“Parece reducionista perceber o virtual como uma negação, o esvaziamento de valores e referências sociais. Enquanto visto pela incerteza, o virtual aparece como um campo fértil para a atualização de processos sob interferência inerentemente humana.”

Sociologia da Comunicação, com Prof. Juremir Machado da Silva, na FAMECOS/PUCRS todas as sextas, das 14h30 às 17h30. Uma boa pedida para quem, como eu, ama ser provocado.

Seguem algumas mirabolices inevitáveis pós leitura de Jean Baudrillard…

***

Ser ou não ser. Por que a pergunta? A condição dicotômica parece imperar em qualquer assunto que se discuta. Verdade ou mentira. Vivo ou morto. Integrado ou fatalista. Real ou virtual. Relatividade é uma palavra esquecida porque relativizar complica. Parte-se da costura de diversos pontos de vista antagônicos para chegar a um provável denominador comum. Ainda assim, por que a necessidade de chegar a um MMC da existência? Relativizar, nem sempre, é subir no alto do muro e de lá apreciar, confortavelmente, os lados opostos degladiando-se. Relativizar pode significar um problema ainda maior que a mera condição de um exclusivismo tautológico.

Não é preciso um olhar especialista para detectar a invasão da técnica em nosso cotidiano. A comunicação é mediada pela técnica. Os diagnósticos médicos idem. O preparo das nossas refeições. O sistema de transporte. O lazer, o conhecimento, a educação, a indústria, como o exemplo mais clássico. Embora invasiva, essa malha tecnológica foi tecida por nós, humanos e não há espécie mais apta a criticá-la, reinventá-la. A fuga, porém, de um modo de vida permeado pela tecnologia já parece impossível.

O homem, inventor da máquina e da técnica agora destrói as próprias criaturas sob a acusação de uma atitude segregacionista. Como se as engenhocas projetadas em primeira instância para atender a uma demanda social revestissem-se com a perversa máscara do determinismo tecnicista, do desemprego, da máfia neo-liberal que coordena as massas atomizadas.
Sabemos, no entanto, que todo o progresso tecnológico, assim como o conhecimento, é usado para bons ou maus propósitos. A tecnologia que ampara pesquisas para a descoberta da cura do câncer é a tecnologia que produz armas de destruição em massa. E esse paradoxo igualmente criado pela natureza humana independe de qualquer inovação mecânica, cognitiva ou tecnológica. Pré-existe a ela.

Acusar a técnica de agente do desemprego, do afastamento entre as pessoas, da atomização do indivíduo, da onipotência da sociedade do consumo parece um mea culpa autofágico. Não há lógica em debater um processo corrente, irreversível e nada apocalíptico, ao contrário. O avanço tecnológico promove a especialização. Diante das novas tecnologias sujeito vê-se na iminência do aperfeiçoamento para não sucumbir. Uma espécie de novo paradigma darwinista é recriada a cada dia para verificar quem está apto ou não a sobreviver num cenário urbano sustentado pela técnica. Na incessante busca pela sobrevivência o caminho leva à inquietação permanente, à não-satisfação pelo trivial, à necessidade de maior preparo. Se a máquina substitui a mão humana na linha de montagem, nem mesmo a inteligência artificial estará apta a reproduzir a cognição do homem. É da ordem do intelecto o diferencial da humanidade diante da técnica.

Ser ou não adepto às novas ou antigas tecnologias não faz mais dilema. Uma vez inserido na esfera da técnica, resta-nos repensar o nosso papel social enquanto indivíduos, trabalhadores, seres de afeto dotados de inteligência e capacidade crítica, enquanto interagentes num contexto recursivo.

Um dos argumentos mais explorados pelos apocalípticos da técnica é a perda do referencial humano no processo de comunicação. A emergência do virtual assemelha-se muito antes do irreal, enquanto sua definição habita a esfera do vir a ser. A incerteza gerada pelo estágio prévio à atualização dos fenômenos cria uma gama infinita de possibilidades, gerenciada pela capacidade criativa do ser humano. Parece reducionista perceber o virtual como uma negação, o esvaziamento de valores e referências sociais. Enquanto visto pela incerteza do futuro imediato, o virtual aparece como um campo fértil para a atualização de processos sob interferência inerentemente humana.

Sem o homem, de que adiantaria a técnica? Se o virtual parece ser fruto de uma hipervalorização da técnica, de que é constituído senão pelo viço da inteligência humana? Balizado pelo comportamento, virtual e seu oposto-comum, o real, aproximam-se intimamente. As defasagens da comunicação presencial não desaparecem como por um passo de mágica na esfera virtual. É preciso contar com um elemento novo: a mediação, desempenhada pela tecnologia. Aliás, mediação tecnológica que vem do telefone, do telégrafo, do rádio, televisão e ainda assim parece tão repentina na Internet.

O virtual é tão humano quanto o presencial ou real. E nessa semelhança fundamental residem todas as virtudes e possíveis falhas destes ambientes de comunicação. Facilmente encontramos a acusação de que, mediado por computador, o indivíduo sente-se mais à vontade, inclusive, para faltar com a verdade na criação de personagens. Será mesmo que a verdade se ausenta? Ou no próprio ato criativo, na invenção de avatares não reside o fundamento do indivíduo? Já não é possível fugirmos de nós mesmos. Ainda que encoberto pela técnica, nosso ego persiste sem dar sinal de cansaço.

Tão próximos, virtual e real (sic) recriam-nos a todo instante, adaptando-nos a cada situação. Ambos reproduzem a nossa identidade sob o caráter irrefutável da informação. Somos informação. E o corpo, aparentemente o único diferencial como apelo comunicativo entre os dois ambientes, tem seus sentidos ampliados também pela tecnologia. Se o sexo virtual não passa de uma simulação grotesca da realidade, a voz, o olhar, a audição e o pensamento quebram fronteiras e recriam-se de modo concreto no virtual.

Não se trata, pois, de uma dicotomia simplista ao decidir se o virtual é bom ou ruim, melhor ou pior que seu primo bastardo “real”. Quase idênticos, ambos captam a nossa visão de mundo, a nossa essência enquanto seres humanos por serem, inegavelmente, como frutos da técnica, gerenciáveis pela criatividade e pela natureza humana.