Altieres Rohr comentou sobre o post “Mídia no centro da pseudo-colaboração“:
“O Orkut não faz nenhuma definição de tema e todo tipo de discussão acontece nas suas numerosas comunidades.
O mesmo pode ser dito a respeito do berço da Internet (BBS e USENET), além dos grupos e listas de discussão no Google e no Yahoo!.
Aposto que, independentemente da mídia solicitar ou não a colaboração do internauta sobre algo, haverá uma discussão a respeito, em algum lugar.”
Esse comentário dele me ajudou a desmitificar aquela hipótese de que existiria uma superbarreira na hora do internauta colaborar que é… DÁ TRABALHO!
Isso tá parecido com relacionamentos de casais… Se gostam mesmo um do outro, arrumam tempo e energia para tudo!
Entendo que o tipo de conteúdo produzido no Orkut é beeeem mais fácil e mais rápido de produzir do que uma reportagem pro OhmyNews.
Mas existe um dispositivo para o ato de colaborar: VONTADE
Simples assim.
Não reduzo o estímulo à colaboração a isso. Até porque “vontade” é algo amplo e pode ser composto por outros mileum dispositivos. O que é bom lembrar é esse “histórico” da internet. Se há razões pessoais que te despertem o desejo de colaborar, a coisa flui!
O mais difícil é adentrar nesse universo de “razões pessoais” enquanto os veículos que desejam fazer conteúdo colaborativo ainda lidam com a massa – métrica dos meios tradicionais de comunicação…
Aí é um problema de compreensão do ambiente digital. Nada que muita leitura de Maffesoli, reflexão e pesquisa não ajude
Oba, meu comentário gerou um post! =)
Realmente, concordo contigo 100%: as pessoas precisam ter uma razão para colaborar, para contar sua história ou sua experiência. Não acredito ser uma questão cultural ou social, mas apenas de motivação.
Sempre haverá pessoas com vontade suficiente para colaborar sobre a maioria dos assuntos. É só verificar na internet a quantidade enorme de pessoas que se aglomeram em comunidades de todos os tamanhos para discutir os assuntos e questões mais obscuras.
Com o tempo as pessoas vão ficando “espertas” com a internet, vão aprendendo a identificar os “trolls”, as mentiras, a citar referências, fontes… a separar o joio do trigo, como se diz. Os fóruns e listas moderadas hoje já fazem isso e existe uma consciência crescente a respeito da credibilidade e seriedade necessária para que a troca de conhecimentos aconteça.
É preciso reconhecer que, para muitos brasileiros, a internet ainda é uma incógnita e, para outros mais, um evento raro. Colaboração plena só existirá com acessibilidade plena. Tanto é que o OhMyNews, site-referência, foi criado em um país que possui uma das melhores infra-estruturas de internet do mundo.
Consideremos também que o mesmo OhMyNews teve uma motivação forte, que foi combater a mídia direitista coreana. Certamente, isto mobilizou vários outros esquerdistas no país a contribuir.
Como bem disseste, precisamos entender estes fenômenos.
Abraço.
Concordo com você, Altieres. Basta dar uma olhada em algumas comunidades do Orkut, por exemplo, para notar que, aos poucos, os integrantes aprendem a citar referências, mediar os próprios debates e identificar os boatos. Ao mesmo tempo, acredito que há uma questão cultural por trás da colaboração, sim. A educação é, talvez, a melhor forma de motivar a colaboração e, sobretudo, de viabilizá-la.
Cyro,
Depende de que educação falamos. Eu estudei em escola pública, mas, no ensino fundamental, boa parte dos meus professores também dava aulas na melhor escola particular da região.
Eu ainda estou no início do estudo do jornalismo, mas, tirando uma frase que minha professora de português disse várias vezes em aula, “aprender a escrever é aprender a pensar”.
A educação básica, pelo menos a educação que eu tive, foi centrada na absorção de fatos e conhecimentos gerais. Coisas que a maioria de nós esquece se não tivermos um motivo muito bom para lembrar. Isto não contribui para que se aprenda a pensar.
A escrita, por ser uma atividade do pensamento, “trava” mesmo para pessoas que sabem muito bem memorizar todos os conteúdos das demais disciplinas. Porque não é necessário pensar para repetir.
O jornalismo também é um exercício de pensamento em várias partes do seu processo. Então, para você ter um boa colaboração na internet, em última instância vai valer a arte do pensamento. A análise e verificação de argumentos, por exemplo. Isto é jornalismo também. (A outra parte do jornalismo, creio, é a comunicação/narrativa das informações que se obteve por meio de técnicas de escrita particulares.)
Na maioria das profissões, e talvez até no jornalismo, pode ser possível ativar um modo mecânico onde qualquer tarefa é executada sem que seja preciso refletir a seu respeito. Mas a colaboração, sendo não apenas jornalismo mas também um ato de cidadania, não pode, ao meu ver, ser realizada da mesma forma. Como já foi dito, existe uma motivação para colaborar que não é a mesma da profissional, é pessoal. A própria motivação para colaborar parte de um incômodo, uma crítica, um pensar particular…
Quando dizemos que a educação pode melhorar a desigualdade social, por exemplo, falamos da educação profissional, que não é nada mais do que melhorar o sistema que já está aí e torná-lo acessível para mais pessoas, o que se dá, muitas vezes, com cursos técnicos e profissionalizantes.
Mas a “educação” que poderia nos ajudar aqui é a educação do pensar e da cidadania. É diferente. E tive muito pouco disto na minha vida escolar durante a educação básica (ensino médio e fundamental). Só agora, na faculdade, é que estou tendo isso. É meio tarde, na minha opinião. Mas esta educação é abstrata e só põe o pão na mesa de cientistas, pesquisadores e professores universitários, então não é do interesse de grande parte da população investir nisso, como vemos na crítica generalizada às disciplinas de Antropologia e Ética, obrigatórias em muitas (todas?) faculdades.
Me alonguei um pouco demais aqui, mas enfim… =)
Abraço.
Concordo plenamente, Altieres. Sobretudo, quando você diz que “a educação que poderia nos ajudar aqui é a educação do pensar e da cidadania”. É exatamente nessa educação que, na minha opinião, deve estar o foco para que se possa colaborar de forma eficiente e válida. Um grande abraço!