March 2008


Na última semana, dois pesquisadores de jornalismo colaborativo - Cristine Delphino e Rafael Sbarai - me procuraram para conversarmos sobre esse tema e ambos me fizeram perguntas referentes ao sucesso do OhmyNews entre os coreanos e a baixa (ou menor) adesão de brasileiros a noticiários colaborativos.

Respondi por pura percepção, isto é, não tenho dados científicos que comprovem as minhas hipóteses. Mas vamos lá! São duas partes:

1) O brasileiro ainda não se percebe capaz de colaborar com um noticiário. A figura do jornalista ainda é mítica por demais. Aproximar-se de um exemplar dessa espécie habitante de torres de marfim não é para o bico deles. Quiçá fazer alguma coisa parecida com o show que nos apresentam diariamente.

2) Por outro lado, a consciência de uma cultura colaborativa ainda não floresceu no nosso imaginário. “Depois de trabalhar 14 horas, pegar ônibus e metrô lotadaços, sorry, não quero colaborar, produzir notícias. Ainda mais se só o dono do site ganha dinheiro com isso.” Essa mentalidade (e realidade) ainda afasta o brasileiro de ambiente colaborativos.

Isso contribui para que plataformas como VCnoG1, Minha Notícia, VC Repórter, FotoRepórter, Eu-Repórter e tals sofrem para “engrenar”. Já alertei ao pessoal do iG sobre o ninho de ratos que se tornou o Minha Notícia, onde se oficializou o título de “assessor de imprensa cidadão” (sim, porque tá minado de releases lá!).

Aí a Márcia Menezes, diretor de jornalismo do G1, destacou semana passada, durante debate comemorativo aos 70 anos da BBC Brasil, que é preciso CRITÉRIO para dar seriedade a um espaço colaborativo.

Ela comentou que os materiais que mais chegam ao VCnoG1 são releases, textos copiados da internet e, recentemente, receberam uma pseudo-foto que, ampliada, denunciou-se um frame capturado da programação da TV. (Na hora lembrei do caso do UOL. Ah, se eles tivessem passado a foto para o povo de imagem, né? Anyway…)

A Márcia encerrou a palestra dela propondo um desafio aos jornalistas: sem sufocar o público (isso já nem é mais possível), o foco é não perder o controle sobre a informação integrada.

É isso aí, Márcia! Cada cidadão é um repórter. Mas jornalistas são necessários para organizar o processo colaborativo (sim, porque colaboração não tem nada a ver com anarquia ;-) )

***

Many thanks à Ana Carmem, que contou bastante do evento no seu blog e gravou o videozito acima.

Sempre achei os índices de conectividade do brasileiro apontados pelo Ibope NetRatings um pouco falhos. Eles sempre consideravam o número de usuários domésticos, aqueles que acessam à Internet de casa.

Enquanto isso, não é preciso fazer pesquisas extensas para perceber que um grupo muito maior navega em computadores de escolas, faculdades, bibliotecas, no trabalho, telecentros ou… em lan houses!

Daí que o Renato Cruz diz no blog dele que o Cetic (Centro de Estudos sobre as Tecnologias da Informação e da Comunicação) divulgou um estudo onde 49% dos internautas brasileiros aparecem navegando nesses cybercafés.

Nessa mesma pesquisa, 24% acessam do trabalho e, outros 24%, de casa. (O Renato lembra bem que os entrevistados podiam marcar mais de uma opção de acesso.)

Não é à toa que na praia ou mesmo em cidades pequenas, como Toledo, onde morei, lan houses são semeadas a cada esquina, cobrando módicos R$ 2 pela hora de acesso. E vivem lotadas.

Ainda bem.

Confira o podcast “Destaques das Férias 2“, ancorado pelo Pellanda, Pase, Dedexa, enfim, esse povo querido da Famecos/PUCRS.

O Pase comenta o vinda do Steven Johnson ao Brasil e encaminha o debate sobre internet invisível. (@#$%¨&*! que saudade dessas discussões!!!)

Parece brincadeira… mas algumas pessoas já me ouviram dizendo que eu gostaria de REFAZER jornalismo na Famecos hoje. Não que o meu tempo não tenha sido bacana - ao contrário! Essa galera já tomava conta dos laboratórios povoados de Mac do prédio 7. Mas o nível de atualização do jornalismo da Famecos na discussão de cultura digital é assombrante!

Buenas, ouvir esses podcasts é mais do que matar a saudade do gauchês, é voltar a ouvir tudo de bom e novo que esses caras têm a dizer.

Mandem ver, gente! Aguardo o próximo!

Com o perdão do delay (ultimamente, tudo o que não diz respeito à Abril, Cásper ou UniSant’Anna anda com delay), o Breiller comentou aqui semana passada:

“Orkut e MSN são ótimas ferramentas, sim, mas não esgotam o que há de interessante na rede. Muita gente, principalmente entre os mais jovens, tem tempo apenas para o “ócio comunicativo” quando está online.

Por isso, ao analisar os números da internet no país, é interessante avaliar também a motivação das pessoas para usar a internet e quais os reais benefícios e praticidades que a rede proporciona a elas.”

Ele toca de modo indireto numa questão cada vez mais emergente: a relação entre jornalismo e entretenimento na rede.

A preocupação não é nova mas me parece que a ficha demora para cair nas redações. Num ambiente muito mais usado para entretenimento do que para informação, o que será de nós, jornalistas, na produção de noticiários?

***

Hoje pela manhã recebi um e-mail da Renata Aguiar, editora do site da Revista Recreio, pedindo que eu fizesse uma leitura crítica da home.

Respondi à Renata que o site me parece ótimo, já que explora o visual e não satura o internautinha de conteúdo. Disse mais: que ESSE é o público que talvez não desenvolva vorazmente o hábito de ler revistas e que, portanto, pode sustentar o direcionamento da Abril e de outras empresas tradicionais de comunicação ao ambiente digital.

Então me dei conta do que disse à Renata… Noutras palavras, “é melhor a gente não empurrar muito conteúdo, mas apostar num site divertido.” - E me apavorei com a análise que fiz!!

Será que nosso futuro na web, enquanto jornalistas, não terá mais foco na produção de conteúdo editorial mas na criação e gerenciamento de espaços divertidos? Nós estamos preparados para isso?

O olhar torto de uma aluna para mim, semana passada, quando disse que a tendência das vagas para jornalistas pode ser de moderadores de comunidades virtuais responde que não, ainda não estamos prontos para essa jornada.

***

Encontrei uma matéria na Folha que, embora velhinha (07/04/2007), ilustra bem esse cenário, hum… docemente apavorante:

As novas comunidades virtuais enterram o conceito de um catálogo de gente para apostar na interatividade e nos recursos multimídia, tornando cada vez mais difícil uma identificação precisa dos membros dessa categoria.
(…)
A complexidade desses sites começou a se refletir na audiência: saem os pré-adolescentes e entram os jovens adultos. Segundo a empresa de pesquisas Hitwise, em fevereiro, 41% dos visitantes do MySpace tinham 35 anos ou mais. Há três anos, 62% dos membros do Facebook tinham entre 18 e 24 anos; hoje, a fatia equivale a menos da metade.
(…)
Esse grupo das 20 (comunidades) mais (populares) responde por 6,5% de todo o tráfego da internet, o que o torna tão competitivo quanto os grupos de sites que oferecem serviços de buscas, compras on-line, e-mail e conteúdos específicos.
(…)
Os números indicam que dispor de uma maneira de estar em contato com outras pessoas é tão necessário quanto qualquer outra atividade que possa ser desempenhada on-line.

***

Procuro dados atualizados sobre essa relação íntima do internauta com ambientes de entretenimento, muito mais do que noticiosos. (E vejam que não são apenas os leitores de Recreio!!)

É daquelas preocupações boas, crises para estimular a criatividade sobre nossa identidade profissional… ;)

Então chegamos a 8 milhões de brasileiros com conexão em banda larga… Parece bom, né?

Mas aí o Roberto Gutierrez, do IDC Brasil, comenta na Folha que, com esse novo dado, “o índice de penetração da banda larga no Brasil atingiu os 4%“.

Daí a gente lembra que 95% da Coréia do Sul estão cobertos por banda larga… e aí? É prá rir ou chorar?

O “achado” só podia ser do Eduardo Pellanda, que anda lá por além-mar, mandando ver no MIT (te mete!).

Com a tua licença, Eduardo, precisei chamar essa imagem aqui no Libellus pelo tanto que ela é emblemática! Tuas observações foram oportuníssimas: não apenas a popularização da tecnologia, mas a adoção do hábito por quem não parecia ser o target.

Historinhas para keynotes ;)

Vejam lá no Ubimídia.

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