Thu 27 Mar 2008
O que falta aos noticiários colaborativos brasileiros?
Posted by Ana Brambilla under Jornalismo Colaborativo , Mídia , ColaboraçãoJuliano Spyer publica no Webinsider uma análise muito lúcida sobre uma questão que pautou a conversa que tive ainda hoje pela manhã, com o Rafael Sbarai: por que o jornalismo colaborativo não vinga aqui no Brasil?
O ponto de vista do Ju foca a filtragem dos jornalistas como um impecilho ao crescimento. Ele ironiza:
“Precisamos filtrar a informação enviada pelos usuários para garantir a correção da notícia e não comprometer a reputação do veículo.”
As pautas também destoam daquilo que se espera de um veículo deste viés.
“São aceitos materiais sobre curiosidades, aberrações ou denúncias que quando muito servem para alimentar comentários como: - Todo político é corrupto… - Olha o que fazem com os nossos impostos… - Ricos nunca são presos…”
Não há dúvidas, Ju. Tuas críticas me soam corretas. Mas a solução disso não está na auto-moderação.
Tu falas de braços colaborativos de portais. E eu te lembro que portais não nasceram para ser colaborativos. Assim como a mídia tradicional. São tão unidirecionais quanto o jornal impresso. Como esperar, de veículos assim, uma cultura digital que valorize a espontaneidade, que acredite no potencial da comunidade a ponto de abrir mão desse controle? O peso da marca é sempre maior.
Apesar disso, marcas fortes como G1 e O Globo Online têm levado a cabo noticiários colaborativos até bacanas, com tolices, sim, mas com um jornalismo hiperlocal que a mídia mainstream não contempla.
Antes da auto-moderação, parece que alguns passos devem ser dados por essas marcas tradicionais que querem fazer colaboração:
1) estreitar laços de relacionamento com seus colaboradores
2) definir critérios de noticiabilidade decentes
3) reforçar a atualização
4) promover contatos offline ou pessoais
5) gratificar o colaborador de maneira simbólica (o que pode implicar na criação de um ambiente competitivo saudável)
6) … (quem dá mais?)
Assim, talvez, a gente estabeleça o espírito de comunidade nesses noticiários. Envolvidos, pertencentes àquele espaço, quem sabe a auto-moderação não funciona?
Uma última observação: Slashdot não é jornalismo, não se pretende nem se vende assim. E mesmo auto-moderado, esses noticiários, para serem jornalísticos, precisam ter ao menos o acompanhamento de jornalistas profissionais.
Não deixem de ler o artigo do Juliano.
March 27th, 2008 at 8:58 pm
Nunca imaginei que pudesse existir alguém que gostasse de avição, cultura digital, gatos e jazz ao mesmo tempo.
Devidamente adicionada, professora.
March 28th, 2008 at 4:43 pm
Aninha, você tocou num ponto que considero importante que são as marcas… elas estão cada vez mais fortes e podiam usar das iniciativas de blogueiros ou jornalistas para reforçarem ainda mais suas marcas já que mudar de tradição assim é complicado. Eu acho que reforçar a parceria com colaboradores/sites/blogs pode ser uma boa alternativa desde que haja ganha-ganha
March 28th, 2008 at 5:29 pm
Sim, Ceila, penso por aí também. Afinal, colaboração, que é minha bandeira, é soma, né? Soma do trabalho de leigos com o de profissionais. E blogueiros estão no meio desse caminho!
beijos
March 29th, 2008 at 11:15 am
Acho que além de estimular a colaboração, é preciso identificar que tipo de colaboração é interessante para o site. E aí está um grande desafio, ter uma rede de informações que realmente colaborem, somem.
Acho que ainda é muito cedo para exigir que os portais utilizem-se com total empenho do jornalismo colaborativo. Não estão acostumados a intervenção alheia em seus trabalhos, ou a possíveis críticas. Mas e quem está? Mas uma boa forma de estimular colaboração seria conceder algum benefício ou privilégios. como por exemplo acesso a um conteúdo pago, ou coisa do tipo.
e-braços
March 29th, 2008 at 6:42 pm
Olá
Tem um site chamado Hiperlocal (www.hiperlocal.com.br) que se utiliza da questão hiperlocal primeiramente com eventos (show, festas, eventos, etc).Dessa forma,a questão da confiança da fonte fica mais fácil de averiguiação.
March 29th, 2008 at 11:37 pm
A tal intervenção do público pode virar vandalismo também, sei lá. Acaba precisando da mediação, do controle. Se não precisa, nem estariamos aqui discutindo nada, só tocando arpas e voando igual àqueles anjos bobalhões de historinhas.
Confiamos pouco, naturalmente, em quem não conhecemos. Há muita gente louca, aproveitadora e maldosa no mundo para que se submeta tudo a elas. Vira o caos. Imaginem se inventam “justiça cidadã”, “medicina cidadã”, “engenharia cidadã”. Não duvido que corramos o risco de voltar à lei do “Olho por Olho, Dente por Dente”, que a pessoa morra até se escolher a melhor forma (medicina tradicional, acupuntura, ioga, homeopatia, reza braba) de tratá-la, que uma eficação termine um monumento completamente brega e inseguro, com paredes tortas, etc.
Jornalismo não é só dar pitaco. É pesquisar, saber do que tá tratando, contextualizar, ir a fundo, e ouvir xingões, ameaças, discutir horas no telefone, essas coisas. Tarefa para poucos. Nenhum cidadão comum, do dia para a noite, mesmo ganhando bem, vai ter sutileza e estômago para isso. Tem que nascer pra coisa, de certa maneira. Bobagem imaginar também que qualquer um vá dar contribuição significativa a um assunto só porque tem uma caixa de comentário ou outra ferramentazinha à mão. Se tem idéias boas, já teria exposto-as de outra forma.
E “interação” para dar vazão a meros bla-bla-blas também?… Isso pode ficar só na conversa de bar mesmo, é menos comprometedor e ridículo. A pessoa não entende dos assuntos, mal sabe contextualizar o que dizer, quer só aparecer, dar uma de metido ou plemista, vá fazer piruetas na praça. Não tem por que ter espaço para opinar. Se tem idéias realmente boas, que vire líder comunitário, vá à Câmara de Vereadores, lute por uma causa e não perca tempo compartilhando opiniões em espaço onde mal será lido. É isso.
Abraços
Rogério K.
March 31st, 2008 at 11:03 am
Não sei se acesso a conteúdo pago é o canal, sabe? Já houve essa tentativa e foi frustrada. Agora acho que não daria certo mesmo, já que se ouve falar cada vez mais em “economia do gratuito”.
Mas que o lance é oferecer algum benefício extra aos colaboradores, concordo plenamente.
March 31st, 2008 at 11:17 am
Oi Rogério,
concordo contigo quanto à necessidade de uma organização. Colaboração não é caos. E nessa organização dos espaços editoriais é que vejo o papel fundamental do jornalista.
Mas quero te lembrar que nem toda colaboração é “achismo”, nem mesmo opinião. Tem muita gente entendida, especialista em algumas pautas que tem muito mais propriedade do que repórteres em abordá-las. O importante é identificar esses colaboradores potenciais (quem tem histórias boas para contar), dar espaço a eles e estimular que participem.
É a tal da questão do critério…