April 2004


“Parece reducionista perceber o virtual como uma negação, o esvaziamento de valores e referências sociais. Enquanto visto pela incerteza, o virtual aparece como um campo fértil para a atualização de processos sob interferência inerentemente humana.”

Sociologia da Comunicação, com Prof. Juremir Machado da Silva, na FAMECOS/PUCRS todas as sextas, das 14h30 às 17h30. Uma boa pedida para quem, como eu, ama ser provocado.

Seguem algumas mirabolices inevitáveis pós leitura de Jean Baudrillard…

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Ser ou não ser. Por que a pergunta? A condição dicotômica parece imperar em qualquer assunto que se discuta. Verdade ou mentira. Vivo ou morto. Integrado ou fatalista. Real ou virtual. Relatividade é uma palavra esquecida porque relativizar complica. Parte-se da costura de diversos pontos de vista antagônicos para chegar a um provável denominador comum. Ainda assim, por que a necessidade de chegar a um MMC da existência? Relativizar, nem sempre, é subir no alto do muro e de lá apreciar, confortavelmente, os lados opostos degladiando-se. Relativizar pode significar um problema ainda maior que a mera condição de um exclusivismo tautológico.

Não é preciso um olhar especialista para detectar a invasão da técnica em nosso cotidiano. A comunicação é mediada pela técnica. Os diagnósticos médicos idem. O preparo das nossas refeições. O sistema de transporte. O lazer, o conhecimento, a educação, a indústria, como o exemplo mais clássico. Embora invasiva, essa malha tecnológica foi tecida por nós, humanos e não há espécie mais apta a criticá-la, reinventá-la. A fuga, porém, de um modo de vida permeado pela tecnologia já parece impossível.

O homem, inventor da máquina e da técnica agora destrói as próprias criaturas sob a acusação de uma atitude segregacionista. Como se as engenhocas projetadas em primeira instância para atender a uma demanda social revestissem-se com a perversa máscara do determinismo tecnicista, do desemprego, da máfia neo-liberal que coordena as massas atomizadas.
Sabemos, no entanto, que todo o progresso tecnológico, assim como o conhecimento, é usado para bons ou maus propósitos. A tecnologia que ampara pesquisas para a descoberta da cura do câncer é a tecnologia que produz armas de destruição em massa. E esse paradoxo igualmente criado pela natureza humana independe de qualquer inovação mecânica, cognitiva ou tecnológica. Pré-existe a ela.

Acusar a técnica de agente do desemprego, do afastamento entre as pessoas, da atomização do indivíduo, da onipotência da sociedade do consumo parece um mea culpa autofágico. Não há lógica em debater um processo corrente, irreversível e nada apocalíptico, ao contrário. O avanço tecnológico promove a especialização. Diante das novas tecnologias sujeito vê-se na iminência do aperfeiçoamento para não sucumbir. Uma espécie de novo paradigma darwinista é recriada a cada dia para verificar quem está apto ou não a sobreviver num cenário urbano sustentado pela técnica. Na incessante busca pela sobrevivência o caminho leva à inquietação permanente, à não-satisfação pelo trivial, à necessidade de maior preparo. Se a máquina substitui a mão humana na linha de montagem, nem mesmo a inteligência artificial estará apta a reproduzir a cognição do homem. É da ordem do intelecto o diferencial da humanidade diante da técnica.

Ser ou não adepto às novas ou antigas tecnologias não faz mais dilema. Uma vez inserido na esfera da técnica, resta-nos repensar o nosso papel social enquanto indivíduos, trabalhadores, seres de afeto dotados de inteligência e capacidade crítica, enquanto interagentes num contexto recursivo.

Um dos argumentos mais explorados pelos apocalípticos da técnica é a perda do referencial humano no processo de comunicação. A emergência do virtual assemelha-se muito antes do irreal, enquanto sua definição habita a esfera do vir a ser. A incerteza gerada pelo estágio prévio à atualização dos fenômenos cria uma gama infinita de possibilidades, gerenciada pela capacidade criativa do ser humano. Parece reducionista perceber o virtual como uma negação, o esvaziamento de valores e referências sociais. Enquanto visto pela incerteza do futuro imediato, o virtual aparece como um campo fértil para a atualização de processos sob interferência inerentemente humana.

Sem o homem, de que adiantaria a técnica? Se o virtual parece ser fruto de uma hipervalorização da técnica, de que é constituído senão pelo viço da inteligência humana? Balizado pelo comportamento, virtual e seu oposto-comum, o real, aproximam-se intimamente. As defasagens da comunicação presencial não desaparecem como por um passo de mágica na esfera virtual. É preciso contar com um elemento novo: a mediação, desempenhada pela tecnologia. Aliás, mediação tecnológica que vem do telefone, do telégrafo, do rádio, televisão e ainda assim parece tão repentina na Internet.

O virtual é tão humano quanto o presencial ou real. E nessa semelhança fundamental residem todas as virtudes e possíveis falhas destes ambientes de comunicação. Facilmente encontramos a acusação de que, mediado por computador, o indivíduo sente-se mais à vontade, inclusive, para faltar com a verdade na criação de personagens. Será mesmo que a verdade se ausenta? Ou no próprio ato criativo, na invenção de avatares não reside o fundamento do indivíduo? Já não é possível fugirmos de nós mesmos. Ainda que encoberto pela técnica, nosso ego persiste sem dar sinal de cansaço.

Tão próximos, virtual e real (sic) recriam-nos a todo instante, adaptando-nos a cada situação. Ambos reproduzem a nossa identidade sob o caráter irrefutável da informação. Somos informação. E o corpo, aparentemente o único diferencial como apelo comunicativo entre os dois ambientes, tem seus sentidos ampliados também pela tecnologia. Se o sexo virtual não passa de uma simulação grotesca da realidade, a voz, o olhar, a audição e o pensamento quebram fronteiras e recriam-se de modo concreto no virtual.

Não se trata, pois, de uma dicotomia simplista ao decidir se o virtual é bom ou ruim, melhor ou pior que seu primo bastardo “real”. Quase idênticos, ambos captam a nossa visão de mundo, a nossa essência enquanto seres humanos por serem, inegavelmente, como frutos da técnica, gerenciáveis pela criatividade e pela natureza humana.

“Hoje, não pensamos o virtual, somos pensados pelo virtual.”

Sentenças como esta, carregadas por um forte teor apocalíptico, são articuladas por Jean Baudrillard, um francês prá lá de pessimista com o advento da digitalização, Internet, com o contemporâneo que ele se recusa a chamar de pós-moderno…

Segue uma breve resenha sobre o livro Tela Total, uma coletânea de artigos/ensaios publicados no diário francês Libération.

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Em Tela Total, coletânea de artigos e ensaios publicados no jornal francês Libération nos anos 90, Jean Baudrillard assume uma postura absolutamente crítica. A diversidade de temas contemplados nos textos afirma-o como um crítico do cotidiano. Ao tomar a atualidade como recorte principal de suas abordagens, Baudrillard dispensa ácidos comentários sobre o ciberespaço, considerando-o um curto-circuito do social. Nesse viés, concentra boa parte da obra à análises opositoras à condição virtual, tomando esta como uma contradição em si, dispositivo de esvaziamento de valores e parâmetros da realidade, da imaginação do real, do político, do social. O autor ainda detecta plena submissão do ser humano à virtualidade ao declarar: “Hoje, não pensamos o virtual, somos pensados pelo virtual” (p.71)

Promovido pelas novas tecnologias, o virtual recondiciona o tempo a um presenteísmo unânime. Baudrillard entende o tempo real como um buraco negro onde nada penetra sem ser esvaziado de sua substância, ou ainda, um espaço cujo ingresso custa a perda de referências do passado, a falta de perspectiva ao futuro e qualquer articulação lógica da realidade. O homem se transforma: abre mão de um espírito comunitário para sacralizar-se como usuário final em si mesmo, como o fim de um ciclo que dependia de sua transcendência. A sobrevivência, nesse cenário, remete à pluralização, à espectralização do ser, cuja vida não mais se arrisca por causa qualquer.
Baudrillard investe na comparação de sistemas válidos agora e outrora, dando-lhes nomenclaturas específicas cujas diferenças podem ser questionadas. A exemplo, a dicotomia entre humanismo e humanitário. Enquanto o primeiro refere-se a um sistema de valores fortes atrelado ao gênero humano, à sua moral, o segundo aponta o enfraquecimento de tais valores como uma salvaguarda à espécie humana ameaçada por sua história em desconstrução. Mais adiante diferencia mundialização de universalidade, apontando à ordem estabelecidas pelos tecnocratas, condicionando o mercado, o fluxo de informações e ao sistema de valores, direitos humanos, liberdades, cultura e democracia operado pela universalidade. Nesse instante evidencia-se a recusa do autor à referência ao pós-moderno, uma vez que considera a modernidade objeto de repúdio daqueles que criam resistência à mundialização. O que Baudrillar destaca, enfim, é o aniquilamento de uma condição à outra, empobrecida moralmente e orientada por valores neo-liberais.

Tal mudança na sociedade é levada a cabo pela assimilação do simulacro no cotidiano, uma visão a que a humanidade condena-se dia após dia. O simulacro induz à convivência com a incerteza, que já extrapola a instância física e infiltra-se no “coração de nossas ações, no coração da realidade”. Essa instabilidade, a que Baudrillard chamou de “estágio meteorológico”, anuncia a condenação das sociedades à maldição da tela, do simulacro, onde a inteligência artificial convence ao déficit da inteligência natural e afunda qualquer valor de base da humanidade. Uma sociedade completamente dissociada, onde nem mesmo os escândalos políticos, éticos mobilizam-na. Além da crítica, Baudrillard confessa a irreversibilidade desse processo e sentencia: “Nossa impotência é total.”

Watzlawick, Bateson, Beavin e esse povo todo da Escola de Palo Alto têm o que se pode afirmar como um PARADIGMA.
Da comunicação numa perspectiva complexa nasce a idéia circular de interação, onde emissor e receptor conjugam o mesmo espaço num processo pluridirecional.
Aqui, três referências sobre Palo Alto. Divirta-se!

“Essa concepção cibernética de Verón corresponde mais à concepção mecânica, linear de Shannon que à concepção de Wiener ou da Escola de Palo Alto; para esta última, cibernética fala de uma visão circular de comunicação na qual o receptor tem a mesma importância que o emissor, nela a comunicação é pensada como um processo global de interação permanente, no qual toda atividade humana tem um valor de comunicação. Para a cibernética Palo Alto-Wiener, a comunicação deve ser compreendida em vários níveis de complexidade; sendo que o comportamento humano expressaria questões essenciais do meio ambiente social. Seguindo essa linha de pensamento, o contexto é muito mais importante que os conteúdos na análise comunicológica. Como comprova nos textos citados a definição de comunicação de Verón estava longe dessa visão.” Mais aqui!

“A revolução tecnológica abre caminho ao “comunicador profissional” que vê ampliar o seu mercado tradicional (jornais, revistas, rádio, televisão, cinema) às novas necessidades da publicidade, relações públicas, assessoria de comunicação, consultoria de imagem, estudos de opinião, self-media… - um fenómeno que procura legitimar a hegemonia massmediática sobre quaisquer outros tipos de comunicação, incluindo aqueles que são enfatizados pelos investigadores da célebre Escola de Palo Alto (Birdwhistell, Hall, Watzlawick, Bateson, Ruesch…) que concebem a comunicação como um sistema de canais múltiplos (olhares, gestos, silêncios…) no qual o sujeito está permanentemente implicado, queira-o ou não.” Mais aqui!

“No contexto do Paradigma Comunicacional proposto pelo grupo dos cibernéticos, desenvolva a questão do surgimento das novas tecnologias de informação, tendo em considerando a afirmação: “Não é possível não comunicar”, ideia associada aos axiomas da Pragmática da Comunicação proposta pela Escola de Palo Alto.” Mais aqui!

Hernani Dimantas: “Da mesma maneira que a ruptura do paradigma da música e do software aconteceram, vemos a ruptura no modelo de distribuição da informação. Os weblogs quebram este monopólio.”

Suzana Gutierrez: “As publicações na web cada vez mais facilitadas e acessíveis põem em prática concreta a idéia de comunicação de ‘todos para todos’.”

A construção veio do bloglab da Suzana Gutierrez que, apesar de datar de 17/07/2003, ainda merece muita consideração…

No começo, uma matéria publicada no Comunique-se.

“Direito de ter um weblog
Mario Lima Cavalcanti

Em março deste ano, a CNN pediu ao seu correspondente Kevin Sites que suspendesse o weblog (aqui) que vinha atualizando do Iraque. A ação da emissora se deu porque Kevin é funcionário da empresa e tinha um contrato de exclusividade, não podendo escrever para nenhum outro veículo, nem para o seu próprio.

Dois meses depois, em maio, o jornal Hartford Courant matou o weblog de seu jornalista de turismo Denis Horgan. Ele havia decidido fazer seu próprio site de informações sobre o setor de turismo. Seu editor impediu o feito alegando que havia conflito de interesses. Horgan, por sua vez, afirmou que o weblog é gratuito, não lhe trazia dinheiro e a atualização deste era feito fora do expediente e sem usar os recursos da companhia.

Casos como os dois acima vêm se tornando comuns. Mas a questão é: quem está correto? Acredito eu que, para se ter essa resposta, é necessário estudar cada caso em particular. O episódio do Kevin foi um prato cheio para os que defendem a liberdade de imprensa, mas não podemos esquecer que existiam cláusulas. E, mesmo com todo aquele papo de liberdades de expressão e de imprensa, cláusulas são cláusulas e, se você as assinou, deve segui-las.

Alguns jornalistas, como Gilberto Gonçalves - coordenador e produtor editorial da Comunicativa ACJ -, defendem a idéia de qua a informação não tem dono: “Não tenho a menor dúvida de que a informação não pertence a ninguém. A comunicação é característica inerente ao ser humano. Assim é que os homens de bem têm buscado garantir a liberdade de expressão. Exceto em regimes tirânicos, a norma se consolida dia-a-dia. Tem sido assim ao longo do tempo e, sem dúvida alguma, o desenvolvimento de novas tecnologias tem contribuído em muito para que esse direito possa ser exercido por um número cada vez maior de seres humanos”, diz.

Porém, quando uma cláusula que fala sobre exclusividade é assinada por um jornalista, significa que ele está ciente das regras daquele veículo, certo? Mesmo assim, às vezes entramos em pontos que deixam o assunto mais complicado e delicado. Seria um weblog pessoal de um jornalista contratado uma ameaça para o veículo em que trabalha? Talvez. Denis Horgan, quando teve seu weblog interrompido pelo Hartford Courant, alegou que não utilizava recursos da empresa, o que eu acho um pouco difícil, pois muitas vezes ele consegue obter informações para o seu weblog devido aos contatos e influências que ele tem a partir de seu trabalho. E, de certa forma, ele criou um weblog sobre um assunto que já tratava no jornal onde trabalha.

“A exclusividade, normalmente, impede a transmissão de informação obtida em nome de determinado veículo para outro concorrente. Ainda que a meu ver o blog de um jornalista não seja concorrente do veículo onde ele atua como profissional, acho que é uma questão de consciência deste veicular ou não em seu blog a informação que obtém a serviço do veículo onde trabalha”, completa Gilberto.

Olhando caso por caso, a minha conclusão é que, se uma empresa paga bem e quer ter o direito de exclusividade, tudo bem, contanto que deixe isso muito claro no contrato assinado entre o veículo e o jornalista. Da parte do profissional contratado, esse deve estar ciente do que está assinando, pois quando ele dá o seu autógrafo no contrato, significa que está em total acordo com a companhia. É claro que nem sempre a coisa é assim rígida como parece. Você pode muito bem questionar seus superiores sobre a possibilidade de ter um site pessoal ou um weblog. Se a empresa não considerar tal canal como um concorrente ou algo que possa ferir o nome do veículo, não vejo motivo para impedir. Felizmente pelo menos aqui no Brasil isso é comum.”

Em seguida, um comentário do Hernani Dimantas, publicado no MarketingHacker:

“Direito de ter um weblog
Hernani Dimantas

Um contrasenso a matéria de Mario Lima Cavalcanti: Direito de ter um weblog. É interessante observar a força dos weblogs. A análise do autor é muito ingênua. Faz referência, apenas, a um problema contratual.

O episódio do Kevin foi um prato cheio para os que defendem a liberdade de imprensa, mas não podemos esquecer que existiam cláusulas. E, mesmo com todo aquele papo de liberdades de expressão e de imprensa, cláusulas são cláusulas e, se você as assinou, deve segui-las.

(…) a minha conclusão é que, se uma empresa paga bem e quer ter o direito de exclusividade, tudo bem, contanto que deixe isso muito claro no contrato assinado entre o veículo e o jornalista.

Onde está o equívoco do jornalista? Simples. Da mesma maneira que a ruptura do paradigma da música e do software aconteceram, vemos a ruptura no modelo de distribuição da informação. Os weblogs quebram este monopólio. E as leis vigentes não tem muito valor nessa nova ordem. O que vale a proibição do mp3? Para quem usa o Gnutella ou o Kazaa não vale nada. E as licenças dos softwares? Viva o software livre!

Os meios de comunicação tentam coibir esta forma de expressão. Uma tendência de ridicularização desses diários pessoais. Mas, na verdade, o colunista angaria mais reputação no seu weblog do que nas tripas de papel. E ao contrário, muita gente acaba acessando a velha imprensa por causa do weblog do colunista. Muita briga vai rolar, muita notícia vai ser gerada para nos contar que essa revolução não será televisionada.”

E então o pitaco da Su:
“dando um pitaco: Esta é uma questão que tende a ser cada vez mais discutida e receber novos aportes na área da comunicação, mas, também, na política e educação. As publicações na web cada vez mais facilitadas e acessíveis põem em prática concreta a idéia de comunicação de ‘todos para todos’. Para mim um ponto de bifurcação, à la Prigogine, na comunicação e nas publicações. Caos, incerteza dos rumos e, sobretudo, a irreversibilidade.”

Oportuníssima a associação. HD e Su de parabéns!

De toda a transfiguração do político, que transita da racionalidade moderna a uma nova ordem de poder conduzida pela empatia e paixão, Maffesoli reabre a discussão de público na pós-modernidade.
Ao negar a existência de um indivíduo no sentido “indivisível” do sujeito, insere suas inúmeras e mutantes facetas identitárias em tribos passíveis de massificação - uma aparente contradição.
A seguir, uma breve análise sobre o livro A transfiguração do político, de Michel Maffesoli.

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A transição da sociedade moderna à pós-moderna articula-se pela agregação de valores arcaicos a um estilo de vida influenciado pelas novas tecnologias. A premissa levantada por Michel Maffesoli em Para navegar no século XXI aparece como um dos focos de sua análise do cotidiano atual em A transfiguração do político. Neste livro, o sociólogo detecta no ressurgimento do particularismo, da religiosidade, da etnicidade e da importância do estar-junto uma reconfiguração do político. A essência política do homem é abordada pelo autor como ação regida pela libido dominandi, um viés da condição humana não distante do sentimento, da paixão.

Ao traçar um paralelo entre o poder político e a influência da religião – historicamente, o catolicismo –, Maffesoli encontra postulados de base idêntico a ambas: “o homem, desprovido de natureza social é manipulável e deve sê-lo para seu próprio bem; além do mais, somente a razão, em seu poder soberano, pode aperfeiçoar-lhe a educação.” (p.69) O controle da ordem pela razão, traço fundamental do pensamento moderno, quando levado a extremos, induz à implosão social, fruto da incontestável contradição que o homem assume segundo sua natureza. Como efeito perverso à tentativa de “domesticar” as paixões sociais e tudo aquilo que foge à lógica, a sociedade tende à fragmentação de culturas, identidades, instituições. O mosaico sócio-cultural criado pela saturação do político é embebido pela ambiência que o acolhe, espaço global onde os indivíduos são compreendidos em interação. Daí a importância da ambiência gerar um corpo coletivo. Coletividade esta, que Maffesoli ora traduz pela paixão que constitui tribos, ora relaciona ao estar-junto das massas. Ao negar o termo “indivíduo” ao sujeito pós-moderno, condiciona a existência ao olhar alheio, onde identidades se recriam a todo instante aos olhos dos outros. Sujeito que só existe em contexto, inserido na coletividade. Eis uma observação procedente, mas que esbarra na iminente multiplicidade cultural geradora de tribos. Facetas inúmeras e nem sempre conexas da expressão social, do estar-junto, sim, mas não exatamente pressupostos para a massificação, à abolição de valores íntimos para entrega absoluta ao ideal comunitário.

Maffesoli coloca que a estética pós-moderna opera no conjunto, impulsionada pela empatia do ser humano que já não existe enquanto indivíduo. Mas como pode o ser das massas habitar a esfera do particular, do fragmentado, do descontínuo pós-moderno?

Maffesoli observa a política, nessa situação, como responsável pela segregação dos homens na modernidade. Enquanto a racionalidade política dividia indivíduos por classes, categorias sócio-profissionais, a pós-modernidade insere-os numa política gestora de paixões. Eis a transfiguração do político: “quando a ambiência emocional toma o lugar da argumentação ou quando o sentimento substitui a convicção”. (p.147)

Abroaspas ainda para dois parágrafos das páginas 140 e 141 onde é possível perceber uma lacuna de coerência na relação dicotômica entre identidade fragmentada e sociedade de massa:

“O indivúduo não é, ou não mais, dono de si, o que não significa não ser ator. Ele certamente o é, mas como quem recita um texto escrito por outro. Pode acrescentar a entonação, pôr mais ou menos calor, eventualmente introduzir uma réplica, mas continua prisioneiro de uma forma que não pode em hipótese alguma alterar a seu bel-prazer. Neste tempo em que é de bom-tom falar em dindividualismo, sendo difícil questionar esse pensamento institucionalizado, não é inútil lembrar a evidência empírica da imitação apaixonada, desse instinto animal que nos impulsiona, em geral, a ‘fazer como os outros’. Simmel via nisso um fenômeno sociológico dos mais instrutivos: ‘o indivíduo sente-se arrastado pela ambiência agitada da massa, como por uma força exterior, indiferente ao seu ser e à sua vontade individuais, entretanto essa massa é constituída exclusivamente por tais indivúduos’. (!!!)

“O painel está bem feito. Ele pode até mesmo ter consciência de que é arrastado, mas nada faz. [Essa novela é muito idiota, mas assisto-a diariamente.] Pareço colocar entre parênteses a minha própria personalidade: por um momento, mais ou menos longo, torno-me estrangeiro a mim mesmo. (…) A massificação da cultura, do lazer, do turismo, do consumo é, claro, a causa e o efeito de tal tribalismo. Não é menos claro, a fim de precisar o que já foi dito sobre esse tema, que o tribalismo só pode (re)nascer quando a ambiência impõe-se à razão. Por favorecer o imaginário, o lúdico, o onírico coletivo, ela reforça os microagrupamentos.”

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em

MAFFESOLI, Michel. A transfiguração do político. A tribalização do mundo. Tradução Juremir Machado da Silva. Porto Alegre: Editora Sulina, 1997.