Jornalismo Colaborativo


Ontem produzi e enviei um artigo sobre a dengue no Brasil ao OhmyNews International.

Hoje, ao acessar a área do Repórter Desk, percebi que o status dele ainda era “Saengnamu” (do coreano, “lenha verde não faz fogo” ou artigo ainda não publicado).

Sempre achei bacana esse lance do colaborador poder acompanhar o que é feito de seu trabalho enquanto ainda não foi publicado.

Eis que, ao acessar a página da minha matéria, encontro meu trabalho já com algumas alterações feitas pela redação e a seguinte nota no topo da página: “This article is only lightly edited“.

Percebam o CUIDADO com que a edição é tratada. Cuidado não apenas com o cidadão repórter que quer saber, naturalmente, o que foi feito de seu texto, mas também com o internauta que caiu de pára-quedas naquela página ainda não totalmente finalizada.

ISSO é trabalho JORNALÍSTICO. Isso é RESPEITO com o colaborador.

É por esses e outros detalhes que existe uma diferença gritante entre o OhmyNews e tantas iniciativas de jornalismo colaborativo. Por aí consigo identificar o tal DNA de veículos que nasceram na cultura digital.

É, o que realmente destoa desse slogan é o “news”…

A iniciativa da CNN em eliminar filtros editoriais do iReport - seu site colaborativo de vídeos - é incrível! Ainda mais por vir de uma grande marca de mídia tradicional.

Tomei conhecimento dessa virada do iReport pelo blog do Carlos d’Andrea, que faz uma livre tradução do espírito que rege aquele espaço.

“E se nós voltássemos este site para você?

E se permitíssemos às pessoas publicarem vídeos brutos e contarem histórias que você nunca veria na CNN?

E se tudo isso tivesse um discurso politicamente incorreto?

E se não nos preocupássemos se as histórias estão equilibradas?

E se, ao invés de nós confirmarmos todas as nuances, confiássemos em você para determinar a acuidade (ou não) de uma informação?

E se criássemos um site onde a comunidade - e não a CNN - se tornasse o “O Nome Mais Confiável das Notícias?”

Assim, nós desenvolvemos o IReport.com. Não brinque conosco. Este conteúdo não é vetado ou lido anteriormente pela CNN. É sua plataforma. Em alguns meios jornalísticos, isto é considerado perturbador, até mesmo controverso! Mas nós sabemos que o mundo das notícias está mudando. Nós sabemos que mesmo aqui na CNN nós não podemos estar em todos os lugares, todo o tempo seguindo todas as histórias que importam a você. Assim, te demos o IReport.com. Você vai programá-lo, vai policiá-lo; você vai decidir o que é importante, o que é interessante, o que é notícia.”

***

Aplausos, claro, pela coragem, pela efetiva incorporação da cultura web, onde espaços comunitários fortes se auto-moderam… mas… Não dá para esquecer do “carimbinho” ON CNN.

Me parece que aí mora a incoerência do slogan que dá título a esse post. “News” MESMO, só com o selinho. Só passando pelo crivo editorial. Ou seja: só “se misturam” à programação da TV, feita por jornalistas, os vídeos que recebem esse selinho.

Seriedade sem exclusão ou censura. Modelo bacana de se fazer conteúdo e jornalismo colaborativo!

Há 10 dias comentei o futuro pessimista que o relatório norte-americano “The State of News Media 2008″ prevê ao jornalismo colaborativo.

Lendo há pouco o post do Tiago Dória sobre o mesmo documento, tive a impressão de estarmos falando sobre coisas diferentes.

Tiago cita o relatório: Sites de jornalismo cidadão ainda não têm uma produção satisfatória. Ou seja, no jornalismo online, o chamado “conteúdo gerado pelo usuário” ainda não dá para ser o conteúdo base. Deve estar “remixado” com o conteúdo gerado por profissionais. É convergência, modelos híbridos e não divisão.

Aliás, li o Gillmor hoje fazendo uma análise semelhante no El País.

Diz no jornal: Dan Gillmor, autor del libro We the media, contempla un futuro donde exista una combinación que preservará “lo mejor del actual sistema informativo” y simultáneamente animará la emergencia de nuevas voces, el llamado periodismo ciudadano, “cuyas palabras necesitamos escuchar”.

O que não fica claro é se a mistura dessas vozes que já escutamos e que precisamos escutar deve estar no mesmo veículo. Anyway…

Então volto ao Carlos Castilho, onde li a primeira interpretação do relatório. Ele analisa:

O relatório do State of the News Media 2008 (Estado da Imprensa 2008) divulgado na segunda-feira (17/3) nos Estados Unidos constatou uma desaceleração no crescimento do chamado jornalismo-cidadão contrariando as expectativas surgidas em 2007.
O documento produzido pelo Projeto pela Excelência no Jornalismo, além de identificar um arrefecimento na produção de conteúdos informativos por internautas, afirma que há uma tendência entre os weblogs e páginas informativas independentes de assimilar os mesmos vícios e rotinas do jornalismo profissional. Entre estes erros, o texto destaca uma tendência a limitar a participação de leitores.

Bom, tive que ir à fonte tirar essa dúvida. E lá diz:

The prospects for user-created content, once thought possibly central to the next era of journalism, for now appear more limited, even among “citizen” sites and blogs. News people report the most promising parts of citizen input currently are new ideas, sources, comments and to some extent pictures and video. But citizens posting news content has proved less valuable, with too little that is new or verifiable. (It may thrive at smaller outlets with fewer resources.) And the skepticism is not restricted to the traditional mainstream media or “MSM.” The array of citizen-produced news and blog sites is reaching a meaningful level. But a study of citizen media contained in this report finds most of these sites do not let outsiders do more than comment on the site’s own material, the same as most traditional news sites. Few allow the posting of news, information, community events or even letters to the editors. And blog sites are even more restricted. In short, rather than rejecting the “gatekeeper” role of traditional journalism, for now citizen journalists and bloggers appear for now to be recreating it in other places.

A frase em negrito me diz muito porque remete à questão do CRITÉRIO editorial de publicação de conteúdo gerado pelo usuário, que tanto sinto falta em noticiários colaborativos.

O fato de não serem tão passíveis de verificação fica por conta do amadurecimento da rede. Vejam bem: não é um demérito do UGC. Mas uma peculiaridade dessa dinâmica de funcionamento do meio online com que o jornalismo ainda não se habituou. Talvez as dinâmicas de verificação sejam outras no meio digital.

Mais adiante, o relatório quase se contradiz:

Citizen news sites are growing, some staffed by those who once worked for local news operations. A research study of 15 markets produced by a team of academics at the University of Missouri, Ohio State University and Michigan State found more than 60 citizen news sites in those communities. These sites, however, were often as, if not more, closed to user-created content than Web sites of more traditional news organizations.

“Quase” se contradiz porque limita que o crescimento é restrito àqueles sites mais locais.

Mas afinal: o jornalismo colaborativo encontra terreno mais fértil nos noticiários hiperlocais ou precisa ser mixado com a grande mídia para ganhar notoriedade?

Vixe! Parece que arrumei mais uma encrenca para queimar neurônios… :) Ainda não sei a resposta para essa questão.

Alguém arrisca?

A rede de rádio e notícias online Cadena Ser, do grupo Prisacom, de Madri anuncia seu braço colaborativo, o SerPeriodista.

Nome pertinente, proposta pertinente (saiba mais no Periodismo Ciudadano) e logo pertinente… até porque já é usado e dá certo com o Yo, Periodista, do El País.

Embora ambos pertençam à Prisa, não justifica a falta de criatividade.

Há uns dias apontei aquilo que vou usar muito em aulas e palestras como exemplo de eficiência em jornalismo colaborativo, no Leitor Repórter, de Zero Hora.

Longe de tirar o mérito conquistado pelo noticiário, hoje me deparo com outra situação exemplar nesse mesmo espaço: as quatro primeiras notícias da home (17h40) são, na verdade, a repetição de duas pautas.

A primeira é: Incêndio no portal de Tapes e Incêndio atinge área florestal em Tapes.

E a segunda: Vizinho Alado e Um hóspede inusitado (sobre um gavião habitando as bandas ali do Lindóia, em Porto Alegre - meu território, aliás, que foi bem bom rever).

As duas pautas têm relevância, as notícias estão bem montadas mas… é a isso que me refiro quando digo que o papel do jornalista, em noticiários colaborativos, também é ORGANIZAR o espaço editorial.

Em 2006 tive uma matéria sobre o show dos Rolling Stones no RJ negada pelo OhmyNews. O feedback do Todd explicava que o OMNI havia recebido nada menos que 6 artigos sobre o mesmo tema. Na condição de editor, teve que escolher o melhor, o mais completo ou aquele que foi enviado antes.

Não chego a tanto. Sugiro que, nos casos em que mais de um colaborador manda material sobre a mesma pauta, se edite o conteúdo em retrancas ou suítes (até porque, embora a pauta seja a mesma, os dados podem ter diferenças e isso é muito saudável à pluralidade do noticiário).

Bom, o Leitor Repórter tem claramente jornalista que edita o material, trabalha nele, consulta especialista (vide as próprias notícias) antes de publicar. Mas esse é o tipo de detalhe que faz muita diferença na imagem que o espaço transmite. A situação reflete, possivelmente, equipes enxutas e tempo exíguo de dedicação a essa estética editorial.

Experiências e aprendizados, enfim, como a web deve ser.

O VC Repórter, do Terra, tem muita coisa a melhorar. Mas hoje encontrei por lá algo raro: uma colaboração com alto valor noticioso foi publicada antes de muito noticiário grandão.

A pauta é a queda de um avião bimotor na Bahia, hoje de manhãzinha, com saldo de dois mortos.

G1 - 11h24
Dois morrem em acidente aéreo na Bahia

Folha Online / UOL Notícias - 11h33
Avião de pequeno porte cai e deixa dois mortos em Lençóis (BA)

iG - 12:04
Queda de avião deixa dois mortos na Bahia

A Tarde Online (de Salvador) - 13h44
Avião cai em lençóis e deixa dois mortos

O Dia Online - 16h17
Queda de avião deixa dois mortos na BA

… e…

VC Repórter - 9h28
Avião bimotor cai na Bahia e 2 morrem

Ao que o Google indica, o autor dessa colaboração, Arnold Coelho, é um designer gráfico que trabalha no interior da Bahia. Nada como um repórter a qualquer momento em todos os lugares ;)

Juliano Spyer publica no Webinsider uma análise muito lúcida sobre uma questão que pautou a conversa que tive ainda hoje pela manhã, com o Rafael Sbarai: por que o jornalismo colaborativo não vinga aqui no Brasil?

O ponto de vista do Ju foca a filtragem dos jornalistas como um impecilho ao crescimento. Ele ironiza:

Precisamos filtrar a informação enviada pelos usuários para garantir a correção da notícia e não comprometer a reputação do veículo.

As pautas também destoam daquilo que se espera de um veículo deste viés.

São aceitos materiais sobre curiosidades, aberrações ou denúncias que quando muito servem para alimentar comentários como: - Todo político é corrupto… - Olha o que fazem com os nossos impostos… - Ricos nunca são presos…

Não há dúvidas, Ju. Tuas críticas me soam corretas. Mas a solução disso não está na auto-moderação.

Tu falas de braços colaborativos de portais. E eu te lembro que portais não nasceram para ser colaborativos. Assim como a mídia tradicional. São tão unidirecionais quanto o jornal impresso. Como esperar, de veículos assim, uma cultura digital que valorize a espontaneidade, que acredite no potencial da comunidade a ponto de abrir mão desse controle? O peso da marca é sempre maior.

Apesar disso, marcas fortes como G1 e O Globo Online têm levado a cabo noticiários colaborativos até bacanas, com tolices, sim, mas com um jornalismo hiperlocal que a mídia mainstream não contempla.

Antes da auto-moderação, parece que alguns passos devem ser dados por essas marcas tradicionais que querem fazer colaboração:

1) estreitar laços de relacionamento com seus colaboradores
2) definir critérios de noticiabilidade decentes
3) reforçar a atualização
4) promover contatos offline ou pessoais
5) gratificar o colaborador de maneira simbólica (o que pode implicar na criação de um ambiente competitivo saudável)
6) … (quem dá mais?)

Assim, talvez, a gente estabeleça o espírito de comunidade nesses noticiários. Envolvidos, pertencentes àquele espaço, quem sabe a auto-moderação não funciona?

Uma última observação: Slashdot não é jornalismo, não se pretende nem se vende assim. E mesmo auto-moderado, esses noticiários, para serem jornalísticos, precisam ter ao menos o acompanhamento de jornalistas profissionais.

Não deixem de ler o artigo do Juliano.

A seção Leitor-Repórter, de Zero Hora, publica hoje a solução de um problema urbano denunciado por meio de seu espaço colaborativo.

No dia 20 de março, o internauta Emerson Carlos Siqueira Dorneles falou da dificuldade do pedestre trafegar sobre a calçada da rua Ramiro Barcelos quase esquina Cristóvão Colombo, por conta de um orelhão que obstruía a passagem.

Menos de uma semana depois, hoje, o mesmo colaborador envia para o Leitor-Repórter uma nota informando que o orelhão havia sido retirado.

ANTES DO LEITOR-REPÓRTER

DEPOIS DO LEITOR-REPÓRTER

Fica a questão: teria este noticiário colaborativo mobilizado as autorizades públicas a solucionarem o problema?

***

Excelente feedback promovido pelo Leitor-Repórter.

O jornalismo tradicional está em crise. E agora, a estratégia é dizer que o jornalismo colaborativo TAMBÉM está em crise!

O relatório deste ano do “State of the News Media”, divulgado essa semana e comentado pelo Carlos Castilho, aponta para a desaceleração do “jornalismo cidadão” e conteúdos produzidos por internautas. A justificativa é a incorporação de rotinas e vícios de redação por parte dos cidadãos repórteres. Isso faria com que os editores destes noticiários barrassem muito mais as colaborações.

Agora, vejamos:

1) qual a base dessa futurologia?

2) editores barrando colaborações do cidadão repórter me parece muito mais um fortalecimento do CRITÉRIO de publicação, algo tão saudável que só pode conferir mais relevância e credibilidade e, portanto, melhorar o noticiário colaborativo.

Outra coisa que o documento prevê é a mídia tradicional se repensando (algo que já deveria ocorrer há tempo!). Com a palavra, Castilho:

“(…) o informe destaca o aprofundamento de mudanças qualitativas no conceito de notícia e na funcionalidade dos veículos de comunicação em massa. A notícia está deixando de ser um produto para tornar-se um serviço”

Ora, faça-me o favor! Que coisa mais batida esse lance de jornalismo ser um serviço. Ouço esse chavão desde antes da faculdade. E mais: por que diabos a notícia DEIXARIA de ser um produto para ser um serviço, se ela JÁ É AS DUAS COISAS?

***

Buenas, tudo o que eu sei sobre esse relatório é através da coluna do Carlos Castilho, indicada pela Cris Delphino. Mas se a análise dele foi fiel ao teor do documento, vamos combinar… que troço bem besta!

Na última semana, dois pesquisadores de jornalismo colaborativo - Cristine Delphino e Rafael Sbarai - me procuraram para conversarmos sobre esse tema e ambos me fizeram perguntas referentes ao sucesso do OhmyNews entre os coreanos e a baixa (ou menor) adesão de brasileiros a noticiários colaborativos.

Respondi por pura percepção, isto é, não tenho dados científicos que comprovem as minhas hipóteses. Mas vamos lá! São duas partes:

1) O brasileiro ainda não se percebe capaz de colaborar com um noticiário. A figura do jornalista ainda é mítica por demais. Aproximar-se de um exemplar dessa espécie habitante de torres de marfim não é para o bico deles. Quiçá fazer alguma coisa parecida com o show que nos apresentam diariamente.

2) Por outro lado, a consciência de uma cultura colaborativa ainda não floresceu no nosso imaginário. “Depois de trabalhar 14 horas, pegar ônibus e metrô lotadaços, sorry, não quero colaborar, produzir notícias. Ainda mais se só o dono do site ganha dinheiro com isso.” Essa mentalidade (e realidade) ainda afasta o brasileiro de ambiente colaborativos.

Isso contribui para que plataformas como VCnoG1, Minha Notícia, VC Repórter, FotoRepórter, Eu-Repórter e tals sofrem para “engrenar”. Já alertei ao pessoal do iG sobre o ninho de ratos que se tornou o Minha Notícia, onde se oficializou o título de “assessor de imprensa cidadão” (sim, porque tá minado de releases lá!).

Aí a Márcia Menezes, diretor de jornalismo do G1, destacou semana passada, durante debate comemorativo aos 70 anos da BBC Brasil, que é preciso CRITÉRIO para dar seriedade a um espaço colaborativo.

Ela comentou que os materiais que mais chegam ao VCnoG1 são releases, textos copiados da internet e, recentemente, receberam uma pseudo-foto que, ampliada, denunciou-se um frame capturado da programação da TV. (Na hora lembrei do caso do UOL. Ah, se eles tivessem passado a foto para o povo de imagem, né? Anyway…)

A Márcia encerrou a palestra dela propondo um desafio aos jornalistas: sem sufocar o público (isso já nem é mais possível), o foco é não perder o controle sobre a informação integrada.

É isso aí, Márcia! Cada cidadão é um repórter. Mas jornalistas são necessários para organizar o processo colaborativo (sim, porque colaboração não tem nada a ver com anarquia ;-) )

***

Many thanks à Ana Carmem, que contou bastante do evento no seu blog e gravou o videozito acima.

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