Hernani Dimantas: “Da mesma maneira que a ruptura do paradigma da música e do software aconteceram, vemos a ruptura no modelo de distribuição da informação. Os weblogs quebram este monopólio.”
Suzana Gutierrez: “As publicações na web cada vez mais facilitadas e acessíveis põem em prática concreta a idéia de comunicação de ‘todos para todos’.”
A construção veio do bloglab da Suzana Gutierrez que, apesar de datar de 17/07/2003, ainda merece muita consideração…
No começo, uma matéria publicada no Comunique-se.
“Direito de ter um weblog
Mario Lima Cavalcanti
Em março deste ano, a CNN pediu ao seu correspondente Kevin Sites que suspendesse o weblog (aqui) que vinha atualizando do Iraque. A ação da emissora se deu porque Kevin é funcionário da empresa e tinha um contrato de exclusividade, não podendo escrever para nenhum outro veículo, nem para o seu próprio.
Dois meses depois, em maio, o jornal Hartford Courant matou o weblog de seu jornalista de turismo Denis Horgan. Ele havia decidido fazer seu próprio site de informações sobre o setor de turismo. Seu editor impediu o feito alegando que havia conflito de interesses. Horgan, por sua vez, afirmou que o weblog é gratuito, não lhe trazia dinheiro e a atualização deste era feito fora do expediente e sem usar os recursos da companhia.
Casos como os dois acima vêm se tornando comuns. Mas a questão é: quem está correto? Acredito eu que, para se ter essa resposta, é necessário estudar cada caso em particular. O episódio do Kevin foi um prato cheio para os que defendem a liberdade de imprensa, mas não podemos esquecer que existiam cláusulas. E, mesmo com todo aquele papo de liberdades de expressão e de imprensa, cláusulas são cláusulas e, se você as assinou, deve segui-las.
Alguns jornalistas, como Gilberto Gonçalves – coordenador e produtor editorial da Comunicativa ACJ -, defendem a idéia de qua a informação não tem dono: “Não tenho a menor dúvida de que a informação não pertence a ninguém. A comunicação é característica inerente ao ser humano. Assim é que os homens de bem têm buscado garantir a liberdade de expressão. Exceto em regimes tirânicos, a norma se consolida dia-a-dia. Tem sido assim ao longo do tempo e, sem dúvida alguma, o desenvolvimento de novas tecnologias tem contribuído em muito para que esse direito possa ser exercido por um número cada vez maior de seres humanos”, diz.
Porém, quando uma cláusula que fala sobre exclusividade é assinada por um jornalista, significa que ele está ciente das regras daquele veículo, certo? Mesmo assim, às vezes entramos em pontos que deixam o assunto mais complicado e delicado. Seria um weblog pessoal de um jornalista contratado uma ameaça para o veículo em que trabalha? Talvez. Denis Horgan, quando teve seu weblog interrompido pelo Hartford Courant, alegou que não utilizava recursos da empresa, o que eu acho um pouco difícil, pois muitas vezes ele consegue obter informações para o seu weblog devido aos contatos e influências que ele tem a partir de seu trabalho. E, de certa forma, ele criou um weblog sobre um assunto que já tratava no jornal onde trabalha.
“A exclusividade, normalmente, impede a transmissão de informação obtida em nome de determinado veículo para outro concorrente. Ainda que a meu ver o blog de um jornalista não seja concorrente do veículo onde ele atua como profissional, acho que é uma questão de consciência deste veicular ou não em seu blog a informação que obtém a serviço do veículo onde trabalha”, completa Gilberto.
Olhando caso por caso, a minha conclusão é que, se uma empresa paga bem e quer ter o direito de exclusividade, tudo bem, contanto que deixe isso muito claro no contrato assinado entre o veículo e o jornalista. Da parte do profissional contratado, esse deve estar ciente do que está assinando, pois quando ele dá o seu autógrafo no contrato, significa que está em total acordo com a companhia. É claro que nem sempre a coisa é assim rígida como parece. Você pode muito bem questionar seus superiores sobre a possibilidade de ter um site pessoal ou um weblog. Se a empresa não considerar tal canal como um concorrente ou algo que possa ferir o nome do veículo, não vejo motivo para impedir. Felizmente pelo menos aqui no Brasil isso é comum.”
Em seguida, um comentário do Hernani Dimantas, publicado no MarketingHacker:
“Direito de ter um weblog
Hernani Dimantas
Um contrasenso a matéria de Mario Lima Cavalcanti: Direito de ter um weblog. É interessante observar a força dos weblogs. A análise do autor é muito ingênua. Faz referência, apenas, a um problema contratual.
O episódio do Kevin foi um prato cheio para os que defendem a liberdade de imprensa, mas não podemos esquecer que existiam cláusulas. E, mesmo com todo aquele papo de liberdades de expressão e de imprensa, cláusulas são cláusulas e, se você as assinou, deve segui-las.
(…) a minha conclusão é que, se uma empresa paga bem e quer ter o direito de exclusividade, tudo bem, contanto que deixe isso muito claro no contrato assinado entre o veículo e o jornalista.
Onde está o equívoco do jornalista? Simples. Da mesma maneira que a ruptura do paradigma da música e do software aconteceram, vemos a ruptura no modelo de distribuição da informação. Os weblogs quebram este monopólio. E as leis vigentes não tem muito valor nessa nova ordem. O que vale a proibição do mp3? Para quem usa o Gnutella ou o Kazaa não vale nada. E as licenças dos softwares? Viva o software livre!
Os meios de comunicação tentam coibir esta forma de expressão. Uma tendência de ridicularização desses diários pessoais. Mas, na verdade, o colunista angaria mais reputação no seu weblog do que nas tripas de papel. E ao contrário, muita gente acaba acessando a velha imprensa por causa do weblog do colunista. Muita briga vai rolar, muita notícia vai ser gerada para nos contar que essa revolução não será televisionada.”
E então o pitaco da Su:
“dando um pitaco: Esta é uma questão que tende a ser cada vez mais discutida e receber novos aportes na área da comunicação, mas, também, na política e educação. As publicações na web cada vez mais facilitadas e acessíveis põem em prática concreta a idéia de comunicação de ‘todos para todos’. Para mim um ponto de bifurcação, à la Prigogine, na comunicação e nas publicações. Caos, incerteza dos rumos e, sobretudo, a irreversibilidade.”
Oportuníssima a associação. HD e Su de parabéns!