Wed 21 Apr 2004
“Hoje, não pensamos o virtual, somos pensados pelo virtual.”
Sentenças como esta, carregadas por um forte teor apocalíptico, são articuladas por Jean Baudrillard, um francês prá lá de pessimista com o advento da digitalização, Internet, com o contemporâneo que ele se recusa a chamar de pós-moderno…
Segue uma breve resenha sobre o livro Tela Total, uma coletânea de artigos/ensaios publicados no diário francês Libération.
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Em Tela Total, coletânea de artigos e ensaios publicados no jornal francês Libération nos anos 90, Jean Baudrillard assume uma postura absolutamente crítica. A diversidade de temas contemplados nos textos afirma-o como um crítico do cotidiano. Ao tomar a atualidade como recorte principal de suas abordagens, Baudrillard dispensa ácidos comentários sobre o ciberespaço, considerando-o um curto-circuito do social. Nesse viés, concentra boa parte da obra à análises opositoras à condição virtual, tomando esta como uma contradição em si, dispositivo de esvaziamento de valores e parâmetros da realidade, da imaginação do real, do político, do social. O autor ainda detecta plena submissão do ser humano à virtualidade ao declarar: “Hoje, não pensamos o virtual, somos pensados pelo virtual” (p.71)
Promovido pelas novas tecnologias, o virtual recondiciona o tempo a um presenteísmo unânime. Baudrillard entende o tempo real como um buraco negro onde nada penetra sem ser esvaziado de sua substância, ou ainda, um espaço cujo ingresso custa a perda de referências do passado, a falta de perspectiva ao futuro e qualquer articulação lógica da realidade. O homem se transforma: abre mão de um espírito comunitário para sacralizar-se como usuário final em si mesmo, como o fim de um ciclo que dependia de sua transcendência. A sobrevivência, nesse cenário, remete à pluralização, à espectralização do ser, cuja vida não mais se arrisca por causa qualquer.
Baudrillard investe na comparação de sistemas válidos agora e outrora, dando-lhes nomenclaturas específicas cujas diferenças podem ser questionadas. A exemplo, a dicotomia entre humanismo e humanitário. Enquanto o primeiro refere-se a um sistema de valores fortes atrelado ao gênero humano, à sua moral, o segundo aponta o enfraquecimento de tais valores como uma salvaguarda à espécie humana ameaçada por sua história em desconstrução. Mais adiante diferencia mundialização de universalidade, apontando à ordem estabelecidas pelos tecnocratas, condicionando o mercado, o fluxo de informações e ao sistema de valores, direitos humanos, liberdades, cultura e democracia operado pela universalidade. Nesse instante evidencia-se a recusa do autor à referência ao pós-moderno, uma vez que considera a modernidade objeto de repúdio daqueles que criam resistência à mundialização. O que Baudrillar destaca, enfim, é o aniquilamento de uma condição à outra, empobrecida moralmente e orientada por valores neo-liberais.
Tal mudança na sociedade é levada a cabo pela assimilação do simulacro no cotidiano, uma visão a que a humanidade condena-se dia após dia. O simulacro induz à convivência com a incerteza, que já extrapola a instância física e infiltra-se no “coração de nossas ações, no coração da realidade”. Essa instabilidade, a que Baudrillard chamou de “estágio meteorológico”, anuncia a condenação das sociedades à maldição da tela, do simulacro, onde a inteligência artificial convence ao déficit da inteligência natural e afunda qualquer valor de base da humanidade. Uma sociedade completamente dissociada, onde nem mesmo os escândalos políticos, éticos mobilizam-na. Além da crítica, Baudrillard confessa a irreversibilidade desse processo e sentencia: “Nossa impotência é total.”