ser cada vez mais instigado no público.

A luta é grande e antiga.

Reprodução de releases em jornais é uma praga que assola o jornalismo.

Daí inventaram a figura do gatekeeper, para ao menos organizar o espaço selecionando o que entra, o que não entra naquela edição. Sim, os critérios do porteiro de jornal eram subjetivíssimos, mas jornais comerciais teriam menos chance de se tornarem house-organs.

Décadas se passaram. Veio a web 2.0 e o leitor passou a ter voz. Surgiu um tal de jornalismo colaborativo e o que a gente vê é… reprodução de releases!

Outras, da triste série:

* Prefeitura de Santa Bárbara constrói mais 6 mil metros de novos meios-fios

* Trevos de Brumal e Barra Feliz passam por reurbanização

* Porto Feliz inaugura Garagem Municipal

* Porto Feliz inaugura nova Garagem Municipal no domingo

Não, eu não me enganei. Tem duas matérias (ou releases) juntinhos. Um publicado dia 1º/11 e o outro, dia 05/11. Critério, pelamordedeus!!!

* Santa Bárbara inicia campanha contra a dengue

* É lançado livro que discute os problemas filosóficos da matemática

* Santa Bárbara recebe teatro do Grupo Giramundo

* Santa Bárbara recebe exposição de cerâmica e arte francesa na Casa da Cultura

* Coral da AABB-SP comemora 30 anos

* Peça “A Utopia” fica em cartaz até o final de novembro

* Sebrae promove cursos e palestras na Uni Sant’Anna

* Ex-Ministro Paulo Renato fará palestra sobre educação a distância em São Paulo

* Governo estadual oferece mais de 4 mil vagas para estagiários

Agora vejam isso:

Não era mais fácil fazer um site da cidade de Porto Feliz? Ou ao menos LER o conteúdo antes de publicar!!

Já trabalhei em assessoria de imprensa e a gente precisa reforçar divulgações de tempos em tempos. Manda o mesmo release, às vezes, tapeado. Mas isso não quer dizer que os veículos REPRODUZAM os mesmos releases todas as vezes que a gente mandar!

Cansei! Tem muito mais lá no Minha Notícia (tenho enorme admiração pela iniciativa do iG, mas fico triste por vê-la tão subaproveitado).

UPDATED:
Então encontrei a Tereza Rangel apontando o problema de publicar textos de agências (mascarados), no UOL. Ela cita o Manual de Redação da Folha:

“Ao se apropriar de material alheio dando o crédito à “Redação”, o UOL engana o leitor. Pior, sem transparência, fica dependente editorialmente da visão do órgão público, por mais que o jornalismo praticado pelas duas agências lute por fazer um jornalismo isento e independente.”

No iG, o crédito é mantido com o internauta ou assessor de imprensa. Mas a enganação ao leitor é igual.

Espanhol não deixa barato, né? Adorei a ironia do título que a Carmen Fernández deu à sua notícia-denúncia no Yo, Periodista:

Será que, depois dessa, vão desmatar a selva do bairro dela?

Tenho lá minhas implicâncias sobre o uso de espaços colaborativos para fins institucionais. Acho um tanto abusivo e fora de propósito.

Mas o chileno El Morrocotudo abre uma possibilidade de uso institucional que casa com a natureza do modelo e permite que a Organização “Juntos por la Vida” denuncie o pedido de doações em nome dessa entidade, sem que o destino seja, de fato, a ONG.

Incrível como alguns conceitos são líquidos no jornalismo colaborativo…

Boas pautas caçadas hoje em noticiários colaborativos:

Yo, Periodista, do El País, deixa o denuncismo de lado e mostra um buraco de rua consertado, muito possivelmente, EM FUNÇÃO de uma notícia no próprio Yo, Periodista, apontando o problema.

Diz Enrique Rojo, cidadão repórter:

“Me pregunto si esta intervención del Ayuntamiento de Madrid habrá sido resultado de la llamada de atención que desde aquí se hizo, o formaría parte de un plan en espera de ejecución. Yo me inclino por pensar lo primero, en la convicción de que el Ayuntamiento de Madrid lee “Yo Periodista”.

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I Reporter (CNN): um vídeo fantástico que mostra o exato instante da explosão de uma bomba às margens de uma rodovia iraquiana em 2005 (pena o delay, né?)

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VCnoG1 (imagens quentes, literalmente, de antes da chegada das equipes de TV)

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VCnoG1 again, um relato em primeira pessoa. Pontualíssimo!

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Eu-Repórter, d’O Globo Online (somente para assinantes)

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Também há os desastres…

Do Minha Notícia

Essa matéria cita uma pesquisa realizada na Escócia, da qual, certamente, o autor da notícia não participou. Pior, muito pior, é quem assina:

Enviada por Dukaramba.com
09/11/2007 - 17:08
(62 notícias publicadas)

A “notícia” é encerrada com a seguinte frase: “Vídeos, notícias bizarras e engraçadas em www.dukaramba.com.”

Isso não é história MINHA, muito menos NOTÍCIA!

Realmente, EDIÇÃO e CRITÉRIO EDITORIAL é algo que falta ser explorado dentro do jornalismo colaborativo… Mas o saldo está positivo, né?