February 2004
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Sun 15 Feb 2004
Posted by Ana Brambilla under
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Sob a ótica da tecnologia, a disseminação do conhecimento parece o maior e mais atual ganho da humanidade. Pode ser o maior. Mas certamente, não é o mais atual. Foram os cafés parisienses do início da Idade Moderna redutos da mais significativa mudança de olhar sobre o conhecimento.
“Nietzsche aponta em Para além do Bem e do Mal que qualquer nova descoberta leva a um medo inicial. Aprender e aceitar o surgimento de uma novidade é algo penoso. (…) Com a Internet parece acontecer o mesmo tipo de reação. Muitos pensadores como Maffesoli e Paul Virilio reagem com medo a uma nova linguagem, a uma nova tecnologia.
“E o que é ser bom para Nietzsche? Bom é tudo aquilo que aumenta o sentimento de poder, a vontade de poder, o poder em si mesmo no homem. É possível afirmar que tal ocorre na Internet. Por ser uma base de conhecimentos gigantesca expande os conhecimentos da pessoa, se ela assim o desejar Na web temos um manancial de informações disponíveis prontas para serem conquistadas.
“Neste caso, como vivemos na Era da Informação, o conhecimento é poder.” (Paulo Pinheiro)
Sob a ótica da tecnologia, a disseminação do conhecimento parece o maior e mais atual ganho da humanidade. Pode ser o maior. Mas certamente, não é o mais atual. Quando Pinheiro cita que conhecimento é poder e que talvez essa condição qualifique os dias de hoje como a Era da Informação, parece esquecer que conhecimento sempre foi sinônimo de poder. Já na Idade Média, quando a supremacia da Igreja Católica subordinava sociedades inteiras a seus ensinamentos, a detenção da informação e a classificação dessa informação como conhecimento determinava inclusão social, sobrevivência ou heresia.
Em Uma história social do conhecimento: de Gutenberg a Diderot, Peter Burke linka com uma habilidade fantástica dois momentos cronologicamente distantes da história – a Idade Média e o século XXI - ao mesmo tempo, tão próximos quanto à concepção de conhecimento.
O surgimento dos primeiros jornais no século XVII, a Revolução Científica desdobrando estudos da natureza sobre o saber instituído, a pesquisa nascida com o Iluminismo, a enciclopédia organizada por Diderot foram alguns dos catalisadores de uma nova forma de conceber, processar e distribuir o conhecimento além dos muros eclesiásticos. Mas além destas formas, talvez oficiais, foram os cafés parisienses redutos da mais significativa mudança de olhar sobre o conhecimento.
Como Burke constata: “Organizações ainda menos formais, como o salão e o café, desempenharam um papel na comunicação de idéias durante o Iluminismo. Em Paris, os salões foram descritos como os ‘espaços de operação do projeto iluminista’. (…) Os donos dos cafés freqüentemente exibiam jornais e revistas como modo de atrair clientes, encorajando assim a discussão das notícias e o surgimento do que muitas vezes é chamado de ‘opinião pública’ ou ‘esfera pública’. Essas instituições facilitavam encontros entre idéias e indivíduos”.
O início da Idade Moderna é marcado pelos debates intelectuais multiplicando-se nas formas de sociabilidade. Bastava que um grupo de pessoas com interesses afins reunisse-se numa mesa de café para que surgissem especulações políticas, curiosidades científicas, sementes de teoria.
O que é a Internet, senão a reconstituição desta mesa de café parisiense, deste salão público de debate onde o conhecimento informal institucionaliza-se ao encontrar adeptos, críticos e entre estes transitar até o amadurecimento?
Sim, vivemos na sociedade do conhecimento e da informação. Mas esse não é um privilégio das gerações atuais. Que o conhecimento faz o diferencial também não é uma novidade. Inclusive, tanto no início do período Moderno quanto na atualidade a maior efervescência do conhecimento parecer vir da cabeça dos out-siders, quem está do lado de fora do saber instituído, não-reconhecido pelo sistema tradicional de conhecimento, especuladores talvez, mas subsidiados pela ciência do quotidiano, sem a qual não haveria empirismo tampouco respaldo para a teoria.
Há detalhes nessa comparação que clamam por uma discussão maior. Por exemplo: além de produzir e fazer circular o conhecimento, qual o uso é feito dele nas sociedades atuais? Isso tem jeito de uma nova provocação… e fica para a próxima!
Referências
BURKE, Peter. Uma história social do conhecimento: de Gutenberg a Diderot Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003
PINHEIRO, Paulo. Além do Bem e do Mal no mundo virtual. In Revista Famecos nº 21, agosto 2003. EDIPUCRS.
Sat 14 Feb 2004
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Tempo e desejo formam uma relação inversamente proporcional. As 18 horas que conduzem-nos ao ser amado parecem infinitas. Os quatro dias ao seu lado, voam!
“… [a transformação do tempo na sociedade em rede] é a mistura de tempos para criar um universo eterno que não se expande sozinho, mas que se mantém por si só, não cíclico, mas aleatório, não recursivo, mas incursor: tempo intemporal, utilizando a tecnologia para fugir dos contextos de sua existência e para apropriar, de maneira seletiva, qualquer valor que cada contexto possa oferecer ao PRESENTE ETERNO.” (Castells)
“Tempo: desproporção entre o volume de informações acessadas e o tempo discorrido.
Nas TI’s o tempo é homogêneo. Nos seres humanos o tempo é descontínuo. Um presente muito ampliado. PRESEEEEEEEEEEEEEEEEENTEEEEEEEEEEEE. (Wolton)
Segurar o tempo. Retê-lo nas mãos como um punhado de areia sempre foi uma proeza tão impossível quanto perseguida pelo ser humano. Não envelhecer. Não deixar o tempo somar-se e, com ele, afazeres, compromissos, pepinos para descascar.
Relação contraditória a do homem com o seu tempo. Quando somos crianças nada mais queremos senão ser adultos, ser grandes, brincar com nossas próprias casinhas. À medida que vamos crescendo, essa vontade de ser grande transforma-se numa nostalgia de bons tempos que passaram. Geralmente, irrecuperáveis.
Tempo e desejo formam uma relação inversamente proporcional. As 18 horas que conduzem-nos ao ser amado parecem infinitas. Os quatro dias ao seu lado, voam!
Entendo que, nos trechos acima, Castells e Wolton referem-se ao prolongamento do presente enquanto milagre provocado pelas novas tecnologias da informação. Mas percebo que o mistério do presente eterno esteja muito antes no desejo de todos nós.
A informação que circula pela web eterniza instantes por estar sempre acessível, possível de ser retomada a um clique. Somos nós essa informação: comunidade 100% conectada, cada vez mais integrada pela potencialização do contato pela rede digital. Mas nada disso aconteceria se não fosse a nossa vontade de trazer para perto tudo o que se deseja, de tornar o objeto de desejo disponível full-time, ainda que ele seja o tempo presente. Um tempo que já não escorre pelos dedos como um punhado de areia. Como se o homem pudesse manipulá-lo com o mouse.
O detalhe que pode estragar tudo, porém, é que ainda não inventaram uma forma de sermos, a todo o momento, informação na web e não pessoas de carne, osso e rotina estafante. A noite de sexta-feira logo se transforma em manhã de segunda e o tempo, que tanto desejamos reter com as mãos, escapa-nos num golpe fatal de desdigitalização.
Sat 14 Feb 2004
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Digitalização, Design e Sociedade – a reunião destes três conceitos tem guiado as pesquisas do Laboratório de Mídia da Universidade de Arte e Design de Helsinki, Finlândia. Neste artigo, uma sinopse da palestra que o professor Kari-Hans Kommonem ministrou na Faculdade de Comunicação Social da PUCRS, em novembro de 2002.
A data parece antiga, mas o conteúdo tá cada vez valendo mais…
(Saudade dos meus escritos de design, Dicionário do Trabalho Vivo, etc…)
Digitalização, Design e Sociedade – a reunião destes três conceitos tem guiado as pesquisas do Laboratório de Mídia da Universidade de Arte e Design de Helsinki, Finlândia, através do programa ARKI. Coordenado pelo professor Kari-Hans Kommonem, o ARKI é um grupo de estudos dos efeitos da digitalização na sociedade, as novas perspectivas do design e a agregação destes conhecimentos na rotina urbana.
Kommonem esteve em novembro de 2002 em Porto Alegre, onde discutiu com alunos das faculdades de Comunicação Social, Arquitetura e Serviço Social da PUCRS os pontos iniciais da aplicação do design à vida de cada cidadão. De início, o desafio foi entender a natureza da palavra design: um substantivo ou um verbo? Considerando que o “designer” é o “fazedor” de design, o ato de executá-lo não corresponde a nenhum verbo na língua portuguesa. Daí, o conceito de design fica implícito no seu resultado, no seu objetivo e na sua função. Uma compreensão tão subjetiva sugere que o design pode ser feito pôr qualquer ser humano. Kommonem acredita que todos, sem exceção, praticam o design. Não é preciso ser um especialista em design para executar o verbo e chegar ao substantivo, concluindo: isso é design.
O meio mais comum onde o design se desenvolve é através do corpo. Vestuário, cortes de cabelo, maquiagem, barba, enfim, todos os quesitos aparentemente visíveis são componentes já sacralizados do design – e falam por si. Há, porém, por trás de tal “aparência” criada pelo homem, um estado de espírito que sustenta o conteúdo desse aparato visual. As expressões faciais, um olhar configuram elementos de design humano, uma vez que organizam a informação que cada pessoa deseja divulgar a respeito de si. Essa é uma situação micro que se expande uma vez que agregada a grandes comunidades. Daí, o conceito de design social.
Sabemos que todo o objeto de design é fruto de um projeto. Kommonem lança a idéia de que a organização das sociedades também é conduzida por conceitos de design, aplicados sem intenção pelos membros dessa sociedade. É possível que as pessoas se auto-conceituem completamente leigas em relação ao design. Mas a maneira como suas casas estão dispostas, a organização de um bairro, a busca pelo essencial e pelo atendimento à todas as necessidades daquele grupo de moradores é um objeto de design. Entendemos que as civilizações cresceram indiscriminadamente, guiadas tão-somente pelo instinto humano. Pois nesse feeling está implícito um potencial capaz de organizar a vida em comunidade, as convergências de interesses e o senso comum. A organização desses parâmetros é evolutiva, assim como a natureza humana. Logo, o design evolui junto com o homem.
O período atual já não comporta crescimentos sem planejamento. Uma cidade que cresce às suas margens sem qualquer previsão de explosão demográfica, saneamento básico e alimentação, por exemplo, está fadada à exclusão social. Todo o movimento urbano que hoje acontece está firmado em uma intencionalidade. Desde a construção dos prédios – por óbvio, a engenharia e a arquitetura – está presente o conceito de design, especialmente no que diz respeito a tornar a rotina mais ágil, confortável e adequada ao padrão de cada classe. Assim como na política ou no marketing, o design se faz necessário uma vez que sua função é resolver problemas. Nas grandes sociedades, é fácil perceber que o design é feito por todos, a qualquer momento: o problema é fracionado pela população e os mais afinados com tal área assumem o dever de conduzi-la. A divisão do poder público é um bom exemplo.
Apesar dos problemas serem fracionados para a solução vir mais rapidamente, os “cidadãos-designers” trabalham em rede, correlacionando-se com outras redes, formando a aldeia global que se fortalece cada vez mais com o advento da digitalização de informações. Nessa teia que se forma da agregação de tantas culturas, segmentos sociais e protótipos humanos, Kommonem ressalta a importância da visão crítica. Trabalhar em grupo, principalmente quando o desafio é solucionar problemas, não deve ser sinônimo de alienação. É preciso preservar o suporte de conhecimento individual e, a partir dele, emitir opiniões, criar conceitos, trocar dados e chegar a alternativas de solução dos problemas.
Como fugir dessa tendência se mesmo as ferramentas que utilizamos no nosso dia-a-dia, como o computador, estão cada vez agregando mais funções? Eis a essência da digitalização: promover a fusão de aparelhos antes isolados, reunindo numa mesma interface a operação de diferentes mídia. A digitalização é a plataforma de convergência de tecnologia. Isso possibilita a associação de indústrias, de profissionais, estudantes e empresas de diversos campos. A via está tão definida, a ponto de cogitarmos que a maior especialidade para nossas áreas de atuação pode vir de um campo que ainda não conhecemos. Ou seja, não há limite para avançarmos, aperfeiçoarmos nossas áreas profissionais.
A sociedade sofre constantes mudanças. Isso é importante para a renovação de conceitos e modos de convivência. O design social é exatamente essa adequação das necessidades ao passar do tempo, as tendências de relacionamentos, acordos, costumes. A digitalização entra para servir a essa sociedade, não para exterminá-la, ao contrário do que pensam as correntes mais conservadoras. Mostrando ser um caminho sem retorno, os sistemas digitais servem para tornar a vida mais eficiente, não para abolir valores humanos. Caminhar ao lado dessas soluções digitais significa ser mantido dentro do sistema que está reconfigurando o mundo. Kommonem aposta que a escolha entre novo e o velho desaparecerá. Consumir o velho será cada vez mais difícil e dispendioso. É certo que isso criará uma polarização entre os que dominam e os que ignoram a digitalização. Como solução, o professor aponta o co-design para democratizar as aplicações da digitalização na sociedade. Ele parte do pressuposto de que todo o indivíduo que interage num sistema social deve aprender e criar novas práticas nas suas próprias atividades, começar no seu universo familiar, expandir para o grupo de amigos, para seu local de trabalho e assim formando uma grande rede cooperativa na divulgação e operação da tecnologia.
Esse cenário já é encontrado na atualidade, ainda que com restrições. Para o futuro, Kommonem prevê uma aproximação significativa dos conceitos de design de suas aplicações. Todas as pessoas farão design sabendo disso, tornando a ciência acessível a todas as camadas sociais e promovendo a integração e o bem estar em uma comunidade. Serão os designers que auxiliarão essa aproximação entre design e sociedade. O design é e está no grupo social. Isso será visível no redesenho das organizações e relações humanas, explorando espaços de mídia que estão no centro desse processo.
Por fim, o fluxo da informação será de muitos para muitos. Grupos de emissores se dedicarão para grupos de receptores, que também serão emissores no momento da resposta. As barreiras físicas serão diminuídas, uma vez que a informação poderá circular de forma ordenada sem a necessidade de deslocamentos. O computador será a ferramenta de criação e distribuição, uma vez que agregará todas as mídia e ferramentas de comunicação pessoal. A mídia, propriamente, tende a ser diversificada, personalizada, pois as massas estarão organizadas, divididas e assim surgirão grupos interessados em temas específicos a quem será dedicada uma programação especializada. A tecnologia permitirá tal flexibilidade, pois os custos dessa integração tendem a diminuir cada vez mais.
ESQUEMA:
Cotidiano – o que as pessoas querem ser ou fazer com o produto de design?
• tecnologia + aplicação(utilidade) + propriedade visual
• escolher que tipo de sociedade ser/pertencer
• ênfase no aspecto ilustrativo e comunicacional
Isso cria…
• novas áreas de design;
• potencial de trabalho, pois há muitas coisas a serem redesenhadas na sociedades, dependendo apenas do envolvimento de cada um;
• design enquanto processo de multidisciplinariedade;
• toda a sociedade será afetada;
• oportunidades de ação social/empregatícia surgirão;
• surgimento de mudanças de valores e desafios culturais;
Enfim…
• apesar da evolução ser confusa, a sociedade tem importantes contribuições a fazer.
Porto Alegre, 27 de novembro de 2002
Sun 1 Feb 2004
Posted by Ana Brambilla under
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O que é o gaúcho? O gaúcho é o bom selvagem. É o lado não comprometido da sociedade.
Eis que o artista plástico e curador Rubem Grilo dispara uma crítica desconcertante ao gaúcho. Categórico e não menos ácido, soube traduzir o provincianismo da identidade sulina com muita lucidez.
Com exclusividade, em entrevista no Santander Cultural.
Politicamente falando, o gaúcho não pertence nem à máquina capitalista. Ele não tem contradições com o capitalismo, como o operário teria. O gaúcho é um homem tradicional, completamente fora do sistema produtivo; ele goza da sua liberdade, da sua decisão de vida. Ao invés de ter uma obra engajada, ela pertence a uma poética de evasão. O que é o gaúcho? O gaúcho é o bom selvagem. É o lado não comprometido, não contaminado da sociedade. Ele ainda não entrou no processo de produção. Ao invés de ele encarar a luta política em sua objetividade, ele vira as costas para a realidade e afetivamente se identifica com o lado não engrenado do sistema.