Sat 14 Feb 2004
Tempo e desejo formam uma relação inversamente proporcional. As 18 horas que conduzem-nos ao ser amado parecem infinitas. Os quatro dias ao seu lado, voam!
“… [a transformação do tempo na sociedade em rede] é a mistura de tempos para criar um universo eterno que não se expande sozinho, mas que se mantém por si só, não cíclico, mas aleatório, não recursivo, mas incursor: tempo intemporal, utilizando a tecnologia para fugir dos contextos de sua existência e para apropriar, de maneira seletiva, qualquer valor que cada contexto possa oferecer ao PRESENTE ETERNO.” (Castells)
“Tempo: desproporção entre o volume de informações acessadas e o tempo discorrido.
Nas TI’s o tempo é homogêneo. Nos seres humanos o tempo é descontínuo. Um presente muito ampliado. PRESEEEEEEEEEEEEEEEEENTEEEEEEEEEEEE. (Wolton)
Segurar o tempo. Retê-lo nas mãos como um punhado de areia sempre foi uma proeza tão impossível quanto perseguida pelo ser humano. Não envelhecer. Não deixar o tempo somar-se e, com ele, afazeres, compromissos, pepinos para descascar.
Relação contraditória a do homem com o seu tempo. Quando somos crianças nada mais queremos senão ser adultos, ser grandes, brincar com nossas próprias casinhas. À medida que vamos crescendo, essa vontade de ser grande transforma-se numa nostalgia de bons tempos que passaram. Geralmente, irrecuperáveis.
Tempo e desejo formam uma relação inversamente proporcional. As 18 horas que conduzem-nos ao ser amado parecem infinitas. Os quatro dias ao seu lado, voam!
Entendo que, nos trechos acima, Castells e Wolton referem-se ao prolongamento do presente enquanto milagre provocado pelas novas tecnologias da informação. Mas percebo que o mistério do presente eterno esteja muito antes no desejo de todos nós.
A informação que circula pela web eterniza instantes por estar sempre acessível, possível de ser retomada a um clique. Somos nós essa informação: comunidade 100% conectada, cada vez mais integrada pela potencialização do contato pela rede digital. Mas nada disso aconteceria se não fosse a nossa vontade de trazer para perto tudo o que se deseja, de tornar o objeto de desejo disponível full-time, ainda que ele seja o tempo presente. Um tempo que já não escorre pelos dedos como um punhado de areia. Como se o homem pudesse manipulá-lo com o mouse.
O detalhe que pode estragar tudo, porém, é que ainda não inventaram uma forma de sermos, a todo o momento, informação na web e não pessoas de carne, osso e rotina estafante. A noite de sexta-feira logo se transforma em manhã de segunda e o tempo, que tanto desejamos reter com as mãos, escapa-nos num golpe fatal de desdigitalização.