Tue 28 Aug 2007
Por isso gosto de estudantes.
Eles têm cabeça aberta, são curiosos e, por mais que alguns de seus profes sejam cabeça-de-papel, estão cercados pela cultura digital e, na maioria das vezes, acabam cedendo aos seus encantos.
A entrevista de hoje foi com a Amanda Dias e o Juliano (?), da Mackenzie, que preparam o TCC deles (lá chamam de TGI) sobre conteúdo colaborativo mobile. E como conversar ajuda a oxigenar as idéias, sinto que alguns traços característicos do jornalismo colaborativo estão se delineando de modo a causar (ainda mais) estranhamento em quem insiste em ver colaboração com olhos de jornalismo tradicional.
1. Opinião como gênero mais adequado
Como assim? Tu tá doida? E a imparcialidade sobre os fatos?
Mania essa de cobrar do cidadão repórter a mesma postura de um jornalista profissional… Um texto opinativo também traz informação, desde que bem argumentado. Além disso, uma opinião só tornará o ambiente “tendencioso” se o outro lado não quiser se manifestar. Porque direito à publicação, todos os lados têm. E isso faz do veículo colaborativo imparcial por gênese! Um espaço onde todas as versões de um fato podem ser contadas, onde todas as opiniões podem ganhar status editorial é MUITO mais imparcial do que um único jornal publicar uma única notícia escrita por um único repórter, que responde a uma única chefia… tentando dar os dois lados da moeda.
2. Relatos em primeira pessoa
Focas saem do adestramento equilibrando seis bolinhas: o quê? quem? onde? quando? como? por quê? O lead parece ser a única estrutura textual correta para um texto jornalístico. E talvez seja, ainda, para veículos tradicionais. “Eu” é alguém que inexiste nesse universo pretensamente objetivo. Daí é que vêm aqueles bordões arrogantes de que o jornalista constrói a realidade apenas reportando aquilo que vê por todas as faces sem jamais fazer juízo de valor.
Ignorâncias à parte (convenhamos, objetividade jornalística é uma falácia), julgo que os melhores conteúdos de noticiários colaborativos são aqueles escritos em primeiríssima pessoa. Aqueles… em que o cidadão repórter é autor e ator do episódio contado, testemunha, vítima, protagonista daquela história e, portanto, é a pessoa mais apropriada para contá-la.
Resultado: textos mais ricos em detalhes, cheios de informações de contexto (inclusive emocional) e próximo, muito próximo daquela realidade. Eu lambo os beiços ao ler textos assim. Sim, isso tem um quê de voyerismo, de mergulhar na vida do outro e trocar realidades.
3. Cidadão-jornalista não existe
Nessa eu bato pé! A expressão “cidadão-jornalista” para designar público leigo que atua em espaços colaborativos é absolutamente inapropriada. Assim como “jornalista amador” e similares. Jornalista, por si, identifica um profissional preparado por uma instituição de nível superior. Desse jeito, dizer “jornalista profissional” é uma redundância.
O público sem essa formação superior exerce a função de “cidadão repórter”, já que contar histórias é inerente à condição humana. Sem contar que reportagem é uma das tantas atividades desempenhadas por um jornalista. E talvez a única capaz de ser desenvolvida por pessoas sem formação específica no jornalismo.
Isso é do senso comum: assim como tem gente que chama “matéria”, “reportagem” e “coluna” de “artigo”, o nome genérico para jornalista é “repórter”, mesmo que o sujeito seja editor.
4. Jornalismo colaborativo é arrevistado. Não serve para breaking news
O processo editorial de um veículo colaborativo é, naturalmente, demorado. A checagem de identidade do colaborador, dos fatos contados, a edição do texto, quando não a conversa entre jornalistas e público para negociação do conteúdo toma tempo, dá trabalho. E espaços breaking news não comportam esse timing. O mico do UOL é prova disso. Assim, textos analíticos, reportagens calmamente checados e editados combinam muito mais com ambientes colaborativos.
5. Quem colabora com quem?
O público leigo em jornalismo - cidadãos repórteres - são comumente chamados de “colaboradores”. Começo a ver que essa não é a melhor opção. Quando jornalistas e cidadãos repórteres trabalham juntos em um mesmo conteúdo editorial, ambos os grupos são co-laboradores, ou seja, trabalham em conjunto. Portanto, “colaborador” não pode ser sinônimo de “cidadão repórter”, já que jornalista também é colaborador deste processo.
(Isso tem que continuar…)