Foi com esse tom de pieguismo que o jornalista Roberto Godoy, do Grupo Estado, abriu a mesa redonda “Responsabilidade e Conteúdo Digital”, que começava errando no título.

Sugeriria algo como “Responsabilidade e Publicidade”, já que a m. que provocou todo esse questionamento não foi a blogosfera em si, mas a campanha catastrófica da Talent, internacionalmente citada por comparar blogueiros - em geral! - a macacos.

Incrível como o foco mudou! O que devia ser dicutido naquela mesa não era a relevância do conteúdo produzido na blogosfera. Não era a blogosfera, mas a Talent! Fui para o debate com a expectativa de ter esclarecida a postura preconceituosa e arrogante que a campanha trouxe. Saí de lá frustrada, mas conformada.

Explico: ouvindo o diretor de criação da Talent, João Livi - que afirmou: “não leio muito blogs” -, entendi que não se pode esperar uma atitude humilde de reconhecimento de erro de uma criatura tão pedante.

“Um dos caras mais lidos no Brasil é um macaco… o Simão!” - foi com esse raciocínio refinado que Livi assumiu sua postura de não estar ali para reconhecer um erro. Afinal, esse erro não existe aos seus olhos. Qual o problema em compararmos o público a macacos se macacos podem ser estrelas no Brasil (aliás, um país de macacos)?

Algo, no mínimo, patético. E agressivo! Pois ao final do evento, Gustavo Jreige questionou-lhe se os babacas representados nas peças, que lêem conteúdo produzido por macacos na blogosfera são os mesmos que lêem o Estadão. E o sr. Livi, do alto da sua polidez, recusou-se a responder, xingando o colega blogueiro: “Você está afirmando isso! Não vou responder!” (o Gustavo gravou isso e logo, logo estará online no OutroOlhos.)

Outro que deu seu ar da graça na mesa redonda foi o Pedro Dória. Manso, dessa vez. Controlando sua ira contra o público e o inchaço provocado pela soberania da sua trajetória no jornalismo “de verdade” que ele pratica.

Discutiram relevância da informação, preparo da audiência, monetização da blogosfera, credibilidade, blogs internacionais e outros temas que renderiam 472 dias insuficientes de debate.

Mas por incrível que pareça (ou nem tanto assim), quem finalmente tocou no dodói que motivou o debate - e tocou com muita clareza - foi a Bruna Calheiros, do Sedentário e Hiperativo.

A vozinha rouca da Bruna retumbou nos ouvidos e consciências dos que tomavam aquela mesa, aquela sala do WTC ao dizer que o grande erro da campanha da Talent foi a generalização da blogosfera na abordagem das peças. E acrescento: a desqualificação.

Ora, sejamos humildes para reconhecer que houve um erro grave e primário para qualquer argumentação/retórica. Defender uma bandeira apontando equívocos em outra é uma estratégia que está caindo em desuso até em propaganda eleitoral! Fica feio! Pega mal! Ainda mais quando é feito sem conhecimento de causa!

Se João Viti não circula pela blogosfera, com que propriedade a julga? E quem aprovou essa campanha, no Estadão? Qual seu envolvimento com o ambiente digital de UGC? Aliás… por que essa pessoa não participou do debate? Quem é esse profissional?

Raivosamente ou não, a sensação que o episódio me deixou foi pena. Juro! Pena por profissionais tidos como referência na mídia nacional demostrarem tanto desconhecimento de uma cultura específica, tanto despreparo para abordar uma realidade já tão fortalecida, apesar de recente. E que poderia, grandemente, contribuir com a mídia que ainda pensa papel. Poderia.