Tweets editoriais patrocinados

Não é de hoje que sou percebo certa incoerência em usuários de redes sociais se colocarem como espaços comerciais de mídia. Isso vem desde os probloggers com seus publieditoriais até tuiteiros cobrando – e bem! – por inserções publicitárias.

A razão é uma só: são indivíduos – e não marcas midiáticas vendendo espaços comerciais.

Estou na contramão de uma galera que considero gente fina por outras razões, tipo o Edney Souza, um dos precursores deste formato. Sem confundir com conteúdo customizado, publicidade em perfis de indivíduos em redes sociais me soam tão fakes quanto perfis de marcas no Orkut ou no Facebook – que são lugares de pessoas, com cor de olhos, cabelo, altura e preferência sexual, atributos que… bem… marcas não dispõem.

A caro custo, veículos de imprensa conseguiram (?) estabelecer uma limite entre o que é editorial e o que é publicitário, validando a venda de espaços comerciais ao lado de conteúdos pretensamente desinteressados por outras relações que excluam o compromisso com a verdade.

Bom, até na mídia convencional, igreja e estado ainda se confundem. Imagina em um ser humano, cujo compromisso deveria ser com a própria consciência, que gera a sua opinião.

Talvez por isso, alguns “protwitters” sejam arredios ao falarem sobre o assunto, como cita esta matéria no Estadão:

“Essa resistência em assumir o uso do microblog como mídia se justifica pela ideia cultivada pelos usuários de que os comentários só são críveis se forem espontâneos.
Mas a manipulação comercial é um fato, embora tuiteiros que cobram para divulgar mensagens publicitárias prefiram esconder o jogo.”

E se um perfil editorial vender inserções publicitárias? Quer saber? Acho mais natural. Ao menos é mídia vendendo mídia. E não ser humano vendendo opinião. (Em casos mais exagerados, vendendo até o corpo como mídia)

Por mais que a sinalização aconteça através de não tão claras hashtags do tipo #ad, aplaudo a iniciativa do perfil @igbeleza, do portal iG, em escancarar o jogo de que se trata de um tweet publicitário.

Depois de inquirir e ser inquirida tantas vezes sobre como extrair dinheiro das redes sociais no jornalismo, será essa uma tendência?

UPDATED: o ex-aluno e querido Maurício Tomedi comentou pelo Twitter sobre os ads do perfil @VFeminina. Disse a ele que ainda prefiro o tipo A do que o tipo B. Jogar limpo tem tudo a ver com mídias sociais. E quanto mais explícito for o anúncio, especialmente citando o perfil do anunciante como agente da mensagem, mais limpo o jogo será.

E isso me leva a pensar noutro formato, mas que ainda não encontrei por aí… O RT de mensagens publicitárias em perfis editoriais. Alguém já viu isso? Agradeceria por me indicar :-)

About Ana Brambilla

Sou jornalista, doutoranda em jornalismo e mídias sociais, nasci em Porto Alegre, amo São Paulo e moro em Buenos Aires ^.^
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8 Responses to Tweets editoriais patrocinados

  1. Ana,

    Concordo com suas opiniões tanto em relação aos indivíduos como em relação aos perfis corporativos, mas gostaria de saber sua opinião sobre o perfil do Ronaldo, que não existia e foi criado como parte de uma ação da Claro e com o patrocínio transparante para todos – se encaixa em que contexto? O do indivíduo vendendo comerciais ou o de um perfil de um indivíduo com uma “pegada” de perfil corporativo?

    abs,

    André Boavistta

  2. Bem lembrado o caso do Ronaldo e da Claro, André. É uma outra terceira possibilidade, não? Bem específica para casos de personalidades, algo próxima de comerciais do tipo “Xuxa usando Monange”, mas com um toque mais pessoal, que só as mídias sociais conseguem promover.

    Ou ainda: o @ClaroRonaldo pode ser entendido como um boné da Nike ou de outra marca que o jogador esteja usando enquanto dá uma entrevista. O acordo parece ser: “fale o que quiser, mas com o nosso logo”. Ao contrário dos tweets pagos, em que o acordo é: “fale o que nós quisermos, sem o nosso logo”.

  3. Alessandra says:

    esse tipo que vc procura seria algo como uma revista retuitando outro produto publicado pela mesma empresa?

  4. Hum… Não exatamente, Alessandra. Mas o perfil de uma revista retuitando um perfil da Unilever, por exemplo, onde a empresa anuncia algum produto, sabe? Será que alguém já fez isso em troca de grana? Será um formato interessante?

  5. Oi, Ana

    Acho que esse tipo de publicidade está mais ligado a formação de garotos-propaganda do que da venda de espaço publicitário. Banners em blogs seriam como os anúncios, mas publieditoriais, tweets patrocinados e afins são como Zeca Barbosa cantando “Adocica” em comercial de cerveja.

    Como somos jornalistas, é normal que a gente se sinta desconfortável com isso. Entendemos que uma vez que fazemos esse tipo de coisa, não temos mais isenção para criticar aquela marca ou seu mercado. Eu acho que a melhor saída é mesmo o blogueiro saber se a atividade dele tem mais a ver com credibilidade ou com entretenimento. Não dá para ganhar dinheiro com as duas opções do mesmo jeito. É como Marília Gabriela dizendo que é jornalista na hora de entrevistar, mas fazendo comercial de tudo que pagam, certo? :)

  6. Pois é, Tiago… mas até no entretenimento precisamos de credibilidade. É algo mais do que jornalístico; é humano, é de consciência. Mas isso cada um sabe o que fazer com a sua. A Marília Gabriela preferiu fazer comercial e, sabe-se lá porquê, boa parte do público segue acreditando no que ela diz enquanto jornalista. Mas não acho certo…

  7. Olá, Ana! Muito interessante o seu post. As pessoas estão cada vez mais criativas para ganhar dinheiro… Gostaria de entrevistá-la para uma matéria sobre redes sociais da Editora Escala. Você topa? Muito obrigada! abs

  8. A frase do dia: “E se um perfil editorial vender inserções publicitárias? Quer saber? Acho mais natural. Ao menos é mídia vendendo mídia. E não ser humano vendendo opinião.”
    Ana, Aninha, que beleza de texto (vou parar de elogiar senão vão achar sou PAGO pra isso =P). Fico triste com esse tipo de ação. Ainda mais quando tentam fazer natural e declaradamente não é, sabe?
    No caso do Ronaldo, por exemplo, qual seria o prazo pra isso? Um belo dia ele mudará pra @RonaldoFenomeno e tudo bem?
    Vi algumas (tristes, BEM tristes) ações em vídeos de profiles que dão opinião, mesmo que humorística, no caso do Felipe Neto e do PC Siqueira, ambos “jabazando” a PEPSI. Inclusive acho que o problema de se fazer isso em vídeos é o praticamente o mesmo de se (re)tuitar algo comprado. Péssimo, inclusive. Ninguém vai lá ver propaganda. Enfim, voltando, o primeiro não mostra a menor criatividade para falar do refrigerante, usa a campanha na caruda e fica com a lata, no meio do que seria algo “sério”: http://youtu.be/VKyAGU9b334. Já no caso do PC Siqueira, embora um pouco mais parecido com os vídeos dele, também dá aquela sensação de “puts… é comprado”: http://youtu.be/AkUr9bcCJio
    Eu penso em quem tá vendo isso tudo, sejam tuítes, retuites, vídeos ou posts. Já vi blogueira falando que amava a mãe mais que tudo, fazia uma declaração de amor e tudo pra falar do Bradesco no Natal. #fail
    Aí eu passo a achar que TUDO que essa pessoa vai compartilhar na rede tem chance (muita) de ser publicidade. Luva de boxe, esmalte, bicicleta, livro, shampoo, curso de inglês e chocolate. Carros. Faculdades. Tanto faz, não confio mais. E dá-lhe unfollow. E dá-lhe conteúdo (de certa forma) fake. E dá-lhe falta de opinião.
    E dá-lhe Ana Brambilla. Viva você! Não para de questionar esse tipo de coisa. Por favor!
    Beijo grande!
    Rogerinho (como você diria!)

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