A banalização dos cargos de mídias sociais

Logo após a rápida ascensão de uma área estratégica no mercado, é natural que surjam os oportunistas e a estandardização dos cargos. Este artigo da Claudia Valls, na HSM, clama pelo desaparecimento dos “gurus” das mídias sociais. Concordo com boa parte do que a autora defende, mas há um passo anterior – ou talvez decorrente? – à multiplicação desenfreada dos “experts” numa área por onde ainda tateamos.

Me refiro ao ilusório paradigma de achar que o seu sobrinho de 17 anos manja tudo de computador e que, portanto, será “o cara” de mídias sociais da sua empresa. Como se o conhecimento na área fosse proporcional à quantidade de espinhas no rosto…

Papo de quem está à beira dos 30 à parte, tenho uma coluna no TweetDeck que filtra tweets com a expressão “mídias sociais”. E é incrível a quantidade de ofertas de vagas para estagiários, recém-formados, galera sem qualquer experiência no mercado para “resolverem a parada”, a salários realmente incompatíveis com a responsabilidade requerida a quem ocupará uma função tão estratégica em empresas de quaisquer ramos que procuram apostar em plataformas de relacionamento. Mas talvez uma quantia razoável para quem está tão no início da vida que toda a “experiência” que tem em redes sociais seja jogando FarmVille.

Outro dia uma colega de profissão criticou a generalização do cargo de “analista” para identificar qualquer profissional que trabalhe com mídias sociais. “Como se não precisassem existir diretores de mídias sociais, criação, atendimento… é tudo analista de mídias sociais”.

Pois para mequetrefizar ainda mais a situação, encontrei esta vaga-pérola, de “estagiário-analista de mídias sociais”:

Agora me diz… qual estudante, por mais ninja que seja, terá know-how para fazer análise de comportamento do público nas redes sociais, elaboração de planejamento e de relatórios de mídia, gestão de campanhas, elaboração/manutenção de aplicativos, PLANEJAMENTO ESTRATÉGICO PARA AÇÕES DO CLIENTE DENTRO DO AMBIENTE ONLINE!!!!! Acho difícil de encontrar até profissionais antenados, pós-graduados e com experiência no meio online que dêem conta de demandas tão complexas e nevrálgicas pra uma empresa. Algumas vagas se limitam a exigir que o candidato tenha feito ESTÁGIO em comunicação… O anúncio não fala em valores de salário, mas algum estagiário recebe mais de R$ 1.500 hoje, nessa área?

Nem vamos chegar na negligência em relação aos profissionais que investem em desbravar uma área através de pesquisas, eventos, viagens e criação de boas práticas. Empresas que entregam suas estratégias de mídias sociais nas mãos de profissionais (ou estagiários) despreparados sofrem de uma tremenda falta de conhecimento sobre o que se trata o campo ou são mesmo irresponsáveis.

Quer saber? Nem pro estagiário é bom! Como aprendiz, ele tem que ter um tutor! E não carregar nas costas o compromisso de um coordenador com salário e experiência de estagiário.

Nada como viver a fase de amadurecimento de uma área. Fico curiosa para ver qual modelo de mercado e de profissional vai prosperar. Não defendo a figura do especialista até porque ela não existe; o que existem são profissionais cujas carreiras se direcionam já há 8, 10, 15 anos para o ambiente digital, foram early adopters e combinam uso pessoal com aplicação de mercado E reflexão, crítica, pesquisa.

Nem tanto, nem tão pouco. Nem gurus, nem estagiários apenas. Mas um jogo mais limpo, aberto e com responsabilidades compatíveis ao repertório de cada profissional, à demanda de cada empresa e às exigências naturais da área.

EM TEMPO (e pra descontrair…)

Acabo de receber pela lista de discussão WeBees um e-mail bárbaro tirando sarro das seguintes “ofertas”:

“Alguem conhece um escravo anão que manja fazer apresentações no Keynote ?? Estamos oferecendo até almoço se preciso.”

“Fulano de Tal tem #vaga para personal Stylist. Ter experiencia em vestir coxinha é diferencial. xxxx@xxxx.com”

“Agencias de Publicidade esta com #vagas para fornecedores de REBITE e café 100% cafeína. Contato: naodurmo@a3dias.emendei.finaldesemana.com”

Valeu, Jess! ;-D

About Ana Brambilla

Sou jornalista, doutoranda em jornalismo e mídias sociais, nasci em Porto Alegre, amo São Paulo e moro em Buenos Aires ^.^
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16 Responses to A banalização dos cargos de mídias sociais

  1. Excelente artigo! E ainda acrescento: empresas que colocam um estagiário ou qualquer outro funcionário para cuidar TAMBÉM das redes sociais, além das atribuições diárias. Como se fosse algo fácil e rápido de se fazer, afinal, rede social não é coisa tão séria assim, nem vende tanto! Ai ai ai…. e mentalidade empresarial brasileira, viu.

  2. Muitíssimo bem lembrado, Larissa!! Aliás, essa situação que tu citou parece ser uma das mais recorrentes.
    Mídias Sociais é aquele “puxadinho” nas tarefas de alguém que não esteja lá muito ocupado (ou às vezes até já está cheio de trabalho, mas uma “coisa pequena” a mais não vai fazer tanta diferença)… ;-)

  3. Realmente é patético o que as empresas oferecem de salários pelo desafio proposto. E ainda acham que estão fazendo certo colocando numa posição super estratégica um estagiário de mil reais… E depois vem a mídia dizer que as empresas não estão encontrando mão de obra qualificada. Também puderá. Pagando essa ninharia nunca vão encontrar realmente.
    Tanto o empregado quanto o free lancer têm que saber se valorizar perante o mercado, senão vão sofrer no futuro essa ansiedade de não perder negócios e oportunidades hoje.
    Excelente post e crítica.

  4. Ricardo Morais de Oliveira says:

    Hoje em dia qualquer um que tenha um profile em alguma rede social, acha que pode fazer marketing digital, só pq tem muitos seguidores que comentam suas fotos ou posts! Cada piada!

  5. Paulo Araujo says:

    O ideal seria primeiro uma agência fazer um plano e somente depois, se for preciso, contrata-se um funcionário seja ele tempo integral, com pós doc ou estagiário.

    Mas isso não acontece só com mídias sociais não. Isso acontece em todas as áreas. O dono ou a área de RH escreve essas coisas sem saber o que a atividade requer. Falta conhecimento do contrante.

    E tudo isso é alimentado pelos livros e sites que trazem a receita de bolo “Tudo o que vc precisa saber de mídia social em 20 lições”. É decidir tomar o remédio sem antes consultar um médico.

    Então, para ajudar a fazer um mundo melhor, se vc um dia vc decidir escrever um post sobre mídia social começe com “Caro leitor, antes de mais nada contrate uma agência!”.

  6. Roxana Roberta says:

    Isso aconteceu com o Design Gráfico e com outras profissões. “Ah o meu sobrinho mexe com computador, faz umas coisas no Corel e no Photoshop”. Pronto! Ele já um design gráfico. Recebe um valor abaixo e fica responsável por uma infinidade de coisas. Esse post é um alerta para as empresas, pois um profissional de midias socias é mais complexo e vai além do simples fato de saber “mexer” nas redes sociais. Excelente post!

  7. Pingback: Mais argumentos contra os ‘especialistas em mídia social’ | Webmanario

  8. Leticia Ruiz says:

    Excelente post !!! Isso é uma coisa q está me preocupando muito, os empresários não possuem muita noção do profissional q necessitam, simplesmente jogam vagas onde recrutam profissionais multidiciplinares, está se perdendo a necessidade do especialista, precisamos ter muito conhecimento do todo, isso é impraticável !!!
    Isso não ocorre apenas em midia sociais é em toda web, o profissional precisa ter senso estético, conhecimentos de tripografia, wireframe e saber programar muito, são visões diferentes, pedir para um programador ter senso estético é muito complicado !!!!

  9. Daniela says:

    Bravo! Disse tudo o que empresários e responsáveis pela contratação nas empresas precisam saber.
    Fico muito incomodada com essas empresas que tratam a profissão como se fosse de atividades “tarefeiras” que podem ser desempenhadas por profissionais medíocres.

    Espero pela mudança de visão e da valorização da profissão no mercado.
    :)

  10. Bem articulado, raramente se vê textos assim no mundo sujo dos blogueiros repassadores de informação.
    Já senti essa mesma revolta quando a internet em si ainda era novidade, pediam de um estagiário conhecimento de ASP (na época era TOP), PHP e FLASH. Conhecimentos que obviamente nem o cara master da empresa teria.
    Isso tem a ver com o jeito esperto do brasileiro lidar com as novidades e da malandragem de não assumir que não tem budget para mais um “profissional” é daí que surgem os graus de SENIOR a JUNIOR, estagiário, aprendiz, etc.
    Para não pagar o que o profissional vale é mais simples dizer> “Você é JUNIOR”, mas a questão que fica é: O que é ser SENIOR em Redes Sociais se nem o tempo de existência desta área justifica um encarecimento devido a experiência?

  11. Tiago Cordeiro says:

    Salvo engano, é até ilegal você ter um estágio nesse tipo de função. Certo jornal do RJ era pródigo nisso, sei de história até de estagiária fechando edição.

    Mais do que um sinal de que o mercado amadurece, significa também que gestores precisam crescer. Antes as empresas não sabiam o que eram as redes sociais e acho que isso continua, mas elas já sabem que precisam disso. O duro é começarem desse jeito. Lamentável.

  12. “Nada como viver a fase de amadurecimento de uma área. Fico curiosa para ver qual modelo de mercado e de profissional vai prosperar.”
    Também estou curioso.
    Colocações oportuníssimas, Ana.

  13. Nao vou focar na parte do “guru” de midias sociais, mas sim da questao estagio.
    Pelo que venho visto (sou academico de publicidade) o grande problema esta nas empresas que acham que a funçao estagiario eh uma pessoa que faz TUDO e nao cobra nada, as empresas simplismente veem essa funçao como mao de obra barata.
    O que acaba sendo ruim para ambos, pois a empresa nao vai ter uma pessoa qualificada para aquela funçao e vai acabar sendo mal vista. E o estagiario que o seu principal objetivo na empresa eh aprender, vai se desmotivar com a sua funçao.
    Temos muito que evoluir ainda, enquanto formos o povo que da um “jeitinho”, nunca faremos nada bem feito e sempre acharemos que estamos ganhando.

    Desculpe qualquer erro, escrevi do celular. :)

  14. Jonatan says:

    Excelente artigo! Parabéns!
    Aqui em Porto Alegre ainda não vejo tantas vagas no mercado, e se aparecem com certeza não são para profissionais experientes, parece que as vagas são mais para dizer que existe na empresa o vulgo “Analista de Mídias Sociais”, para não parecer que Mídias Sociais não fazem parte da visão estratégica, das reuniões de diretoria, etc.

  15. É revoltante, tanto para as posições em mídias sociais como de programadores, webdesigners, editores de vídeo, entre outros. Os requisitos e funções planejadas são tantas que é impossível que o “estagiário” ou “recém-formando” possa dar conta com segurança e chega a ser frustrante a remuneração oferecida no final.

  16. Mayra Lobão says:

    Sempre assim, exigências altíssimas e incompatíveis com salário e tempo de estudo…
    Hoje em dia, estagiário = mão de obra barata =/

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