Sim, ele foi meu guru no mestrado. Mais do que isso: é meu guru nos valores que o jornalismo tem na minha vida. Especialmente o jornalismo colaborativo. Cheguei a dar uma de tiete e tirei foto ao lado dele em Seul.

E olha só o que ele disse em uma entrevista para o La Vanguardia, da Espanha, citada pelo Periodismo Ciudadano:

“Gillmor critica a las grandes corporaciones mediáticas que “dan la posibilidad al ciudadano de enviar información, pero no le hacen caso y si la utilizan no les pagan”, esto, afirma, “no es una conversación y de esta manera no se ayuda a la gente porque no hay un feedback”.

Ao ler isso tenho a sensação de não estar completamente maluca, como muitos coleguinhas me vêem, ao aconselhá-los a fornecer feedback em 100% dos conteúdos enviados pelo público em projetos de UGC.

Dar retorno ou não é um grande indicativo da seriedade que o veículo dispensa ao seu próprio projeto colaborativo.

Digo isso porque há algumas semanas perguntava à Beth Saad, em uma palestra que ela deu, se as pessoas fruem o conteúdo veiculado em canais colaborativos dos grandes players ou se isso só é válido enquanto “dispositivo de publicação”. É um viés qualitativo, sabe? E diz respeito a cumprir, de fato, com a missão jornalística. Isso ainda não me está claro. Talvez esteja longe de clarear. O que tenho são hipóteses. Mas já é assunto para outro post.

Eu confesso: quando escrevi este post, falava do Roberto Gerosa, editor de Veja.com:

“Eu tenho dois pés atrás com jornalismo colaborativo, interatividade total com o leitor, mas gosto de saber de todas as experiências, de todas as alternativas, pois acho que precisamos enfrentar o tema mais dia e menos dia”

E esse dia chegou.

Veja lançou nas últimas semanas duas iniciativas prá lá de bacanas com conteúdo colaborativo: o hotsite Propostas para o Brasil, em Veja 40 Anos e o blog Tragédia em Santa Catarina.

Como não sou uma ombudswoman oficial, parece incabível analisar esses dois casos publicamente. Ainda mais porque participei do projeto do hostsite dos 40 anos. O que me cabe é alertar que a ambição colaborativa vai além do que está online hoje, ou seja, temos o fator UGC presente, mas em escala crescente.

Já no blog de Santa Catarina o que me chamou a atenção enquanto leitora foi o tal do “outro lado” da realidade: pela manhã o Fala Brasil, da Record, mostrou o proprietário de uma transportadora catarinense reclamando do prejuízo gerado por funcionários que não puderam trabalhar em função da enchente ter atingido suas casas. Já no blog da Veja, uma moradora de Blumenau conta que fecharam a porta do shopping onde trabalha na cara dela, impedindo que ela trabalhasse.

Leitura geral: o dia de enfrentar o “tema UGC” chegou para o Beto, para a Veja e, certamente chegará para todos os veículos tradicionais de jornalismo. Resta acompanhar qual a relevância desses espaços e do conteúdo que aparecem neles. É aí que o modelo colaborativo poderá cumprir sua função social.

Olha só que curioso… Uma pesquisa da Attributor, empresa dedicada ao mapeamento de conteúdo digital diz que material jornalístico na rede tem 140% mais audiência FORA do site onde foi publicado originalmente.

jornalismo digital attributor

A pesquisa diz ainda que essa replicabilidade faz com que os players de mídia deixem de abocanhar pelo menos US$ 100 mil ao ano. Isso porque os veículos ainda preferem o controle sobre os SEUS conteúdos do que um mergulho profundo na cultura digital de copyleft, creative commons, P2P, open source e inteligência coletiva.

É como negar o poder da mídia social em replicabilidade e viralização. Outras pessoas chamariam isso de “Pirataria!!”. Então pergunto: vão encarar?

Não façam isso. Um codigozito html no final dos conteúdos com link back para o site de origem e um convite “COPIE ESTE CONTEÚDO” faz todo mundo sair ganhando. A comunidade ganha o conteúdo + associação à marca e o veículo ganha audiência + projeção da marca nos seus nichos mais específicos.

O lance é tirar proveito da “pirataria” e não tentar evitá-la. Até mesmo porque essa última alternativa é impossível.

Lembrei desse livro do Jean Baudrillard ao acessar as webcams da Procempa, que transmitem ao vivo a Feira do Livro de Porto Alegre. E senti uma mistura de “nadismo” com o amor de uma tiete, o provincianismo de uma gaúcha (que sou) e a vontade que o tele-transporte logo seja uma realidade.


Feira do Livro Porto Alegre

A gente sente pela tela. Não há dúvida. E se transporta em desejo para qualquer lugar. Lembro que assistia também à câmera do Banco Real na Av. Paulista antes de morar aqui.

Só que às vezes a gente não consegue ver direito a tela, porque as lágrimas turvam um pouco a visão…

Nessas câmeras rapidinhas e bacaninhas da Procempa, falta só sentir o cheiro da tinta impressa, do café passado e do jacarandá florido :-)

Feira do Livro, aí vou eu!!!!!!!!

Curioso que há momentos em que essa tal colaboração cai nas graças de alguns segmentos. A bola da vez (literalmente) é o esporte. Ou, mais literalmente ainda, o futebol

Na última semana eu soube de dois lançamentos de plataformas 2.0 de grandes players de mídia: LanceActivo 2.0 (do Lance!) e FutPedia (da Globo.com).


lance activo

Esse primeiro é uma rede social de amantes de futebol. Como defensora de não se reinventar a roda, fui surpreendida pelo potencial de um grupo ter fôlego suficiente para habitar uma nova rede social TEMÁTICA. E que tema… Futebol inflama! E bota o povo pra falar! Tal como eu… quando vi que o Grêmio NÃO ESTAVA entre os times “mais amados”. COMO ASSIM?, pensei. Preciso ajudar a mudar isso já!!! ;-) Fiz meu cadastro e mostrei meu gremismo praquela turma de corinthianos, são-paulinos, palmeirenses, vascaínos, colorados (argh!)…

O projeto é de um grande amigo e baita profissional digitálico Paulo Ferreira (PH), que tá mega de parabéns pela iniciativa, a que desejo vida beeeeem longa :-)

futpedia

Já o FutPedia surge como uma promessa. Sim, a idéia é ser uma enciclopédia de futebol com aspectos históricos, com resultados de jogos, perfil de jogadores, estádios, times… e colaborativa! Mas essa última e melhor parte só fica pro ano que vem.

A matéria do Globo.com diz assim:

“A enciclopédia virtual também permitirá, em uma fase mais avançada, ainda em 2009, a participação efetiva dos aficionados pelo futebol, que poderão colaborar no conteúdo, com perfis dos jogadores, descrição de partidas históricas e até publicar imagens, como fotos antigas do esporte e outros itens de memorabilia.”

No final de setembro a comunidade ligada a jornalismo colaborativo (cidadão, open source e afins) acompanhou com certo pesar o fim do OhmyNews Japan, um dos maiores investimentos já realizados nesta seara (US$ 10 milhões, em 2006). Era mais que uma “filial” do sul-coreano OhmyNews; era a expansão de um entendimento do jornalismo coerente à cultura digital.

ohmylife

No lugar do OhmyNews Japan, porém, surgia o OhmyLife que, na época, Rafa Sbarai e eu achamos que seria uma espécie de Big Brother de cidadãos repórteres, algo no estilo “real life” ou parecido.

Sem encontrar informações sobre o OhmyLife em alfabeto ocidental, troquei um mail com o Jean K. Min essa semana, diretor internacional do OhmyNews, que esclareceu:

OhmyLife tem como objetivo experimentar a evolução do modelo do jornalismo cidadão para a análise de produtos e serviços comerciais vendidos no Japão.

“Cerca de 5 mil cidadãos repórteres japoneses formalmente ativos no site serão convidados a visitar e avaliar uma série de produtos e serviços comerciais junto com o grupo de profissionais da redação do então OhmyNews Japão.

Uma vez que produtos e serviços não são avaliados somente por profissionais que podem ter ligações obscuras com a agenda ou ligações com grandes corporações, mas também por cidadãos repórteres independentes, diminuímos o perigo de conflito de interesses. Nós acreditamos que isso assegura a credibilidade do processo de avaliação através do OhmyLife.

Ao lançar o OhmyLife, nós acreditamos que o OhmyNews Japão envolve sua plataforma para atender a uma demanda singular dos usuários japoneses, além de expandir o potencial de aplicação do conceito de participação cidadã.”

A idéia é expandir o uso desse sistema de avaliação/chancela popular para outras áreas, futuramente, como, por exemplo, em campanhas eleitorais.

Achei a idéia muito bem-vinda e o fato de ser no Japão, talvez, se explique pelo alto poder de consumo daquela sociedade, especialmente de bens eletrônicos, que requerem esse tipo de validação.

Engraçado que, há algumas semanas, eu ainda sugeria que uma publicação de tecnologia oferecesse ao usuário um espaço de publicação de reviews, mas a cultura da colaboração ainda tem muito a evoluir do lado de cá do Pacífico…

Vida longa ao OhmyLife!

Não poderia escrever sobre os encantos da Feira, tampouco dos meus olhos lacrimejados na manhã de hoje, quando lembrei, em pleno ônibus transitando pela Avenida Paulista, que a 53ª Feira do Livro começaria dali a poucas horas.

Não poderia…

Mas então vamos falar do infográfico mais do que interessante que o ZH online fez com o mapa da Feira. Adivinha se não fui olhar quais barraquinhas estavam em frente ao MARGS?

mapa feira do livro

Buenas, pra esse ano, além do livro do Francisco Menezes e do Luciano Klöckner, vou comprar o Cafezinho Impresso, uma coletânea de piadas do programa homônimo no rádio.

Ponto pro Clic!

Quarta à noite, chovendinho, descia minha lomba de volta para casa, quando tomei maior do que quando passei em frente da Funeral House (também perto da minha casa): o muro tinha caído!

Era um muro dos fundos de um prédio chicoso da rua dos Franceses. O prédio é enorme. Espero, de coração, que esteja fundado na rocha. Porque o barranco tá vindo na direção do meu prédio… E de uma UBS.

Bem que eu avisei no G1.

***

O G1 demorou cerca de uma hora para publicar minha mantéria. E ainda que lá não haja uma área de acompanhamento de conteúdo para os usuários, recebi um mail automático na hora em que enviei o conteúdo e, outro, quando minha matéria foi ao ar. Simples. E bem amarrado o processo. Gostei!

A frase foi dita pelo Germán Quiroga, do Ponto Frio, durante o Seminário Info de e-Commerce, que aconteceu na última segunda, aqui em São Paulo. E me assustou.

Ok, é fato que a mídia social potencializa a opinião de amigos na hora da compra. A Amazon nos conta que reviews produzidos por usuários fortalecem a experiência do comércio online. UGC, enfim, gera mais venda (ou ao menos maior segurança e popularidade no e-commerce).

Mas puritanismos à parte, comparar o indivíduo a uma indústria me levou a pensar que, de repente, somos vistos pela mídia como uma linha de produção. Mecanizada. Montável e desmontável conforme os interesses da empresa. Estigmatizada.

A web 2.0 parece apontar justamente para o contrário disso. A produção do conteúdo pelo usuário não é a simples obediência a uma ordem (ou chance) dada por grandes empresas. É justamente a RESPOSTA às relações público-marca, até então conduzidas (e induzidas) pelo posicionamento oficial da publicidade.

UGC é crítica, questionamento, versões paralelas que enriquecem as relações comerciais online. Não se pode temê-lo. Tampouco subestimá-lo.

Talvez o Quiroga não tenha dito essa frase com essa intenção. Foi realmente um sinal vermelho que me ocorreu diante da possibilidade de empresas interpretarem o consumidor como operários da sua imagem.

É visível que a publicidade, embora tenha chegado depois nessa onda de mídia social, já está anos-luz à frente do jornalismo na exploração desse ambiente. Mas a velocidade, não raro, passa por cima da reflexão e abre brechas para exageros, deturpações.

UPDATED: 11h31

Esse trechinho do Cluetrain Manifest traduz direitinho meu raciocíno:

“Não somos audiência, ou usuários finais, ou consumidores. Somos seres humanos e nosso alcance é maior do que o seu. Encare isto.”

… que andei ouvindo nas últimas semanas:

“Nós achamos que o público não tem capacidade de produzir um conteúdo de qualidade.”

“O conteúdo produzido pelo público desqualifica o conteúdo editorial.”

“Olha isso: ‘concerteza’! As pessoas não sabem escrever! Não dá pra abrir espaço pra elas!”

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