Conhecimento é poder

Sob a ótica da tecnologia, a disseminação do conhecimento parece o maior e mais atual ganho da humanidade. Pode ser o maior. Mas certamente, não é o mais atual. Foram os cafés parisienses do início da Idade Moderna redutos da mais significativa mudança de olhar sobre o conhecimento.

“Nietzsche aponta em Para além do Bem e do Mal que qualquer nova descoberta leva a um medo inicial. Aprender e aceitar o surgimento de uma novidade é algo penoso. (…) Com a Internet parece acontecer o mesmo tipo de reação. Muitos pensadores como Maffesoli e Paul Virilio reagem com medo a uma nova linguagem, a uma nova tecnologia.
“E o que é ser bom para Nietzsche? Bom é tudo aquilo que aumenta o sentimento de poder, a vontade de poder, o poder em si mesmo no homem. É possível afirmar que tal ocorre na Internet. Por ser uma base de conhecimentos gigantesca expande os conhecimentos da pessoa, se ela assim o desejar Na web temos um manancial de informações disponíveis prontas para serem conquistadas.
“Neste caso, como vivemos na Era da Informação, o conhecimento é poder.” (Paulo Pinheiro)

Sob a ótica da tecnologia, a disseminação do conhecimento parece o maior e mais atual ganho da humanidade. Pode ser o maior. Mas certamente, não é o mais atual. Quando Pinheiro cita que conhecimento é poder e que talvez essa condição qualifique os dias de hoje como a Era da Informação, parece esquecer que conhecimento sempre foi sinônimo de poder. Já na Idade Média, quando a supremacia da Igreja Católica subordinava sociedades inteiras a seus ensinamentos, a detenção da informação e a classificação dessa informação como conhecimento determinava inclusão social, sobrevivência ou heresia.

Em Uma história social do conhecimento: de Gutenberg a Diderot, Peter Burke linka com uma habilidade fantástica dois momentos cronologicamente distantes da história – a Idade Média e o século XXI – ao mesmo tempo, tão próximos quanto à concepção de conhecimento.

O surgimento dos primeiros jornais no século XVII, a Revolução Científica desdobrando estudos da natureza sobre o saber instituído, a pesquisa nascida com o Iluminismo, a enciclopédia organizada por Diderot foram alguns dos catalisadores de uma nova forma de conceber, processar e distribuir o conhecimento além dos muros eclesiásticos. Mas além destas formas, talvez oficiais, foram os cafés parisienses redutos da mais significativa mudança de olhar sobre o conhecimento.

Como Burke constata: “Organizações ainda menos formais, como o salão e o café, desempenharam um papel na comunicação de idéias durante o Iluminismo. Em Paris, os salões foram descritos como os ‘espaços de operação do projeto iluminista’. (…) Os donos dos cafés freqüentemente exibiam jornais e revistas como modo de atrair clientes, encorajando assim a discussão das notícias e o surgimento do que muitas vezes é chamado de ‘opinião pública’ ou ‘esfera pública’. Essas instituições facilitavam encontros entre idéias e indivíduos”.

O início da Idade Moderna é marcado pelos debates intelectuais multiplicando-se nas formas de sociabilidade. Bastava que um grupo de pessoas com interesses afins reunisse-se numa mesa de café para que surgissem especulações políticas, curiosidades científicas, sementes de teoria.
O que é a Internet, senão a reconstituição desta mesa de café parisiense, deste salão público de debate onde o conhecimento informal institucionaliza-se ao encontrar adeptos, críticos e entre estes transitar até o amadurecimento?
Sim, vivemos na sociedade do conhecimento e da informação. Mas esse não é um privilégio das gerações atuais. Que o conhecimento faz o diferencial também não é uma novidade. Inclusive, tanto no início do período Moderno quanto na atualidade a maior efervescência do conhecimento parecer vir da cabeça dos out-siders, quem está do lado de fora do saber instituído, não-reconhecido pelo sistema tradicional de conhecimento, especuladores talvez, mas subsidiados pela ciência do quotidiano, sem a qual não haveria empirismo tampouco respaldo para a teoria.

Há detalhes nessa comparação que clamam por uma discussão maior. Por exemplo: além de produzir e fazer circular o conhecimento, qual o uso é feito dele nas sociedades atuais? Isso tem jeito de uma nova provocação… e fica para a próxima! ;)

Referências

BURKE, Peter. Uma história social do conhecimento: de Gutenberg a Diderot Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003
PINHEIRO, Paulo. Além do Bem e do Mal no mundo virtual. In Revista Famecos nº 21, agosto 2003. EDIPUCRS.

About Ana Brambilla

Sou jornalista, doutoranda em jornalismo e mídias sociais, nasci em Porto Alegre, amo São Paulo e moro em Buenos Aires ^.^
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