Mídia espontânea e jornalismo colaborativo

Em 2005, quando estive no OhmyNews, lá em Seul, vi o Mr. Oh Yeon Ho falando sobre as bases de um noticiário colaborativo e sua relação com o mercado. Para além da sustentabilidade financeira garantida pelo modelo padrão de publicidade, Mr. Oh acreditou desde cedo nos “volunteers promoters” – ou aqueles cidadãos repórteres que se incumbiam de viralizar o produto a partir do próprio orgulho de ter participado dele – “Vejam, amigos! Leiam a reportagem que acabei de publicar no OhmyNews!“.

Sim, é uma mistura de uma franca moeda em capital social paga ao colaborador que, através dela, se sente tão parte daquele produto que dissemina aquela marca de modo voluntário, natural, entusiasmado e saturado de credibilidade, já que não recebeu um tostão pra fazer isso.

No último sábado encontrei o Jaime Batista da Silva, colaborador assíduo do VC Repórter, do Terra, divulgando pelo Twitter uma exposição que fará na Câmara dos Vereadores de sua cidade, Blumenau, reunindo fotos que ele publicou no canal de jornalismo colaborativo do portal brasileiro.

A proposta vai além da mídia espontânea. É um caso evidente de enlace social. Não resta dúvidas de que Jaime se orgulha em ser colaborador do VC Repórter. Ele chega a colar sobre sua foto o avatar que o canal mantém no Twitter, como uma espécie de crachá.

O título da exposição também traz o nome do Terra, do VC Repórter. E com isso a mídia gerada por Jaime se prolonga para o ambiente físico, chancelando a força de uma fusão cada vez maior entre ações materiais e digitais.

Certamente, a troca também é benéfica para Jaime, que se projeta nas asas de uma grande marca, porém com um trabalho de própria autoria. Além disso, os interesses em divulgar problemas da cidade e reivindicar soluções pela comunidade de Blumenau também movem a espontaneidade de Jaime. Mas ele só faz isso porque existe uma identificação com o canal. Caso contrário, se não simpatizasse ou não confiasse no espaço, certamente escolheria outro.

Se o uso da marca foi indevido ou não sob o ponto de vista jurídico/corporativo, isso deve ficar em segundo plano quando a maior moeda envolvida possui um valor social inestimável, digna de ser aplaudida por ambas esferas envolvidas: Terra e Jaime.

É a segunda vez que Jaime promove uma exposição assim. A primeira foi no ano passado.

Essa parece a hora certa para criar um time de elite de colaboradores e “pescar” figuras assim para perto do produto.

About Ana Brambilla

Sou jornalista, me interesso por processos colaborativos em mídias digitais, nasci em Porto Alegre, moro aqui mas amo São Paulo ^.^
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5 Responses to Mídia espontânea e jornalismo colaborativo

  1. Oi Ana, esse foi um dos temas discutidos no I Colóquio Internacional sobre Mudanças Estruturais no Jornalismo (@mejor2011) na UnB, em Brasilia. O que leva uma pessoa a prover conteúdo “de graça” para os meios de comunicação? Mais do que por simples prazer ou uma atitude egóica, é a oportunidade do cidadão participar da vida social da sua “aldeia”. E as empresas estão se aproveitando disso, pois além de ampliarem a área de cobertura, especialmente nas notícias da “comunidade”, esses trabalhadores/colaboradores além de gerarem conteúdo ainda fazem propaganda qualificada do veículo. Em tempos de queda de faturamento ou audiência, nada mal ne?

  2. Oi Alzimar!
    Legal saber que esse debate está na academia. Tks pelo feedback.
    Então… será que as empresas estão “se aproveitando” disso? No fundo acho que existe uma troca, talvez não parelha, mas interesses de ambas as partes são satisfeitos nesse processo. É possível que, pra empresa jornalística, a mídia espontânea e o conteúdo produzido, em si, sejam mais lucrativos. Mas o cidadão repórter também tem metas como essas que tu citastes – pertencer à aldeia, satisfação do ego, altruísmo… Não sei se essa fórmula ainda é a melhor, mas ela vem dando certo…
    Abraços!

  3. Oi, Ana. Ótimo tema. Passei a perceber o jornalismo colaborativo de um ponto de vista que não considerava. Obrigado por compartilhar teu conhecimento. E o texto, como os demais, está claro e objetivo.
    Uma contribuição: acho que o jornalismo tem nos comentários de suas notícias outra grande oportunidade; eles são uma editoria à parte. Quantos veículos estão publicando comentários em seu espaço principal, concordando ou não, simplesmente para enriquecer a pauta e dar visibilidade ao leitor? Ele, grato, certamente divulgará o veículo para sua rede.
    Abraço, Juliano Rigatti
    Jornalista

  4. Oi Juliano!
    Obrigada pelo feedback gentil :-)

    Concordo com tua visão sobre os comentários. E sinto que, apesar de alguns veículos, como o Estadão online, darem um destaque especial aos comentários do público, esse conteúdo ainda é muito segregado e devia receber um cuidado maior, principalmente no que diz respeito à moderação (pré ou pós) e ao retorno por parte da redação.

    Bom seria… :-)

  5. Victor Costa says:

    Sou designer e estou aqui me metendo em assuntos de jornalista..rss

    Estou desenvolvendo um site de jornalismo colaborativo para a Região Serrana do Rio, o http://www.rizomanoticias.com.br , como trabalho para a minha pós-graduação pesquisando sobre o assunto tenho a impressão de que ainda a grande questão do jornalismo colaborativo é a dificuldade em se criar bons argumentos para as pessoas participarem.

    abs!

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