Acomodados ou pró-ativos?

“Visualize uma luz branca entrando pelo alto de sua cabeça.
Lentamente, esta luz se espalha pelo seu corpo.
A luz relaxa cada músculo; cura cada órgão seu…”

- Como são boas essas meditações de visualização, Mãe…
- Isso tem impacto pra vocês de hoje porque vocês não pegaram o tempo das radionovelas.
- Por quê?
- Porque lá a gente tinha que imaginar cada cena e hoje em dia já vem tudo pronto!

Dona Sonia não só tem razão como me deixou com a pulga atrás da orelha… Como podemos receber tudo pronto e, ao mesmo tempo, celebrar os processos colaborativos na mídia digital?

Somos acomodados ou pró-ativos? Suamos com Wii. O 3D nos conduz a outras realidades sensoriais sem sairmos da cadeira. Escolho o cardápio da janta acessando o site de telentregas. Se não estivermos em casa na hora da novela assistimos pelo celular mesmo. A lembrança do aniversário dos amigos chega até nós pelas redes sociais e até para cutucá-los apertamos um botão.

E sonhamos com TV digital interativa?

E achamos que o diferencial de um site é o que ele tem de interativo?

Queremos realmente fazer algo? O que queremos fazer?

No caso da TV ainda sou meio turrona e penso em Dominique Wolton (se bem lembro) falando sobre a espinha dorsal do ser humano. Ela muda drasticamente de ângulo entre quem assiste à TV e quem se senta à frente de um computador. No primeiro caso, a inclinação do corpo para trás, no sofá, indica aceitação, entrega, ao contrário do segundo caso, onde se vê uma curvatura para frente, insinuando imersão, ação.

Nem tudo deve ser colaborativo. Nem todo o conteúdo tem de precisar do dedo do público para fazer sentido, sob pena de sofrer com o abandono. Daí lembro de projetos como o Limão, em sua proposta inicial, os falecidos Gostei e PinFotos, da Abril, o moribundo Abril Blogs, a TBox, do Terra além de homes e streamings customizáveis à lá NetVibes da vida.

Isso não quer dizer que o público seja preguiçoso, mas que ele tem foco e já selecionou onde quer interagir e qual conteúdo vai produzir. Noutras palavras, ele vai fazer o que ELE quiser, onde ELE quiser, não exatamente no NOSSO site o conteúdo que NÓS quisermos.

As redes sociais se firmam como os locais absolutos para interação e definem, dia após dia, qual o tipo de UGC o usuário está a fim de produzir. É do nosso agrado? Pouco importa. O jornalismo até vai bem ao se infiltrar nestes ambientes próprios do usuário e inventar maneiras de integrar a interação das redes com o conteúdo dos veículos.

Eu arriscaria dizer, inclusive, que as mídias sociais incentivaram o público a produzir ainda mais conteúdo, um acontecimento que tem sido cada vez melhor explorado pelos veículos. Mas vale lembrar que rede social e veículo online ainda estão na mesma mídia.

Como será que a TV vai se sair em redes sociais? Terá ela algum outro apoio para mudar a postura cervical do espectador e estimulá-lo a interagir, a criar?

About Ana Brambilla

Sou jornalista, doutoranda em jornalismo e mídias sociais, nasci em Porto Alegre, amo São Paulo e moro em Buenos Aires ^.^
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2 Responses to Acomodados ou pró-ativos?

  1. flávia barros says:

    Reflexão muuuito pertinente! E a imagem da interação do gato com a TV está perfeita!!

  2. Cris Ventura says:

    Oi, Ana! Lembra de mim, da Abril?! Como vc está?! Que bom ler teus textos! Me ensinam e me fazem pensar muito ;-)
    Beijos!

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