Arte


A noite foi ótima, claro! Discutir jornalismo colaborativo com pessoas tão bem preparadas e de boas idéias é sempre instigante e me faz lembrar das aulas do Juremir, quando deixava a Famecos com a cabeça fervilhando.

Ana Elisa Ribero, Jorge Rocha, Julio Daio Borges, Pedro Markun, Zé Marcelo Zacchi, Alexandre Matias e outras pessoas que iluminaram a noite, obrigada!

Mas o que roubou a minha atenção ao participar do Palavra na Tela, organizado pelo Digestivo Cultural, foi o lugar onde a discussão aconteceu.

Nada menos do que… a casa onde viveu Mario de Andrade.

No final do evento eu conversei com a Kalu, que trabalha lá e cuja mamys é pesquisadora da relação de Mario com o universo musical. Kalu pareceu uma pessoa muito gentil e conhecedora da vida de Mario. Contou até como ele morreu…

Foi naquela casa, enquanto descia essa escada, que sentiu uma fisgada no peito. Caiu na escada mesmo e dali foi levado ao quarto, no piso de cima, de onde não saiu com vida.

Preciso voltar lá. Preciso! Quero sentir mais o Mario por aqueles corredores, aquelas prateleiras, dizem que há um porão cheeeeio de livros dele… Quero chamar o Mario para um chá, como sempre acontece quando vou no Municipal :)

Se você for à 6ª Bienal do Mercosul, não comece pelo Santander Cultural. Ao contrário, deixe-o por último. Isso se você é daqueles que deixa o melhor bombom da caixa pro final. Ou quer simplesmente evitar frustrações. Ocorre que a mostra Anatomia da melancolia, do argentino Jorge Macchi, é a melhor parte, disparado, dessa 6ª Bienal. Talvez, a única que preste.

E presta muito!

O vazio da grande nave do prédio do Santander, cortado por uma sinfonia executada pela OSPA e projetada num telão ao fundo, com créditos desfocados, como um filme que chega ao fim, prenuncia uma experiência altamente sensibilizante.

Macchi trata da melancolia, sim, mas com uma poesia que a traduz em ternura, pura delicadeza. Coisa de argentino que bate panela em praça pública e bota fogo na bombonera com o mesmo encantamento e magia de um tango de Piazzolla.

Como ver doçura em vidros tragicamente quebrados, em mapas de cidades-fantasma onde só “sobrevivem” cemitérios nos recortes do artista? Mas acredite: ela há. Ainda que seja numa fina camada de percepção estética com que o espectador recobre o conjunto de obras, onde tudo que está em um espaço de arte, arquiteturalmente sacralizado (o prédio do Santander é A imponência, para quem não conhece, e talvez por isso fosse o mais vazio naquele primeiro fim-de-semana pós abertura de Bienal), deve tocar. Incomodar, acolher, sufocar, praguejar, afeiçoar.

Macchi desperta contradição. Trata da morte em metáforas que a deixam menos dura do que parece.

Mas não apenas de “fins” se faz a monográfica de Macchi nessa 6ª Bienal. Os “meios” que substanciam seu percurso criativo talvez sejam o toque mais surpreendente dessa exposição.

Macchi traduz luz em matéria, som em luz, brinca com o visual, o tátil, o sensorial em todas as suas facetas, entrelaçando-os.

É assim que os pontos de luz de um globo de boate atravessam as paredes de gesso da sala. Ou o trânsito despretensioso de uma avenida qualquer, em cinco vias, como cinco são as linhas de uma partitura, se transforma em melodia.

Estou descobrindo um parceiro de Gil Vicente e Farnese de Andrade na minha galeria de preferências estéticas. E lembrar que na Bienal em que trabalhei, Macchi também expôs… Era um trabalho bem menor, com recortes da comunicação urbana. Elementos de mídia. Ele parece fascinado com isso. Dessa vez, jornais e uma vídeo-instalação com letreiros outdoor pontuam “Anatomia da Melancolia”.

O Santander já tem fama de receber as mostras hype das Bienais do Mercosul. Se Macchi se consagrar, mesmo, como o ponto alto dessa edição, não será apenas por tradição.

Isso é claramente perceptível nas estações pedagógicas, onde qualquer visitante pode deixar bilhetinhos ao artista sobre sua percepção, mandar recados, fazer desenhos, whatever. A estação de Macchi era a ÚNICA CHEIA, em que os espaços do painel para deixar os bilhetinhos guardavam, cada um, quatro, cinco manifestações do público. Claro que prestigiei esse lado “colaborativo” da Bienal e deixei meus pitacos lá ;)

No MARGS, os painéis de Francisco Matto e Öyvind Fahlström (quem conseguir pronunciar ganha um doce) estavam coerentemente vazios. Matto não me disse nada. E a única impressão que Fahlström me provocou é como a gente deve se expressar quando toma ácido..

Dali para diante - rumo ao Cais do Porto -, a Bienal só piora. Em vários aspectos: uma superinfra de lazer à beira do Guaíba contrastando com uma expografia sufocante. Guardaram a Bienal em CAIXAS. E deram o nome à exposição de CONVERSAS!!

O que menos vi foram obras dialogando. Nem entre si. Nem com o espaço. Muito menos comigo. Um amontoado de trivialidades cuja fruição “correta” (se é que existe fruição incorreta de uma obra de arte) não acontece num calor escaldante de 35º porto-alegrenses.

Não conheço Marcos Balbino, quem assina a coordenação da produção de expografia. Mas esse primeiro contato com seu trabalho foi, no mínimo, decepcionante.

Ok, há algumas obras como o Teatro do Chat e o Poxipics que fogem à obviedade por extrapolar o ambiente expositivo e avançar pela rede, fazendo com que a obra continue na internet.

William Kentridge também se distingue do restante em 7 Fragments for Georgés Méliès, uma vídeo-instalação plural, numerosa, onde todos os vídeos são absolutamente encantadores e por isso provocam uma ansiedade tremenda em quem deseja ver todos ao mesmo tempo. Coisa desses dias.

Isso é provocação. E é isso que espero da arte contemporânea. Especialmente, de uma Bienal. Tem que tocar, instigar, cutucar. Tenho que sair de lá diferente do que entrei. Senão não há sentido. E infelizmente, foram pouquíssimas as intervenções que realmente me disseram alguma coisa.

As demais, numa silenciosa banalidade, fazem dessa 6ª uma pobre Bienal.

Da quadra de ensaio da Vai-Vai ao Auditório do Ibirapuera. Da vazia e aterrorizante avenida Pedro Álvares Cabral para a Casa das Rosas. E de lá, ao amanhecer. Com direito a pit stop prá uma dormidinha num dos quartos da casa e a café da manhã. 

O problema é que essa Virada Cultural me abriu a cabeça prá coisas que não queria ver, entender ou admitir que é verdade.

Abrir-se à vida é bom. Mas não tanto.

Então o querido Walter me deixou um scrap dando dessas notícias que ninguém gosta de saber, e reproduziu em seguida essa nota do Correio de Povo de ontem:

“O jornalista gaúcho Aldo Obino faleceu, ontem, aos 93 anos, de insuficiência respiratória. Durante 50 anos - de janeiro de 1934 até dezembro de 1984, quando se aposentou - ele trabalhou para o jornal Correio do Povo, na área cultural, como crítico de arte. Figura destacada e muito respeitada frente à cultura rio-grandense, Obino sempre foi consultado quando se queria alguma avaliação nessa área. Era também convidado para palestras e para escrever prefácios de livros.

O jornalista nasceu em 25 de outubro de 1913, foi casado com dona Wilma Agustone Obino. O casal não teve filhos. O corpo do jornalista será sepultado neste sábado, às 10h, no Cemitério da Santa Casa de Porto Alegre. O corpo do crítico está sendo velado na capela 15 do cemitério. ‘Aldo Obino: notas de arte’ é um livro, organizado por Cida Golin, com entrevista e seleção da crítica de arte de Obino, desenvolvido pelo Margs.”

Eu participei desse livro e posso me sentir honrada por isso. Tio Aldo era uma pessoa maravilhosa, generosa mas não com arte ruim! Prá esses ele baixava lenha enquanto a dona Wilma trazia doces e sorvetes maravilhosos acompanhados por licor de cereja enquanto a Cida e eu passávamos longas tardes de entrevista no escritório do apartamento deles, na rua Fernando Machado, em Porto Alegre.

Artistas que viraram estrelinhas, preparem-se! Chegou o Tio Aldo por aí! ^.^