Tue 18 Mar 2008
Sempre achei os índices de conectividade do brasileiro apontados pelo Ibope NetRatings um pouco falhos. Eles sempre consideravam o número de usuários domésticos, aqueles que acessam à Internet de casa.
Enquanto isso, não é preciso fazer pesquisas extensas para perceber que um grupo muito maior navega em computadores de escolas, faculdades, bibliotecas, no trabalho, telecentros ou… em lan houses!
Daí que o Renato Cruz diz no blog dele que o Cetic (Centro de Estudos sobre as Tecnologias da Informação e da Comunicação) divulgou um estudo onde 49% dos internautas brasileiros aparecem navegando nesses cybercafés.
Nessa mesma pesquisa, 24% acessam do trabalho e, outros 24%, de casa. (O Renato lembra bem que os entrevistados podiam marcar mais de uma opção de acesso.)
Não é à toa que na praia ou mesmo em cidades pequenas, como Toledo, onde morei, lan houses são semeadas a cada esquina, cobrando módicos R$ 2 pela hora de acesso. E vivem lotadas.
Ainda bem.
March 19th, 2008 at 7:11 am
Ainda bem mesmo. As lan houses se tornaram um meio (pago) de viabilizar a inclusão digital. Muita gente não tem PC em casa, mas nem por isso deixa de manter seu Orkut e seu MSN através de acessos feitos a partir de centros pagos.
March 21st, 2008 at 4:36 pm
A pergunta é: será que nessa uma horinha, o internauta da lan house utiliza a internet como serviço ou como mero luxo?
Dia desses tava conversando com uma prima minha do interior pelo MSN:
- Mas, então, quais as novidades por aí, Marisa?
- Olha, depois eu te falo. Já vou saindo porque tenho que aproveitar o tempo aqui pra colocar fotos novas no Orkut. Nem uso muito o MSN. Depois a gente conversa.
- Ah, tá…
É difícil você ver alguém numa lan house fazendo um trabalho de escola ou escrevendo um texto, produzindo alguma coisa para postar na rede. A maioria vai em busca de jogos online e dos sites e programas de relacionamento.
Mas nem mesmo o grande barato desses sites, que é a comunicação rápida e instantânea, tem sido explorado. Como minha prima, a primeira preocupação do internauta de lan house é deixar sua página de Orkut bonita, moldar uma identidade virtual - que muitas vezes é bem distinta da identidade real. Ainda que, para isso, tenha de deixar alguns de seus recados sem resposta ou desligar seu MSN para não perder tempo.
Repito que não sou contra Orkut, Myspace etc. Acho um barato, inclusive. Mas acredito que falta um pouco mais de consciência dos internautas sobre a gama de possibilidades - e vantagens - que a internet oferece, que vai muito além da superficialidade de um perfil no Orkut.
Então, quando se fala em número de internautas no Brasil, vale observar também o valor que cada usuário agrega à rede, qual o grau de contribuição de cada um na construção de páginas, conteúdos e debates no meio virtual. Mas vejo que essa contribuição tem crescido e, tomara, que a tendência se espalhe para os usuários de lan house.
March 21st, 2008 at 5:44 pm
Breiller, faço minhas as suas palavras! Eu acho que para se pensar em inclusão digital tem de se ter claro dois critérios: 1) alargar a avenidade de acesso a web, oferecer infra-estrutura para a população; 2) instruir a população a respeito da potencialidade da web.
A minha dúvida é a seguinte: esse segundo passo deve vir em segundo ou concomitanto ao alargamento das vias de acesso? Creio eu que a subutilização da rede pode ser prejudicial para a rede como um todo. Tanto estruturalmente quanto socialmente. Entendo aqui subutilização o excesso de tráfego com informações cíclicas, ou seja, que não dão em lugar nenhum. Que não agregam valor às conversações em rede. Um tipo de usuário que Castells chama de “consumidor/usuário”. Dá até pra fazer um cruzamento de pensação aqui com o Rheingold, em seu conceito de “free rider”.
A gente já tá careca de saber que só chupar conteúdo da rede dá encrenca. Da mesma forma podemos pensar com a construção social da web. Se a Internet passar a ser o espaço de deixar recados de “saudades de vc” no orkut para a maior parte dos usuários. Pá! F***u com o perdão da palavra. Seremos gatos pingados num universo promissor.
Enfim… rs… meu ponto é: há de se pensar a inclusão tanto quantitativamente quanto qualitativamente. Por aqui em Vitória (ES) estamos buscando isso.
bjos ana.
March 24th, 2008 at 4:11 pm
Bah, guris! Vocês são a alma desse Libellus ^.^
O Breiller tocou bem na ferida quando disse:
“acredito que falta um pouco mais de consciência dos internautas sobre a gama de possibilidades - e vantagens - que a internet oferece, que vai muito além da superficialidade de um perfil no Orkut.”
Não, não se trata de sermos contra ou a favor de redes de relacionamento ou espaços de entretenimento na rede. Eu adoro o Orkut, uso prá caramba no trabalho e também para me relacionar com amigos, mas não me limito a ele.
Então penso que, além da expandir horizontes (mostrar que web é mais que Orkut), vale a gente salientar prá essa galerinha de lan houses que mesmo no Orkut a gente pode fazer coisas muito mais produtivas do que deixar o profile “bonitinho” e atualizado.
E isso diz respeito ao que o Thalles perguntou: a orientação à navegação deve acontecer concomitantemente à expansão do acesso.
Não penso em um “programa de educação digital”. A consciência sobre os usos da rede é orgânica, deve surgir conforme o uso de cada pessoa. Mas considerando que informação é matéria-prima de jornalista, seria pelo menos negligente, de nossa parte, ignorarmos o fato de que podemos orientar o público a fazer um uso mais produtivo da rede.
Deus… Sempre disse que jornalista não é professor. Mas percebem que a precocidade do ambiente web nos empurra a pensar em uma educação digital? Ao menos eu sinto um pouco essa responsabilidade…
Beijos!
March 24th, 2008 at 5:40 pm
Pois é, Thalles. Acredito também que os dois processos (expansão e instrução) devem ocorrer juntos. E nessa parte com certeza entra o papel do jornalista, Ana. Justamente pelo que você falou: a precocidade. Se alguém for buscar informação sobre internet nas escolas, tá perdido. O máximo que vai encontrar é algum programa social de informática básica pra alunos carentes.
Eu também sou super fã de Orkut. O negócio é bacana desde a possibilidade de interação com as pessoas (”oi, fulana. lembra de mim? 4ª série, festinha junina? quanto tempo”) até as discussões com muito conteúdo que ocorrem em diversas comunidades. Pena que a maioria ainda só enxerga a primeira parte.
Mas a mídia, principalmente a digital, óbvio, pode mostrar e aprofundar essas coisas bacanas. Infelizmente, ainda há pouca discussão sobre internet na mídia. Discussão qualificada, é bom pontuar.
March 24th, 2008 at 10:36 pm
Ana, teu blog tá bombando heim! Estou prestes a criar uma seção em meu blog “aguardo anisoso atualização” e colocar vc com outras feras lá. rs.
por sinal, já pensou fazermos uma rede de blogs academicos? dá pano pra manga…
qto a discussão, chego meio atrasado nela, mas fico lisonjeado por fazer parte disso. Mas vamos lá… algumas considerações. Recentemente passei por experiencia de ministrar algumas oficinas de blogs. A idéia era fazer uma galera refletir sobre a potencialidade de uso que a ferramenta tem. Penso ser possível dar uma “guinada” no processo de inclusão qualificada. Não tem como ensinar ngm a refletir, mas tem como provocar… acho que é isso.
bjos ana.
parabens a todos pela otima discussão!
March 24th, 2008 at 10:37 pm
UPDATE: nem cheguei atrasado… rs.. os comentários depois do meu foram feitos hj mesmo!! assunto tá frequinho ainda…
March 25th, 2008 at 2:55 pm
Bah, é verdade, Thalles, gurizada… A graça de um blog não está necessariamente nos posts. Mas nos diálogos. E isso é vocês que estão fazendo. Many thanks!
Thalles, bacana a idéia de um condomínio de blogs acadêmicos. Tem vários pesquisadores dessa área de tecnologia na comunicação que têm blogs. Posso selecionar alguns para ti.
Agora… quero saber mais dessa tua oficina sobre blogs. Hoje de manhã, a aula que dei na Cásper Líbero foi justamente a criação de um blog, no laboratório.
Atendi aos grupos individualmente, mas sinto que é preciso mais do que isso, mais do que aprender em qual botão apertar. Algo como “faça-e-pense”, sabe?
Estou bolando coisas aqui, mas se tiveres idéias, vamos trocar!
beijos