Há 10 dias comentei o futuro pessimista que o relatório norte-americano “The State of News Media 2008″ prevê ao jornalismo colaborativo.
Lendo há pouco o post do Tiago Dória sobre o mesmo documento, tive a impressão de estarmos falando sobre coisas diferentes.
Tiago cita o relatório: Sites de jornalismo cidadão ainda não têm uma produção satisfatória. Ou seja, no jornalismo online, o chamado “conteúdo gerado pelo usuário” ainda não dá para ser o conteúdo base. Deve estar “remixado” com o conteúdo gerado por profissionais. É convergência, modelos híbridos e não divisão.
Aliás, li o Gillmor hoje fazendo uma análise semelhante no El País.
Diz no jornal: Dan Gillmor, autor del libro We the media, contempla un futuro donde exista una combinación que preservará “lo mejor del actual sistema informativo” y simultáneamente animará la emergencia de nuevas voces, el llamado periodismo ciudadano, “cuyas palabras necesitamos escuchar”.
O que não fica claro é se a mistura dessas vozes que já escutamos e que precisamos escutar deve estar no mesmo veículo. Anyway…
Então volto ao Carlos Castilho, onde li a primeira interpretação do relatório. Ele analisa:
O relatório do State of the News Media 2008 (Estado da Imprensa 2008) divulgado na segunda-feira (17/3) nos Estados Unidos constatou uma desaceleração no crescimento do chamado jornalismo-cidadão contrariando as expectativas surgidas em 2007.
O documento produzido pelo Projeto pela Excelência no Jornalismo, além de identificar um arrefecimento na produção de conteúdos informativos por internautas, afirma que há uma tendência entre os weblogs e páginas informativas independentes de assimilar os mesmos vícios e rotinas do jornalismo profissional. Entre estes erros, o texto destaca uma tendência a limitar a participação de leitores.
Bom, tive que ir à fonte tirar essa dúvida. E lá diz:
The prospects for user-created content, once thought possibly central to the next era of journalism, for now appear more limited, even among “citizen” sites and blogs. News people report the most promising parts of citizen input currently are new ideas, sources, comments and to some extent pictures and video. But citizens posting news content has proved less valuable, with too little that is new or verifiable. (It may thrive at smaller outlets with fewer resources.) And the skepticism is not restricted to the traditional mainstream media or “MSM.” The array of citizen-produced news and blog sites is reaching a meaningful level. But a study of citizen media contained in this report finds most of these sites do not let outsiders do more than comment on the site’s own material, the same as most traditional news sites. Few allow the posting of news, information, community events or even letters to the editors. And blog sites are even more restricted. In short, rather than rejecting the “gatekeeper” role of traditional journalism, for now citizen journalists and bloggers appear for now to be recreating it in other places.
A frase em negrito me diz muito porque remete à questão do CRITÉRIO editorial de publicação de conteúdo gerado pelo usuário, que tanto sinto falta em noticiários colaborativos.
O fato de não serem tão passíveis de verificação fica por conta do amadurecimento da rede. Vejam bem: não é um demérito do UGC. Mas uma peculiaridade dessa dinâmica de funcionamento do meio online com que o jornalismo ainda não se habituou. Talvez as dinâmicas de verificação sejam outras no meio digital.
Mais adiante, o relatório quase se contradiz:
Citizen news sites are growing, some staffed by those who once worked for local news operations. A research study of 15 markets produced by a team of academics at the University of Missouri, Ohio State University and Michigan State found more than 60 citizen news sites in those communities. These sites, however, were often as, if not more, closed to user-created content than Web sites of more traditional news organizations.
“Quase” se contradiz porque limita que o crescimento é restrito àqueles sites mais locais.
Mas afinal: o jornalismo colaborativo encontra terreno mais fértil nos noticiários hiperlocais ou precisa ser mixado com a grande mídia para ganhar notoriedade?
Vixe! Parece que arrumei mais uma encrenca para queimar neurônios…
Ainda não sei a resposta para essa questão.
Alguém arrisca?

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Ei, Ana, acredito que seja mais provável que o jornalismo colaborativo dê certo com foco local, pois aumenta a capacidade de mobilização dos cidadãos interessados e o notíciário torna-se de fato relevante para eles. Infelizmente não tenho visto esta vocação ser explorada a fundo no Brasil… O que você acha?
Carlos, eu tendo a concordar contigo. Não apenas que o hiperlocal seja mais fértil, mas que os veículos sejam colaborativos em ESSÊNCIA (e não apenas a “editoria colaborativa” do jornal XYZ…).
Tava me imaginando hoje em uma banca: se eu olhasse a Folha de S. Paulo de um lado e a Gazeta d’Itália, do Bixiga, do outro lado… olha, eu me sentiria bastante tentada a escolher a Gazeta. Tenho certeza que as notícias ali me interessariam muito mais que as da Folha.
Isso me faz pensar se o modelo colaborativo não pode se desenvolver com força no suporte impresso, já que as comunidades de bairro ainda não estão muito conectadas tecnologicamente no Brasil, né?
Enfim, coisas a pensar, experimentar…
Ana, dei uma lida em alguns textos por aqui no final de semana, mas nem tive tempo de comentar. Lotado de trabalhos da faculdade até o pescoço.
Acho que se as discussões sobre jornalismo colaborativo caminhassem mais pro lado do conteúdo, ao invés do meio de veiculação, o negócio poderia tomar um contorno diferente. Dá para fazer coisas bem interessantes tanto no local quanto no “global”, apesar de o local, como você bem disse aí no comentário, atrair mais a atenção do leitor.
Entendo que o foco no conteúdo é um dos pontos de partida para a criação de uma cultura consistente de jornalismo colaborativo. Veja a imprensa geral: falta criatividade, matérias muito presas ao factual, linhas editoriais que limam boas idéias, excesso de informação e por aí vai. Daí, no jornalismo colaborativo, onde seria o lugar para se trazer o diferencial, a gente vê que tudo caminha sob a mesma dinâmica estabelecida no hard news, pelo menos em modelos como o do G1, por exemplo. Quem colabora, sendo ou não jornalista, ainda está muito ligado a esses critérios estabelecidos nas grandes redações. É difícil encontrar algum conteúdo colaborativo (falo aqui no Brasil, já que não acompanho muito o que rola lá fora) que tenha um teor mais analítico, menos ligado ao imediatismo, conduzido de acordo com o olhar de quem produz o conteúdo.
Quando houver um toque mais pessoal nos conteúdos colaborativos e, sobretudo, uma proposta diferente da apresentada diariamente pelos grandes portais, acredito que o jornalismo colaborativo pode dar boa arrancada.
Ah, Ana, lembra daquela entrevista sobre os blogs? Comecei a postar uma série especial lá no meu blog. Resolvi deixar o principal da sua entrevista mais pro final da série, quando vou abordar mais a questão da monetização e a onda do “blogueiro profissional”.
Abraço.
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