Interação é um bicho estranho. Ainda que todo mundo interaja todos os dias, poucos entendem a diferença entre agir, reagir e interagir – atitudes próximas mas repletas de peculiaridades.
A cada dia pipocam estudos e autores que inserem a interação numa perspectiva complexa, relacionando-a à cibernética, à psicologia, às ciências sociais e por aí afora. A web se afirma a cada dia como um território fértil para observações multidisciplinares sobre interação. Mas o que temos visto, além da riqueza de olhares sobre os inúmeros modos de interagir em ambiente digital, é uma salada de terminologias que leva a uma compreensão distorcida do ato de interagir.
Ações, retroações, relações, reações, circularidade, diálogo, retroalimentação, troca, atualização interseccional, participação, negociação de sentido, apropriações interpretativas são idéias que se completam, embora não partilhem o mesmo significado que interação.
Talvez a dupla interação mútua / interação reativa seja a que mais esclareca e cause confusão no entendimento sobre o que é interatividade. A terminologia, habilidosamente estruturada por Alex Primo, esclarece a diferença fundamental que distancia a interação da reação. Observando as relações entre homem-computador e homem-homem através do computador como sistemas, as reações acontecem em sistemas fechados, por meio de fluxos lineares e unilaterais, cujos elos não percebem nem reagem ao contexto por não efetivar troca com o ambiente em que se inserem. (2001) Este processo não permite uma construção compartilhada de conhecimento em ambientes virtuais, onde cada interagente possa criar e transformar seus encaminhamentos através de diálogos em zonas de contato. (1999) A propósito, é esse tipo de interação que mais encontramos na web e nos processos midiáticos convencionais.
Por outro lado, a interação mútua prevê a atuação criativa dos usuários, que são livres para transformar o conteúdo de base do processo. São fluxos pluridirecionais de mensagens que possibilitam a troca simbólica através de ações de pesquisa, descoberta, invenção, construção de conhecimento, enfim, uma gama de nós e processos capazes de permitir o compartilhamento de informação. (1999) A interação mútua ocorre em sistemas abertos onde o desequilíbrio dos fluxos de mensagem dinamiza a ação criativa de interagentes dotados de inteligência. Seus componentes são interdependentes. Onde um deles é afetado, todo o sistema se modifica. Daí a idéia de circularidade, “cada comportamento individual afeta e é afetado pelo comportamento de cada um dos outros indivíduos”. (2001)
É importante que salientemos a noção de fluxo, pois nela reside a diferença original entre interação e reação. Enquanto a maioria dos sites oferece caminhos previamente programados para o usuário navegar, o que acontece é um fluxo unidirecional em que a informação é transmitida verticalmente de quem programou o site para quem navega, sem que haja qualquer possibilidade daquele conteúdo ser alterado em sua essência pelo usuário. É isso que acontece com os processos midiáticos tradicionais, a que José Luiz Braga donominou “interação social mediatizada”.
Ao explorar a relação entre o receptor e o produto da mídia, Braga sugere que isto envolva “questões de interpretação e também de manejos viabilizados pela estruturação do produto, seleções, percursos feitos no produto. Também aqui não se trata apenas de ações do usuário, mas de verdadeiras interações. O produto interpela, oferece, solicita, direciona, argumenta, seduz – o usuário interpreta, responde, se apropria, contesta, seleciona, recusa, ‘edita’ o material.”
Reparemos que na citação acima, é o produto que assume a posição de agente do processo comunicativo. O usuário reage a partir de um conteúdo que lhe foi oferecido, dentro de um universo limitado de possibilidades de manifestação. Ainda assim, de que serve ao usuário manifestar-se a uma instância previamente determinada, que não se altera com seus gestos? De que adianta responder se sua resposta não será devolvida? De que adianta contestar se é incapaz de alterar o que lhe desagrada no produto midiático? Ou ainda: para quê selecionar, editar se não pode criar?
Há um fluxo dialógico nessa relação do público com a mídia, mas esse diálogo é abortado logo na primeira resposta. Inicialmente, o produto é oferecido ou a mensagem é emitida. Diante disso, o usuário tem a liberdade de responder como bem lhe aprouver. Essa resposta, porém, não será incorporada na essência dos produtos ou mensagens seguintes por razões editorial e operacional.
Braga justifica sua classificação da relação do público com os produtos da mídia afirmando que a interação ocorre através de mediações culturais num espaço social em que o usuário, metalingüisticamente, fala sobre estes produtos através de críticas ou opiniões. “A escuta destas manifestações retroage sobre a produção midiática participando da construção (como processo histórico) de gêneros e tipos de produtos”.
Não há como questionar a validade de um modelo assim quando a televisão e o rádio, após décadas de exploração, aperfeiçoaram suas grades de programação talvez baseados na opinião do receptor. Mas a mesma escala de tempo até então empregada nos meios tradicionais já não pode ser considerada no ambiente digital. Braga repudia a pretensão do imediatismo como condição fundamental para que haja interatividade. A postura do internauta, porém, é diferente do ouvinte ou do telespectador. A emergência da informação, a necessidade de expressão e a viabilidade tecnológica da interação potencializam a instantaneidade como fator-chave em processos interativos.
Numa situação ideal – desconsiderando restrições econômicas e ideológicas das empresas de comunicação –, grades de programação podem ser alteradas a partir da ótica do público. Levarão certo tempo para efetivar tal mudança. Mas nem assim deixarão de ser “grade”. Isso é interação?
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BRAGA, José Luiz. Interação e recepção. In: Interação e sentidos no ciberespaço e na sociedade. FAUSTO Neto, Antônio; HOHLFELDT, Antônio; PRADO, José Luiz Aidar; PORTO, Sérgio Dayrell. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2001
PRIMO, Alex F. T. Sistemas de Interação. In: Comunicação na Cibercultura. Dinorá Fraga da Silva e Suely Fragoso (org). Editora Unisinos: São Leopoldo, 2001
______________. Interfaces potencial e virtual. Revista FAMECOS, Porto Alegre, n.10, 1999.


