Longe de tirar o mérito conquistado pelo noticiário, hoje me deparo com outra situação exemplar nesse mesmo espaço: as quatro primeiras notícias da home (17h40) são, na verdade, a repetição de duas pautas.
E a segunda: Vizinho Alado e Um hóspede inusitado (sobre um gavião habitando as bandas ali do Lindóia, em Porto Alegre - meu território, aliás, que foi bem bom rever).
As duas pautas têm relevância, as notícias estão bem montadas mas… é a isso que me refiro quando digo que o papel do jornalista, em noticiários colaborativos, também é ORGANIZAR o espaço editorial.
Em 2006 tive uma matéria sobre o show dos Rolling Stones no RJ negada pelo OhmyNews. O feedback do Todd explicava que o OMNI havia recebido nada menos que 6 artigos sobre o mesmo tema. Na condição de editor, teve que escolher o melhor, o mais completo ou aquele que foi enviado antes.
Não chego a tanto. Sugiro que, nos casos em que mais de um colaborador manda material sobre a mesma pauta, se edite o conteúdo em retrancas ou suítes (até porque, embora a pauta seja a mesma, os dados podem ter diferenças e isso é muito saudável à pluralidade do noticiário).
Bom, o Leitor Repórter tem claramente jornalista que edita o material, trabalha nele, consulta especialista (vide as próprias notícias) antes de publicar. Mas esse é o tipo de detalhe que faz muita diferença na imagem que o espaço transmite. A situação reflete, possivelmente, equipes enxutas e tempo exíguo de dedicação a essa estética editorial.
Experiências e aprendizados, enfim, como a web deve ser.
O VC Repórter, do Terra, tem muita coisa a melhorar. Mas hoje encontrei por lá algo raro: uma colaboração com alto valor noticioso foi publicada antes de muito noticiário grandão.
A pauta é a queda de um avião bimotor na Bahia, hoje de manhãzinha, com saldo de dois mortos.
Ao que o Google indica, o autor dessa colaboração, Arnold Coelho, é um designer gráfico que trabalha no interior da Bahia. Nada como um repórter a qualquer momento em todos os lugares
Tem-se falado até bastante sobre publicidade 2.0. Agora, parece que nenhuma idéia supera a campanha (ou ação de mkt) “Você Escolhe“.
A idéia é deixar o público escolher o NOME da nova empresa de aviação que começa a operar no Brasil nas próximas semanas. O internauta é convidado a sugerir até 5 nomes para a companhia e também participa da escolha (votação) online.
A colaboração não pára por aí e o internauta também será convidado a decidir para quais destinos a “X” vai voar, tipo de serviço de bordo e até os uniformes da tripulação. Pratão cheio para publicitários e designers, não?
A premiação é tentadora e oferece passagens aéreas ao vencedor por toda a sua vida (resta ver se serão apenas pela companhia “X” e se ela vai se manter no mercado enquanto o vencedor estiver vivo).
Essa me parece a estratégia de publicidade 2.0 mais permissiva que já vi até agora. Muito, muito bacana!
(Do alto da minha falta de conhecimentos em publicidade e mkt, deixei minha sugestão: “Gente”)
Eu até tento, mas a Globo não colabora e faz um Fantástico mais idiota a cada domingo.
O momento exato em que desisto é - pasmem - o Você no Fantástico. Nada contra o Tadeu Schmidt, que se esforça para convencer de que o conteúdo é maravilhoso, divertido… fantástico! Mas tudo o que consegue é queimar seu filme - ao pior estilo Pedro Bial, desde que começou a apresentar o Big Brother Brasil.
A razão é simples: os vídeos exibidos pelo Você no Fantástico são muito idiotas.
A fórmula segue a idéia de temas-chave, como o VCnoG1 também faz, mas numa dosagem aceitável. A impressão que dá é de que a produção do Fantástico sentou ao redor de uma mesa e decretou: precisamos entrar nessa onda de colaboração. Manda o povo gravar qualquer bobagem e a gente põe no ar. Aí essa gente se vê na tv e morre de felicidade.
Relevância? Que é isso? Utilidade? Prá quê? Senso crítico? Coisa boba…
O festival de bizarrices transita de imitações patéticas de Elvis Presley até uma coleção de… caretas. Pois é… A lista é longa e passa por “Micos de Verão”, “Declarações de Amor” e se superou essa semana com as “Estrelinhas do Fantástico”, exibindo bebês imitando cantores, em cenas que só os pais daquelas crianças acham bonitinho.
Ao invés de investir “nessa tal de colaboração” com o nobre propósito de abrir espaço para dar voz ao público, a mensagem que o Fantástico passa é exatamente oposta: vejam as idiotices que o público é capaz de fazer.
E com isso encerram o espaço do público no programa, deixando claro que vídeos bacanas não são coisas que “pessoas comuns” são capazes de fazer.
O ponto de vista do Ju foca a filtragem dos jornalistas como um impecilho ao crescimento. Ele ironiza:
“Precisamos filtrar a informação enviada pelos usuários para garantir a correção da notícia e não comprometer a reputação do veículo.”
As pautas também destoam daquilo que se espera de um veículo deste viés.
“São aceitos materiais sobre curiosidades, aberrações ou denúncias que quando muito servem para alimentar comentários como: - Todo político é corrupto… - Olha o que fazem com os nossos impostos… - Ricos nunca são presos…”
Não há dúvidas, Ju. Tuas críticas me soam corretas. Mas a solução disso não está na auto-moderação.
Tu falas de braços colaborativos de portais. E eu te lembro que portais não nasceram para ser colaborativos. Assim como a mídia tradicional. São tão unidirecionais quanto o jornal impresso. Como esperar, de veículos assim, uma cultura digital que valorize a espontaneidade, que acredite no potencial da comunidade a ponto de abrir mão desse controle? O peso da marca é sempre maior.
Apesar disso, marcas fortes como G1 e O Globo Online têm levado a cabo noticiários colaborativos até bacanas, com tolices, sim, mas com um jornalismo hiperlocal que a mídia mainstream não contempla.
Antes da auto-moderação, parece que alguns passos devem ser dados por essas marcas tradicionais que querem fazer colaboração:
1) estreitar laços de relacionamento com seus colaboradores
2) definir critérios de noticiabilidade decentes
3) reforçar a atualização
4) promover contatos offline ou pessoais
5) gratificar o colaborador de maneira simbólica (o que pode implicar na criação de um ambiente competitivo saudável)
6) … (quem dá mais?)
Assim, talvez, a gente estabeleça o espírito de comunidade nesses noticiários. Envolvidos, pertencentes àquele espaço, quem sabe a auto-moderação não funciona?
Uma última observação: Slashdot não é jornalismo, não se pretende nem se vende assim. E mesmo auto-moderado, esses noticiários, para serem jornalísticos, precisam ter ao menos o acompanhamento de jornalistas profissionais.
A seção Leitor-Repórter, de Zero Hora, publica hoje a solução de um problema urbano denunciado por meio de seu espaço colaborativo.
No dia 20 de março, o internauta Emerson Carlos Siqueira Dorneles falou da dificuldade do pedestre trafegar sobre a calçada da rua Ramiro Barcelos quase esquina Cristóvão Colombo, por conta de um orelhão que obstruía a passagem.
Menos de uma semana depois, hoje, o mesmo colaborador envia para o Leitor-Repórter uma nota informando que o orelhão havia sido retirado.
ANTES DO LEITOR-REPÓRTER
DEPOIS DO LEITOR-REPÓRTER
Fica a questão: teria este noticiário colaborativo mobilizado as autorizades públicas a solucionarem o problema?
***
Excelente feedback promovido pelo Leitor-Repórter.
O jornalismo tradicional está em crise. E agora, a estratégia é dizer que o jornalismo colaborativo TAMBÉM está em crise!
O relatório deste ano do “State of the News Media”, divulgado essa semana e comentado pelo Carlos Castilho, aponta para a desaceleração do “jornalismo cidadão” e conteúdos produzidos por internautas. A justificativa é a incorporação de rotinas e vícios de redação por parte dos cidadãos repórteres. Isso faria com que os editores destes noticiários barrassem muito mais as colaborações.
Agora, vejamos:
1) qual a base dessa futurologia?
2) editores barrando colaborações do cidadão repórter me parece muito mais um fortalecimento do CRITÉRIO de publicação, algo tão saudável que só pode conferir mais relevância e credibilidade e, portanto, melhorar o noticiário colaborativo.
Outra coisa que o documento prevê é a mídia tradicional se repensando (algo que já deveria ocorrer há tempo!). Com a palavra, Castilho:
“(…) o informe destaca o aprofundamento de mudanças qualitativas no conceito de notícia e na funcionalidade dos veículos de comunicação em massa. A notícia está deixando de ser um produto para tornar-se um serviço”
Ora, faça-me o favor! Que coisa mais batida esse lance de jornalismo ser um serviço. Ouço esse chavão desde antes da faculdade. E mais: por que diabos a notícia DEIXARIA de ser um produto para ser um serviço, se ela JÁ É AS DUAS COISAS?
***
Buenas, tudo o que eu sei sobre esse relatório é através da coluna do Carlos Castilho, indicada pela Cris Delphino. Mas se a análise dele foi fiel ao teor do documento, vamos combinar… que troço bem besta!
Duas pessoas me chamaram à atenção para um artigo publicado ontem, na Gazeta Mercantil. Meu vizinho de baia e personal zoador da gauchada Alexandre Miraldo e minha aluna Fernanda Carneiro Athayde indicaram essa matéria intitulada “Internet colaborativa influencia propaganda“.
Eles fazem um bom apanhado dessas iniciativas mais recentes de convidar o consumidor a produzir peças de campanhas publicitárias, como os vídeos do Nescau 2.0, “O que faz você feliz?”, do Pão de Açúcar e “Eu sou fulana e esse Fiat é meu!” - todas protagonizadas pelo público leigo. Nada de atores. Nada de publicitários.
Conversava com a Fernanda, por e-mail, sobre o despertar do interesse por colaboração nessa turma da publicidade. Isso é maravilhoso! Mas mais maravilhoso ainda é perceber, com isso, que o jornalismo já pratica colaboração há, pelo menos, 8 anos. E só ano passado ouvi as primeiras idéias sobre publicidade 2.0. Em agosto postei alguma coisa a respeito.
Agora… tem algo que me surpreende mais do que a “boa sacada” dessas iniciativa: é o fato de jornalistas poderem se envolver com elas. Sim, publicitários entendem léguas melhor de marca do que nós. Mas bacana mesmo é a gente já ter um certo trânsito em colaboração e ser um profissional meio transdisciplinar nessas horas.
Sim, o momento é bem mais fértil, “colaborativamente” falando. Colaboração tá virando (uma boa) commodity. No Metro de hoje, a banda britância Radiohead anuncia um concurso de clipes. O fã que fizer a melhor proposta de clipe na opinião de outros fãs leva U$ 10 mil para produzir a idéia. Dia 30 de junho a gente vai saber mais
UPDATED (24/03/2008): Pedro Penido transformou essa reflexão em conversa e esclareceu, no Meio Digital: “(…) o elemento central da lógica dessa propaganda é a possibilidade da audiência suprir, de alguma maneira, o próprio anunciante com um feedback instantâneo, convertido para um formato de publicação.” Taí! Disse tudo!