Que paradoxo estranho o faz sentir-se mais próximo do sujeito que está a quilômetros de você do que da pessoa que sentou ao seu lado no ônibus? Serão, as tecnologias, uma mediação capaz de controlar o contato e proteger os usuários de possíveis invasões? Nem por isso, no entanto, diminui-se o potencial da Internet em tornar-nos presentes em territórios longínquos. Não se trata de uma presença virtual – porque ela existe ao atualizar-se na interlocução com o outro –, mas simbólica.

O que não cabe é qualificar a intensificação do contato online como “destruidora” dos laços sociais em esfera física.

Quem usa transporte coletivo sabe mais. A proximidade física de alguém estranho não é nada confortável. O hábito e a boa educação oficializaram um diálogo restrito entre dois corpos que não se conhecem: “Com licença?” – “Pois não.” – “Obrigada”. Nem mesmo essa proximidade que o faz sentir parte de seu braço roçando invasor no braço da criatura que está ao seu lado haverá tamanha aproximação entre você e seu vizinho de banco. Você dá o sinal, desce do coletivo e a primeira coisa que faz ao chegar em casa é ligar seu computador. Avidamente, envia um mail ao seu amor que está em Miami, recebe notícias do nascimento do seu sobrinho, em Istambul, e sente o peito palpitar. Só você. E a tela do computador.

Que paradoxo estranho o faz sentir-se mais próximo do sujeito que está a quilômetros de você do que da pessoa – gorda, quase sempre – que sentou ao seu lado no ônibus? Que as novas tecnologias relativizaram escalas geográficas não é novidade. O espaço se recompõe à medida que as distâncias se definem pela intensidade do contato. Quanto maior e mais freqüente for a troca de informações com um interlocutor, mais próximo você estará dele. Então serão informações suas que estarão em contato com informações de seu interlocutor. Seus corpos permanecerão distantes e, ao se transformarem em valor simbólico, você e o usuário da outra ponta aproximam-se sem roçar o braço um no outro.

Se isso é um ganho, surge a dúvida: as tecnologias estão defasando o contato presencial? Por que não puxamos conversa com o estranho que toma ônibus conosco ao invés de mantermos diálogos quentíssimos com alguém que está fisicamente afastado? Serão, as tecnologias, uma mediação capaz de controlar o contato e proteger os usuários de possíveis invasões? Todo contato via Internet é chancelado por uma quota mínima de informações a respeito da outra ponta da conversa. Se um desconhecido o convida para conversar pelo ICQ, num gesto involuntário você acessará o perfil da criatura antes de responder. Se as informações ali contidas agradarem às suas exigências, bem-vindo. Caso contrário, a função ignore user está a serviço da casa. A tecnologia confere essa liberdade ao usuário, em detrimento do contato físico que não permite-nos silenciar diante daquela mala que vem pregar a palavra de Deus ao teu lado no ônibus. Liberdade que pode ser entendida como filtro ou, aos mais apocalípticos, como proteção.

Então, ao invés de aproximar as pessoas, encurtar distâncias, o meio digital pode isolá-las, protegê-las umas das outras? A isso respondo com um sonoro e positivo “sim”. Vejo a possibilidade de proteção como um ganho, enquanto pertencemos a um ciberespaço heterogêneo, talvez selvagem, com suas belas paisagens e feras à espreita. Nem por isso, no entanto, diminui-se o potencial da Internet em tornar-nos presentes em territórios longínquos. Não se trata de uma presença virtual – porque ela existe ao atualizar-se na interlocução com o outro –, mas simbólica.

O que não cabe, nessa análise, é qualificar a intensificação do contato online como “destruidora” dos laços sociais em esfera física. Ambos são reais e acontecem sob estímulos diferentes. Diria que a aproximação de indivíduos mediada pela tecnologia promove inicialmente o contato entre o imaginário de cada um, a essência do sujeito e não sua constituição física. Se uma oportunidade de aproximação se estabelecer entre você e seu vizinho de ônibus, certamente ela terá sofrido a filtragem da observação corporal, inclusive, sujeita a preconceitos de todas as espécies. Sejamos cruelmente sinceros e perguntemo-nos: quem de nós travará um diálogo intimista com alguém mal vestido cheirando a cachaça que venha a tomar o ônibus conosco? Isso, no entanto, não impede que essa pessoa seja uma pessoa interessante em seu estado sóbrio. Se nosso interlocutor online também usar roupas rasgadas e tiver seus momentos de bebedeira, talvez nem saibamos. Pois o contato estabeleceu-se antes pelas suas idéias do que pela sua aparência.
Falsidade? Acredito numa construção de discurso. E ainda que criemos e dialoguemos com personagens, a essência do indivíduo estará implícita mesmo nessa projeção.