Isso é jornalismo? Who cares?

Imagem de George, licenciada por Creative Commons

Outro dia uma amiga me contou, afobada:

ELA: Viu que o câncer da Dilma voltou?
EU: Não! Onde tu viu?
ELA: No Twitter!
EU: Sim, mas no Twitter de quem?
ELA: Ah, não lembro. No Twitter…

Quando comecei a estudar jornalismo colaborativo, em 2003, um conteúdo ser ou não ser jornalismo era uma grande questão. Talvez a imposição dos veículos perante o público ainda mantivesse aberto esse abismo entre conteúdo e notícia. Sempre sublinhei a diferença entre conteúdo colaborativo (YouTube, Flickr, blogs) e jornalismo colaborativo nas aulas e conversas com estudantes.

Lembro que fiquei fula da vida quando perguntei ao Dr. Roberto Civita, durante uma palestra lá na Abril, em 2006, alguma coisa sobre jornalismo cidadão em relação à então recém-lançada Sou+Eu. Ele me respondeu indicando que a revista não era jornalística. Hoje tenho que dar risada da minha brabeza.

O jornalismo não morreu e nem morrerá (sorry, JR). O que a Sou+Eu faz ainda é jornalismo, aos meus olhos, assim como qualquer veículo de imprensa que assim se propõe e leva a cabo a rotina editorial. Mas… quem se importa com isso?

Informação virou commodity. Twitter virou imprensa.
(Demorei pra perceber?)

Assim como o público nunca questionou o que a Fátima Bernardes ou o Faustão dizem pela TV, quem se preocupará em questionar uma informação tuitada?

No debate em que participei na Campus Party desse ano, ao lado do Alexandre Matias, do Demi Getschko e do André Forastieri, nosso moderador, o Gil Giardelli, perguntou se entendíamos o Wikileaks como jornalismo. Fui a única do grupo que discordou. “Mas, afinal, quem se importa se algo é jornalismo ou não?” Pelo jeito, só nós, jornalistas :-P

O público consome informação já sem fazer distinção entre o que esperar de cada mídia, tampouco saber quem a faz, que processo está por trás. Não se trata de uma visão pessimista. É apenas uma crise. E crises costumam ser oportunidades férteis para reinvenções.

E aí, jornalismo? Vai ficar aí parado ou fazer alguma coisa para recuperar o diferencial e a relevância? Talvez se “impor” já não seja exatamente a melhor coisa a fazer…

About Ana Brambilla

Sou jornalista, me interesso por processos colaborativos em mídias digitais, nasci em Porto Alegre, moro aqui mas amo São Paulo ^.^
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4 Responses to Isso é jornalismo? Who cares?

  1. Pingback: Tweets that mention Isso é jornalismo? Who cares? | Libellus -- Topsy.com

  2. Anderson Costa says:

    Eu não sei, Ana. Essa questão da relevância ficou muito cinza. Isso já existia com os blogs, agora só ficou maior com os microblogs. É bem isso que você coloca no post, no diálogo. Mas eu arrisco um palpite: as pessoas estão se adaptando às novas mídias, mas com os preceitos e cognições das anteriores. Pra eles é tudo broadcasting. Por isso o rick & rolll dá tão certo: tem quem clique.

    Eu me tomo como exemplo. Trabalho o dia inteiro com o twitter ligado (quando preciso focar, desligo). E enquanto ele tá ligado sou bombardeado por muito mais informações do que as minhas visitas diárias a portais de notícias. Eu não deixei de consumir notícias, se você for ver consumo até mais com o Twitter. Mas a fonte agora são meus amigos e perfis conhecidos.

    Acho que se a informação virou commodity, a relevância também vai virar. Afinal, qualquer um pode tê-la, ou conclamá-la. E quem, nos tempos de hoje, vai parar pra questionar?

    Agora saber o que os jornalistas podem fazer nesse cenário é difícil. Poucos de nós fomos treinados para lidar com esse debate constante e agora numa velocidade irreal. Talvez melhorar técnicas e se adaptar a esse novo estilo de broadcast, onde o veículo pouco importa.

  3. Justamente, Anderson. Quem, hoje em dia, vai parar para questionar algo? É esse o ponto!

    O que me preocupa – e acho que poderia ser diferente – é a facilidade com que as pessoas aceitam as informações. Não chega a ser necessário um questionamento profundo, mas estar atento ao menos à autoria, sabe? Só isso acho que já daria um rumo mais confiável às percepções que o público tem sobre as informações tão múltiplas e desconexas que se encontra pelas redes.

    O que os jornalistas e veículos podem fazer neste cenário? Eu aposto em “entrar no diálogo”. Enquanto a gente estiver mantendo linguagem de manchetão de papel em tweets, não respondendo ao público, agindo como se fosse um agente transmissivo e não conversacional, mais distante a gente fica do usuário e menos relevância o veículo vai tendo nessa ágora.

    Se os veículos não entrarem na roda de conversa das redes sociais, poderão não só serem tratados com indiferença pelo público, mas com repúdio.

  4. Vou responder como designer, ento, por favor, me avisem se meus pensamentos forem hereges demais.
    Aninha, lindo texto, timo post. E cada vez sinto falta disso, reflexo. Na minha rea – o design, (quase) TUDO copiado. At agncia grande que cobra os olhos da cara tem cases de cpia, como a Agncia frica e a campanha do automvel h uns meses. Acabei (mesmo) de pedir pra um blog tirar dois posts meus de l, que eram basicamente de imagens. Ok, ok, gastei um bom tempo pra chegar no tema, encontrar uma boa fonte, pegar as imagens (20 entre 200), trat-las e cort-las pro blog e subir. Posts de imagens so os mais “simples” de fazer e ainda assim tem gente com coragem de copiar. E pior, copiar e jogar num blog que tem publicidade. Ou seja, a MINHA seleo de imagens e tudo que falei vai virar grana no bolso de outro. E foi um blog de publicitrios supostamente criativos que copiou. Nem dentro da rea eles se incomodam. E o que tem a ver isso com o jornalismo? Essa cpia doente de tudo a todo momento se comporta igualzinha. Fonte? “Pra qu?”.
    Mas eu no desisto do design nem deixo de acreditar no poder que ele tem. E nem desisto do jornalismo. S que agora precisamos selecionar melhor o que vemos/lemos. Muito melhor, talvez. Mas conforta saber que ainda tem bastante gente fazendo coisas incrveis por a.
    Ana, vem logo pra Sampa!
    Beijos!

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