OhmyNews completa 10 anos

Em 22 de fevereiro de 2000, Oh Yeon Ho dava início a um novo capítulo na história do jornalismo mundial. Em Seul, nascia o OhmyNews, que considero, com tranquilidade, o primeiro veículo de jornalismo colaborativo da história.

Há controvérsias, sabemos. Mas jornalismo colaborativo tal como entendo desde 2003, quando comecei a pesquisar este tema, o OhmyNews foi o primeiro a fazer. Ou seja: jornalismo fundamentado, com profissionais editando e selecionando o conteúdo produzido por cidadãos repórteres do mundo inteiro. E 100% assim. Credibilidade e uso coerente da dupla via do meio digital.

Se o modelo estivesse tão errado, certamente o OhmyNews não completaria seu 10º aniversário.

Há problemas, especialmente de ordem financeira, que os socialmedia watchers não me deixariam esquecer. Problemas que já levaram à transformação radical do OhmyNews Japan e levantaram a possibilidade do crowdfunding para a manutenção do OhmyNews coreano. Há problemas um tanto visíveis no OhmyNews International, que sofre com a atualização lenta, uma plataforma superada (embora ainda à frente de muitos sistemas de envio que se vê por outros noticiários colaborativos mundo afora) e outras questões menos visíveis a nós, que estamos de fora.

Questões assim não são exclusivas ao OhmyNews International. Já faz cerca de um ano que sinto um clima de “commoditie” na atmosfera do jornalismo colaborativo. Houve quem tenha me erguido a hipótese deste modelo estar fadado ao desaparecimento. Creio que ainda é cedo para falarmos nisto. Mas concordo: há o que se pensar a respeito da sobrevivência e da manutenção do jornalismo colaborativo.

Nada melhor do que os 10 bravos anos do OhmyNews para abrir esta discussão!

Como apontar problemas é fácil, vamos ao que chamarei de 10 POSSIBILIDADES PARA O OHMYNEWS (e para o jornalismo colaborativo como um todo):

1. Hiperlocalização
Não faltam exemplos de iniciativas editoriais colaborativas hiperlocais. The Local, do New York Times, pode ser uma delas. A rede chilena ancorada por El Morrocotudo, outro exemplo forte de que a regionalização fortalece o interesse dos colaboradores e dos consumidores daquele conteúdo.
O conceito do village reporter, defendido por Yeon Ho, é valorizado quando o ecossistema digital reconhece a importância do relato do indivíduo “comum” para o seu microcosmos. As coisas não precisam mais ser grandes para ter sua importância. O que é “broad” ou “mass” vem sendo repensado. E o modelo colaborativo só tem a beneficiar-se com isto.
Olhando mais ao OhmyNews International: ele ficaria bem como um hub de vários OhmyNews nacionais.

2. Crowdfunding
Meu modelo maior ainda é o Spot.Us. Idealismo demais acreditar que o público financiará a produção de conteúdos do seu interesse? Isso já aconteceu em cobertura de guerra. Se tem quem pague (ou quem acredita que irão pagar) por ACESSO a conteúdo, por que não pagar pela sua PRODUÇÃO? É uma questão de interesses.

3. Voluntariado
Já está mais do que entendido que existe um grupo de noticiários colaborativos que são desdobramentos de veículos convencionais. Há outro grupo, no entanto, que se dedicam inteiramente ao conteúdo produzido por cidadãos repórteres. Neste caso, a edição continua nas mãos de jornalistas. E se estes jornalistas – que não raro acreditam no modelo – cooperassem na forma de um grupo cadastrado de editores voluntários? Isto daria mais agilidade e ritmo de atualização intenso ao veículo, além de agitar sua vida nas redes sociais (já falo disso).

4. Software livre
Eu sugeriria a substituição do atual sistema de gerenciamento de conteúdo do OhmyNews pelo Drupal, pelo WordPress ou mesmo pelo Joomla. Sairia mais barato, o resultado seria bem melhor para os editores e para os colaboradores e, além disto, integraria o OhmyNews à rede de desenvolvedores do software livre – nada mais coerente, quando se fala em jornalismo open source :-)

5. Notícias… e algo mais
Eu suavizaria o perfil editorial do OhmyNews. Seguiria com hard news, mas deixaria que uma bela fatia do conteúdo fosse ocupada por conteúdos mais triviais como álbuns de viagem, receitas, família, dicas de moda e beleza, arte, dicas de diversão… como se misturasse uma revista semanal de informação com um portal feminino. Sem perder o foco geográfico! E tudo em primeiríssima pessoa!

6. Mais interação!
Parece brincadeira sugerir que um site cujo conteúdo é essencialmente feito pelo público se torne mais interativo. Mas esta sugestão remete à interação imediata. Àquilo que hoje só existe na forma de uma enquete na página do OhmyNews; no máximo, na avaliação das matérias. Talvez votações mais explícitas, galerias de fotos, customização do visual à lá BBC, formulários para envio de comentários direto na capa, com publicação moderada, mas sem grandes barreiras. Um box do Twitter e outro do Facebook para agitar as coisas.

7. Novo design
Aqui eu pediria ajuda ao Rogerinho Fratin e outros amigos webdesigneres especialistas em como atrair pessoas pelo visual. Não se trata de uma urgência. O visual do OhmyNews não é ruim. Eu diria que ele é coerente com o viés editorial a que se propõe. Mas para atender à “flexibilização” do conteúdo que sugiro, um design mais leve, mais colorido e com imagens maiores cairia bem.

8. Mídias Sociais
Existem grupos do OhmyNews no Facebook, um perfil no Twitter e até um canal do OhmyLife no YouTube, com vídeos-reviews de produtos. Bem bacana. Mas estes canais precisariam de muito mais gás! E não esperando isto do público, mas partindo de “dentro”, da própria equipe de funcionários ou voluntários do OhmyNews.

9. Creative Commons
Sempre me pareceu mais coerente que um noticiário colaborativo publicasse o conteúdo sob Creative Commons. Embora hoje o conteúdo esteja licenciado por Copyright, o OhmyNews não impede e até estimula que cidadãos repórteres publiquem seus artigos – sem ônus – em outros lugares. Teve cidadão repórter que já editou um livro com os textos que fez para o OhmyNews. Entraria mais no “espírito” da coisa.

10. Versão impressa
Por muito tempo o OhmyNews sul-coreano teve uma versão impressa que circulava gratuitamente em Seul. Aos moldes do Metro, este OhmyNews-de-papel podia circular nas localidades com índices não tão altos de acessibilidade digital como na Coréia do Sul. Imagine um jornal gratuito feito por você? Ver o seu nome assinando uma matéria que está sendo distribuída nas sinaleiras, nas farmácias, nas estações de metrô? – este apelo talvez batido ainda poderia “caçar” muitos bons colaboradores em países em desenvolvimento como o Brasil.

É possíve que estas medidas não sejam suficientes para garantir longa vida a um noticiário colaborativo, mais especialmente, ao OhmyNews. Quanto à questão financeira, que é o cerne da história, infelizmente não posso opinar muito. Mas parece que há ainda, sim, um caminho a ser trilhado. E que o jornalismo colaborativo tem muito a evoluir, a aprender com o OhmyNews.

***

Vale ler este artigo da Ronda Hauben, sobre os 10 anos do OhmyNews :-)

About Ana Brambilla

Sou jornalista, doutoranda em jornalismo e mídias sociais, nasci em Porto Alegre, amo São Paulo e moro em Buenos Aires ^.^
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4 Responses to OhmyNews completa 10 anos

  1. Dani says:

    Muito bom Ana, material para se pensar!

  2. rafaelsbarai says:

    Aninha,

    Suas questões foram bem pontuadas.
    Em quase todos os quesitos, assino embaixo – principalmente nas categorias de mídia social e crowdfunding.

    Não sei se é um ‘modelo visual conservador’, mas vejo que neste caso o OhmyNews parou no tempo. Estive pesquisando no site esses dias e, sem produzir conteúdo há dois anos, não houve diferença alguma.

    Internauta gosta de mudança. Principalmente visual.
    Acho que neste sentido, eles pecam.

    Bj

  3. Oi Dani! Que bom… a ideia era essa mesmo… Acho que a questão não se encerra por aí. É preciso mais ideias para dar um UP no OhmyNews e retomar a discussão do jornalismo colaborativo como um todo, que está longe de se encerrar. Valeu o RT! beijos

  4. Oi Rafa!

    Considerando que o OhmyNews é um veiculo PARA e PELO público, o visual seria o primeiro quesito, talvez mais imediato para provocar atração. Sou capaz de dar este toque pessoalmente a eles. It means… mandar um mail, né? :-P

    Bom te ver aqui!
    beijos

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