De toda a transfiguração do político, que transita da racionalidade moderna a uma nova ordem de poder conduzida pela empatia e paixão, Maffesoli reabre a discussão de público na pós-modernidade.
Ao negar a existência de um indivíduo no sentido “indivisível” do sujeito, insere suas inúmeras e mutantes facetas identitárias em tribos passíveis de massificação - uma aparente contradição.
A seguir, uma breve análise sobre o livro A transfiguração do político, de Michel Maffesoli.

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A transição da sociedade moderna à pós-moderna articula-se pela agregação de valores arcaicos a um estilo de vida influenciado pelas novas tecnologias. A premissa levantada por Michel Maffesoli em Para navegar no século XXI aparece como um dos focos de sua análise do cotidiano atual em A transfiguração do político. Neste livro, o sociólogo detecta no ressurgimento do particularismo, da religiosidade, da etnicidade e da importância do estar-junto uma reconfiguração do político. A essência política do homem é abordada pelo autor como ação regida pela libido dominandi, um viés da condição humana não distante do sentimento, da paixão.

Ao traçar um paralelo entre o poder político e a influência da religião – historicamente, o catolicismo –, Maffesoli encontra postulados de base idêntico a ambas: “o homem, desprovido de natureza social é manipulável e deve sê-lo para seu próprio bem; além do mais, somente a razão, em seu poder soberano, pode aperfeiçoar-lhe a educação.” (p.69) O controle da ordem pela razão, traço fundamental do pensamento moderno, quando levado a extremos, induz à implosão social, fruto da incontestável contradição que o homem assume segundo sua natureza. Como efeito perverso à tentativa de “domesticar” as paixões sociais e tudo aquilo que foge à lógica, a sociedade tende à fragmentação de culturas, identidades, instituições. O mosaico sócio-cultural criado pela saturação do político é embebido pela ambiência que o acolhe, espaço global onde os indivíduos são compreendidos em interação. Daí a importância da ambiência gerar um corpo coletivo. Coletividade esta, que Maffesoli ora traduz pela paixão que constitui tribos, ora relaciona ao estar-junto das massas. Ao negar o termo “indivíduo” ao sujeito pós-moderno, condiciona a existência ao olhar alheio, onde identidades se recriam a todo instante aos olhos dos outros. Sujeito que só existe em contexto, inserido na coletividade. Eis uma observação procedente, mas que esbarra na iminente multiplicidade cultural geradora de tribos. Facetas inúmeras e nem sempre conexas da expressão social, do estar-junto, sim, mas não exatamente pressupostos para a massificação, à abolição de valores íntimos para entrega absoluta ao ideal comunitário.

Maffesoli coloca que a estética pós-moderna opera no conjunto, impulsionada pela empatia do ser humano que já não existe enquanto indivíduo. Mas como pode o ser das massas habitar a esfera do particular, do fragmentado, do descontínuo pós-moderno?

Maffesoli observa a política, nessa situação, como responsável pela segregação dos homens na modernidade. Enquanto a racionalidade política dividia indivíduos por classes, categorias sócio-profissionais, a pós-modernidade insere-os numa política gestora de paixões. Eis a transfiguração do político: “quando a ambiência emocional toma o lugar da argumentação ou quando o sentimento substitui a convicção”. (p.147)

Abroaspas ainda para dois parágrafos das páginas 140 e 141 onde é possível perceber uma lacuna de coerência na relação dicotômica entre identidade fragmentada e sociedade de massa:

“O indivúduo não é, ou não mais, dono de si, o que não significa não ser ator. Ele certamente o é, mas como quem recita um texto escrito por outro. Pode acrescentar a entonação, pôr mais ou menos calor, eventualmente introduzir uma réplica, mas continua prisioneiro de uma forma que não pode em hipótese alguma alterar a seu bel-prazer. Neste tempo em que é de bom-tom falar em dindividualismo, sendo difícil questionar esse pensamento institucionalizado, não é inútil lembrar a evidência empírica da imitação apaixonada, desse instinto animal que nos impulsiona, em geral, a ‘fazer como os outros’. Simmel via nisso um fenômeno sociológico dos mais instrutivos: ‘o indivíduo sente-se arrastado pela ambiência agitada da massa, como por uma força exterior, indiferente ao seu ser e à sua vontade individuais, entretanto essa massa é constituída exclusivamente por tais indivúduos’. (!!!)

“O painel está bem feito. Ele pode até mesmo ter consciência de que é arrastado, mas nada faz. [Essa novela é muito idiota, mas assisto-a diariamente.] Pareço colocar entre parênteses a minha própria personalidade: por um momento, mais ou menos longo, torno-me estrangeiro a mim mesmo. (…) A massificação da cultura, do lazer, do turismo, do consumo é, claro, a causa e o efeito de tal tribalismo. Não é menos claro, a fim de precisar o que já foi dito sobre esse tema, que o tribalismo só pode (re)nascer quando a ambiência impõe-se à razão. Por favorecer o imaginário, o lúdico, o onírico coletivo, ela reforça os microagrupamentos.”

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em

MAFFESOLI, Michel. A transfiguração do político. A tribalização do mundo. Tradução Juremir Machado da Silva. Porto Alegre: Editora Sulina, 1997.