Sat 14 Feb 2004
Digitalização, Design e Sociedade – a reunião destes três conceitos tem guiado as pesquisas do Laboratório de Mídia da Universidade de Arte e Design de Helsinki, Finlândia. Neste artigo, uma sinopse da palestra que o professor Kari-Hans Kommonem ministrou na Faculdade de Comunicação Social da PUCRS, em novembro de 2002.
A data parece antiga, mas o conteúdo tá cada vez valendo mais…
(Saudade dos meus escritos de design, Dicionário do Trabalho Vivo, etc…)
Digitalização, Design e Sociedade – a reunião destes três conceitos tem guiado as pesquisas do Laboratório de Mídia da Universidade de Arte e Design de Helsinki, Finlândia, através do programa ARKI. Coordenado pelo professor Kari-Hans Kommonem, o ARKI é um grupo de estudos dos efeitos da digitalização na sociedade, as novas perspectivas do design e a agregação destes conhecimentos na rotina urbana.
Kommonem esteve em novembro de 2002 em Porto Alegre, onde discutiu com alunos das faculdades de Comunicação Social, Arquitetura e Serviço Social da PUCRS os pontos iniciais da aplicação do design à vida de cada cidadão. De início, o desafio foi entender a natureza da palavra design: um substantivo ou um verbo? Considerando que o “designer” é o “fazedor” de design, o ato de executá-lo não corresponde a nenhum verbo na língua portuguesa. Daí, o conceito de design fica implícito no seu resultado, no seu objetivo e na sua função. Uma compreensão tão subjetiva sugere que o design pode ser feito pôr qualquer ser humano. Kommonem acredita que todos, sem exceção, praticam o design. Não é preciso ser um especialista em design para executar o verbo e chegar ao substantivo, concluindo: isso é design.
O meio mais comum onde o design se desenvolve é através do corpo. Vestuário, cortes de cabelo, maquiagem, barba, enfim, todos os quesitos aparentemente visíveis são componentes já sacralizados do design – e falam por si. Há, porém, por trás de tal “aparência” criada pelo homem, um estado de espírito que sustenta o conteúdo desse aparato visual. As expressões faciais, um olhar configuram elementos de design humano, uma vez que organizam a informação que cada pessoa deseja divulgar a respeito de si. Essa é uma situação micro que se expande uma vez que agregada a grandes comunidades. Daí, o conceito de design social.
Sabemos que todo o objeto de design é fruto de um projeto. Kommonem lança a idéia de que a organização das sociedades também é conduzida por conceitos de design, aplicados sem intenção pelos membros dessa sociedade. É possível que as pessoas se auto-conceituem completamente leigas em relação ao design. Mas a maneira como suas casas estão dispostas, a organização de um bairro, a busca pelo essencial e pelo atendimento à todas as necessidades daquele grupo de moradores é um objeto de design. Entendemos que as civilizações cresceram indiscriminadamente, guiadas tão-somente pelo instinto humano. Pois nesse feeling está implícito um potencial capaz de organizar a vida em comunidade, as convergências de interesses e o senso comum. A organização desses parâmetros é evolutiva, assim como a natureza humana. Logo, o design evolui junto com o homem.
O período atual já não comporta crescimentos sem planejamento. Uma cidade que cresce às suas margens sem qualquer previsão de explosão demográfica, saneamento básico e alimentação, por exemplo, está fadada à exclusão social. Todo o movimento urbano que hoje acontece está firmado em uma intencionalidade. Desde a construção dos prédios – por óbvio, a engenharia e a arquitetura – está presente o conceito de design, especialmente no que diz respeito a tornar a rotina mais ágil, confortável e adequada ao padrão de cada classe. Assim como na política ou no marketing, o design se faz necessário uma vez que sua função é resolver problemas. Nas grandes sociedades, é fácil perceber que o design é feito por todos, a qualquer momento: o problema é fracionado pela população e os mais afinados com tal área assumem o dever de conduzi-la. A divisão do poder público é um bom exemplo.
Apesar dos problemas serem fracionados para a solução vir mais rapidamente, os “cidadãos-designers” trabalham em rede, correlacionando-se com outras redes, formando a aldeia global que se fortalece cada vez mais com o advento da digitalização de informações. Nessa teia que se forma da agregação de tantas culturas, segmentos sociais e protótipos humanos, Kommonem ressalta a importância da visão crítica. Trabalhar em grupo, principalmente quando o desafio é solucionar problemas, não deve ser sinônimo de alienação. É preciso preservar o suporte de conhecimento individual e, a partir dele, emitir opiniões, criar conceitos, trocar dados e chegar a alternativas de solução dos problemas.
Como fugir dessa tendência se mesmo as ferramentas que utilizamos no nosso dia-a-dia, como o computador, estão cada vez agregando mais funções? Eis a essência da digitalização: promover a fusão de aparelhos antes isolados, reunindo numa mesma interface a operação de diferentes mídia. A digitalização é a plataforma de convergência de tecnologia. Isso possibilita a associação de indústrias, de profissionais, estudantes e empresas de diversos campos. A via está tão definida, a ponto de cogitarmos que a maior especialidade para nossas áreas de atuação pode vir de um campo que ainda não conhecemos. Ou seja, não há limite para avançarmos, aperfeiçoarmos nossas áreas profissionais.
A sociedade sofre constantes mudanças. Isso é importante para a renovação de conceitos e modos de convivência. O design social é exatamente essa adequação das necessidades ao passar do tempo, as tendências de relacionamentos, acordos, costumes. A digitalização entra para servir a essa sociedade, não para exterminá-la, ao contrário do que pensam as correntes mais conservadoras. Mostrando ser um caminho sem retorno, os sistemas digitais servem para tornar a vida mais eficiente, não para abolir valores humanos. Caminhar ao lado dessas soluções digitais significa ser mantido dentro do sistema que está reconfigurando o mundo. Kommonem aposta que a escolha entre novo e o velho desaparecerá. Consumir o velho será cada vez mais difícil e dispendioso. É certo que isso criará uma polarização entre os que dominam e os que ignoram a digitalização. Como solução, o professor aponta o co-design para democratizar as aplicações da digitalização na sociedade. Ele parte do pressuposto de que todo o indivíduo que interage num sistema social deve aprender e criar novas práticas nas suas próprias atividades, começar no seu universo familiar, expandir para o grupo de amigos, para seu local de trabalho e assim formando uma grande rede cooperativa na divulgação e operação da tecnologia.
Esse cenário já é encontrado na atualidade, ainda que com restrições. Para o futuro, Kommonem prevê uma aproximação significativa dos conceitos de design de suas aplicações. Todas as pessoas farão design sabendo disso, tornando a ciência acessível a todas as camadas sociais e promovendo a integração e o bem estar em uma comunidade. Serão os designers que auxiliarão essa aproximação entre design e sociedade. O design é e está no grupo social. Isso será visível no redesenho das organizações e relações humanas, explorando espaços de mídia que estão no centro desse processo.
Por fim, o fluxo da informação será de muitos para muitos. Grupos de emissores se dedicarão para grupos de receptores, que também serão emissores no momento da resposta. As barreiras físicas serão diminuídas, uma vez que a informação poderá circular de forma ordenada sem a necessidade de deslocamentos. O computador será a ferramenta de criação e distribuição, uma vez que agregará todas as mídia e ferramentas de comunicação pessoal. A mídia, propriamente, tende a ser diversificada, personalizada, pois as massas estarão organizadas, divididas e assim surgirão grupos interessados em temas específicos a quem será dedicada uma programação especializada. A tecnologia permitirá tal flexibilidade, pois os custos dessa integração tendem a diminuir cada vez mais.
ESQUEMA:
Cotidiano – o que as pessoas querem ser ou fazer com o produto de design?
• tecnologia + aplicação(utilidade) + propriedade visual
• escolher que tipo de sociedade ser/pertencer
• ênfase no aspecto ilustrativo e comunicacional
Isso cria…
• novas áreas de design;
• potencial de trabalho, pois há muitas coisas a serem redesenhadas na sociedades, dependendo apenas do envolvimento de cada um;
• design enquanto processo de multidisciplinariedade;
• toda a sociedade será afetada;
• oportunidades de ação social/empregatícia surgirão;
• surgimento de mudanças de valores e desafios culturais;
Enfim…
• apesar da evolução ser confusa, a sociedade tem importantes contribuições a fazer.
Porto Alegre, 27 de novembro de 2002