Sun 10 Feb 2008

Esse é o filme de uma cidade deprimida. Portanto, deprimidos, não o vejam.
A cidade em questão é São Paulo, claro. A capital dos superlativos mostra seu lado podre. Não apenas nas alocações, mas a trama…
Personagens visivelmente sufocados pela hostilidade afetiva paulistana pontuam o filme do começo ao fim. E são tão reais…
Não falo de pobreza, miséria, desemprego, prostituição, abandono, violência, enfim, dessas metástases sociais de uma cidade adoentada.
Isso também aparece no filme de Carlos Alberto Riccelli, mas o cerne da doença vem antes da exclusão social. São Paulo sofre de exclusão afetiva.
Evidenciando sem acalentar essa puta ferida, O Signo da Cidade agrava ainda mais o quadro na cena em que o travesti Josialdo (se bem lembro), esperançoso na busca por um mundo ou uma cidade que o acolha, reflete:
“Você não é amado porque é bom. Você é bom porque é amado.”
Cuidado! Ser amado não depende da gente! Então são os outros que nos fazem pessoas melhores ou piores? Não!! Por isso cuidado ao largarem uma frase assim nas telas de uma cidade como São Paulo!
Muito por conta dessa cena é que não recomendo o filme a pacientes que sofram de depressão.
Embora o filme pareça naturalmente real, nos faz acreditar momentaneamente num absurdo como esse.
A exclusão afetiva paulistana está, aí, explicada.
***
UPDATED 23/02/08: finalmente termina a semana que SP teve cinco casos de suspeita de suicídio, três deles levados a cabo, três tentativas…….. nos trilhos do metrô.
February 10th, 2008 at 6:40 pm
Oi Ana! Tudo bem, querida?
Desculpa, mas eu nçao concordo quando você diz “hostilidade afetiva paulistana”. Aqui, nunca fui ignorada em um elevador, as pessoas se olham na rua, dão bom dia. Na cidade que eu morava, Floripa, sentia essa hostilidade bem mais forte.
Beijos
February 10th, 2008 at 7:36 pm
Oi Isabel! Como estás! Obrigada por passar por aqui.
Pois é… Como eu disse no post, São Paulo é superlativa. Assim, os problemas que existem em qualquer lugar ganham projeções astronômicas aqui, pelo tamanho, pela quantidade de gente. E essa exclusão afetiva me parece um deles.
Não gosto nem quero generalizar. Já fui muito bem recebida assim como muito mal-tratada pelos paulistanos. Mas esse post não reflete o que acontece comigo e sim o que eu vejo que acontece ao meu redor.
A impressão que me dá, não raro, é que sou a única do meu prédio a cumprimentar os porteiros e agradecer ao cobrador quando salto do ônibus.
A judiação maior nem é comigo. É com quem exclui e é excluído ao mesmo tempo. Não quero ficar como essa parte de SP…
Beijo!
February 11th, 2008 at 11:24 am
Escrevi algumas coisas lá no meu também.
|Voltarei aqui para comentar decentemente.
Beijos
February 12th, 2008 at 2:23 am
Ana,
Concordo contigo, ainda que seja uma generalização, sobre SP. Não acho que seja um mal apenas daqui - creio que outras cidades, especialmente grandes, sofrem com essa indiferença. A desesperança e a falta de ânimo nos semblantes paulistanos do dia-a-dia, nos ônibus, metrôs, ruas e restaurantes por quilo, fala alto na cabeça de qualquer um, além da desigualdade que aqui se faz mais presente, mais visível.
Mas, não sei realmente se concordo inteiramente com você que a frase (”Você não é amado porque é bom. Você é bom porque é amado.”) é um absurdo.
Acho que tem muito a ver a atitude atual - não restrita a SP - de basear o que somos nos outros, de sermos espelhos da sociedade, tentando ser indivíduos para os grupos nos quais queremos nos encaixar, mas sendo meros “xerox” para os outros grupos. O individualismo nunca esteve tão em alta, dizem. Mas o que eu mais vejo por aí é cópia da cópia da cópia. Inclusive os que querem ser diferentes acabam copiando…
E aí, sim, a frase passa a ter sentido.
Há ainda uma outra interpretação, mas creio que incompleta, que é: ser bom não atrai o amor de ninguém. Quando nos amam, agimos de bem; mas do contrário, preferimos o individualismo e a desconfiança. Afinal, “bom” é sinônimo de ingênuo, tolo, banana. E isso ninguém quer ser, né mesmo?
Mas, enfim, só pensamentos e pensamentos que tive ao ler teu texto…
:*
February 14th, 2008 at 12:44 pm
Oi Ana:
Muito bom seu post. E concordo com você. Ainda ainda mais no poder das palavras…