Apesar de ser guiado por um viés crítico, Eugênio Trivinho elucida alguns conceitos que pontuam a noção de tempo e espaço na cultura digital. Em “GLOCAL – para a renovação da crítica da civilização mediática”, o autor parte do entendimento original do termo “glocal”, lançado por Paul Virilio, inserindo-o na perspectiva da teoria da comunicação.
Pincei alguns trechos e cá estão eles, sem qualquer compromisso de análise num primeiro momento. Talvez colaborem com algumas reflexões (ou mirabolices?) que teci por esses dias, referentes ao espaço-web.

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O que é o glocal
“O conceito de glocal (…) nasce na vigência da cibercultura, configuração material, simbólica e imaginária da era pós-industrial avançada, correspondente ao predomínio internacional da matriz digital de tecnologia, seja no âmbito do trabalho, seja no do tempo livre e do lazer.” (66-67)

O imaginário no ciberespaço
“Essa configuração prática do contexto de acesso ao ciberespace é o sintoma exponencial de um acoplamento ainda mais significativo, mais visceral, por assim dizer, o acoplamento simbólico e imaginário, verdadeira indexação pós-industrializada das singularidades pessoais aos fluxos das máquinas capazes de rede” (67-68)

Material X Imaterial
“O fenômeno glocal pressupõe (…) dois macrocentos de gravitação simbólica: um, material e extensivo, diz respeito ao âmbito geográfico e ao environment herdados (natureza e zona urbana); outro, imaterial e intensivo, concerne ao universo espectral povoável das redes comunicacionais (de massa e virtuais). Em outro registro um, o universo dos lugares, dimensão concreta da experiência corporal, processada in loco; outro, o campo dos não-lugares (em especial, os de caráter audiovisual), oceano veloz e reciclável de vivências espectrais. Trata-se de uma fratura sutil, imperceptível em sua expressão diuturna, que se coloca socioculturalmente como efeito estrutural de monta operado pela comercialização ampliada dos media.” (p.69)

Imagem pela socioespacialização
“Na ordem infoeletrônica atual, a imagem não mais figura como uma superfície para ser somente vista ou contemplada. Ela se põe como uma socioespacialização tecnológica que cartografa o público-alvo de maneira distinta da do passado: e se converteu num campo de atuação humana. Doravante, o ente humano é previsto não somente para postar-se diante dela, mas também para inserir-se nela, ou melhor, para interferir concretamente nos fluxos sígnicos que a presidem, ajudando na construção das tendências possíveis desses fluxos.” (70-71)

Uma obviedade que precisa ser citada…
“No fundo, é toda a vida humana que se reprograma sob o predomínio das tecnologias do tempo real.” (p.71)

Espaço-tempo fora da tradição
“O fenômeno glocal responde por uma radical reprogramação dos vetores do espaço e do tempo tal como representados na tradição racional, tecnocientífica e pragmática da cultura ocidental” (p.71)

Espaço de atuação
“O glocal promove a reescritura integral desse espaço por meio da produção de uma arena tecnológica em dupla via: o espaço imediato da condição glocal, contexto da vivência concreta, e a socioespacialização tecnoimagética do aparelho de base (numa palavra, a tela), seja como eixo de condutibilidade de fluxos mediático-espectrais, elaborados segundo o modelo serial, ‘industrial’, seja principalmente como novo campo de atuação humana.” (p.72)

Estar junto na web
“O isolamento corporal perante a tela verificado no glocal interativo é compensado pela sensação imaginária de gregarismo sobejamente produzido pelo contexto de conexão – gregarismo, no fundo, com artifícios tecnológicos: a máquina, a rede e a alteridade espectral.” (72-73)

Um outro tempo
“Reconfiguração do tempo
Na esteira do que ocorre com o espaço, o glocal também reescreve integralmente o tempo, aqui tomado em sua acepção ordinária, como um tempo astronômico matematicamente cartografado, disposto em períodos lineares, de sucessão contínua, passível de representação instrumental espacializada (relógio, calendário) e de representação teórico-analítica (passado, presente e futuro). Com o glocal, o tempo consta igualmente contraído ao seu mínimo denominador: o interstício milionesimal dos segundos – senão menos que isso, se assim se pode dizer -, na forma de um tempo tecnicamente produzido, o tempo da instantaneidade da luz, o tempo real. Por essa modalidade de tempo, compreende-se a espécie de fluxo temporal que, instituído com o advento dos media eletrônicos e por eles modulado, simula ser o próprio tempo ordinário, o tempo-que-passa da vida cotidiana. O tempo real é uma caricatura bem feita desse tempo-que-se-esvai.
(…) Distingue-se do ponto de vista do que é tornado público pela instantaneidade comunicacional, duas classes relativamente bem definidas de tempo real: (1) o tempo real dialógico, multipolar-bidirecional, flexível (seja live, seja on-line, com abertura para a participação dos receptores, ou melhor, para a interação tecnologicamente mediada entre alteridades humanas) e (2) o tempo real multipolar-unidirecional, rígido (transmissão televisiva livre ou na modalidade VT, disponibilização invariável de dados na www).” (73-74)

Espaço-web
“… o espaço geográfico se reduz, em termos absolutos, ao lugar imediato de acesso, que se reduz à socioespacialização tecnoimagética, que se reduz ao tempo real, que não se põe numa ordem de sucessão passado-presente-futuro, mas como fluxo contínuo, sem começo nem fim, ‘pleno’, se assim se pode dizer (quase como algo ‘dado’), imensurável, e que, por isso, caracteriza-se como um tempo a-temporal, acrônico, um tempo auto-revogaório, auto-supressivo, um ‘tempo sem tempo’, tanto mais assim reconfirmado quanto maior for o investimento imaginário do receptor nos fluxos imagético-informacionais.” (p.75)

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Texto publicado em “Comunicação na Cibercultura“. Editora Unisinos.