Acasos não existem. Não se trata de um ceticismo exagerado, ao contrário. Creio no que há de mais peculiar na comunicação do ser com o seu entorno: a sensibilidade. Qualquer escolha tem sua justificativa, ainda que tácita.
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Não raro encontro adeptos do acaso, a quem tudo se explica pelo etéreo, pelo indizível. Perdoem-me os fatalistas; cada vez mais sou obrigada a acreditar que acaso não existe. Não se trata de um ceticismo exagerado, ao contrário. Creio no que há de mais peculiar na comunicação do ser com o seu entorno: a sensibilidade. Por ela tudo se explica, sim, adequando cada caso ao seu contexto. Uma espécie de intuição justificada por uma razão silenciosa que palpita dentro de você e o induz a certa escolha. Não necessariamente, à escolha certa. Mas não vou entrar nesse mérito.
A exemplo, repare na maneira como você navega no ciberespaço. Quantas possibilidades se conjugam numa mesma interface? Quantos caminhos nela se cruzam e se oferecem a dar continuidade à sua navegação? No entanto, sua escolha é pontual. A justificativa fica por conta do conteúdo, da disposição do link na página, da cor e da forma mais ou menos atraentes ao seu olhar. À exceção dos ciberflâneurs, de André Lemos, você jamais dará um clique por acaso. Mesmo que não saiba explicar sua escolha. A fluidez eficiente de uma navegação é o que lhe confere o rótulo de intuitiva, conceito prá lá de questionado por lidar com preceitos de extrema subjetividade.
Na forma de um grande estuário, o ciberespaço colabora com a impressão de que as coisas acontecem por acaso, devido ao usuário traçar caminhos de forma autônoma, logo esquecendo seu ponto de partida. São os nós do hipertexto oferecendo-se com maior ou menor atratividade aos interesses do usuário. Escolhas de um clique esvaem-se na velocidade da navegação. E no exagero de opções oferecidas.
Em Hamlet no Holodeck, Janet Murray questiona: “Como podem as pessoas viver num mundo do qual têm plena consciência que se romperá em três a cada decisão tomada, um mundo em que existem infinitas alternativas para cada situação?” – A ansiedade da autora é compreensível quando a escolha correta é uma obrigação. Mas como saber se uma opção é ou não a escolha correta?
Marcar a alternativa “A” numa prova pode ser impulso. Ou seu conteúdo pode parecer-lhe o mais adequado à questão. Em ambos os casos há uma justificativa concreta. Ou você fecha os olhos antes de preencher a folha-resposta?
Caminhar despreocupadamente pela avenida mais movimentada da cidade e, de repente, encontrar um amigo pode ser um belo cruzamento de caminhos. Ou a despedida desproposital de um afastamento que ocorreria em breve e você nem poderia imaginar.
Depois que tudo acontece fica mais fácil encontrar as razões de uma escolha sem acaso.
Optar por um trajeto, um link, um livro, um caminho na bifurcação de duas ruas vai condicionando o resto da história. E se desdobrando em outras opções de trajetos, links e livros. Em Cidades Invisíveis, Calvino explora com precisão o ponto frágil em que homem se vê diante de escolhas essenciais: “Marco entra numa cidade; vê alguém numa praça que vive uma vida ou um instante que poderiam ser seus; ele podia estar no lugar daquele homem se tivesse parado no tempo tanto tempo atrás, ou então se tanto tempo atrás numa encruzilhada tivesse tomado uma estrada em vez de outra e depois de uma longa viagem se encontrasse no lugar daquele homem e naquela praça.”
Sem nostalgias nem ar de arrependimento, o importante não é perguntar “o que seria de mim se…”. Escolhas geralmente são irreversíveis. Simples ou fundamentais para a continuidade da sua história, são freqüentes, instantâneas, e quase sempre exigem raciocínio rápido. Mas jamais deixarão de ser escolhas. Sem acaso, refletem seu comprometimento com um estímulo tácito. E mesmo seguindo razões íntimas, você nunca estará sozinho.
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CALVINO, Ítalo. As cidades invisíveis. 26ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1990
MURRAY, Janet H. Hamlet no holodeck. O futuro da narrativa no ciberespaço. São Paulo: Editora UNESP, 2003
Apesar de ser guiado por um viés crítico, Eugênio Trivinho elucida alguns conceitos que pontuam a noção de tempo e espaço na cultura digital. Em “GLOCAL – para a renovação da crítica da civilização mediática”, o autor parte do entendimento original do termo “glocal”, lançado por Paul Virilio, inserindo-o na perspectiva da teoria da comunicação.
Pincei alguns trechos e cá estão eles, sem qualquer compromisso de análise num primeiro momento. Talvez colaborem com algumas reflexões (ou mirabolices?) que teci por esses dias, referentes ao espaço-web.
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O que é o glocal
“O conceito de glocal (…) nasce na vigência da cibercultura, configuração material, simbólica e imaginária da era pós-industrial avançada, correspondente ao predomínio internacional da matriz digital de tecnologia, seja no âmbito do trabalho, seja no do tempo livre e do lazer.” (66-67)
O imaginário no ciberespaço
“Essa configuração prática do contexto de acesso ao ciberespace é o sintoma exponencial de um acoplamento ainda mais significativo, mais visceral, por assim dizer, o acoplamento simbólico e imaginário, verdadeira indexação pós-industrializada das singularidades pessoais aos fluxos das máquinas capazes de rede” (67-68)
Material X Imaterial
“O fenômeno glocal pressupõe (…) dois macrocentos de gravitação simbólica: um, material e extensivo, diz respeito ao âmbito geográfico e ao environment herdados (natureza e zona urbana); outro, imaterial e intensivo, concerne ao universo espectral povoável das redes comunicacionais (de massa e virtuais). Em outro registro um, o universo dos lugares, dimensão concreta da experiência corporal, processada in loco; outro, o campo dos não-lugares (em especial, os de caráter audiovisual), oceano veloz e reciclável de vivências espectrais. Trata-se de uma fratura sutil, imperceptível em sua expressão diuturna, que se coloca socioculturalmente como efeito estrutural de monta operado pela comercialização ampliada dos media.” (p.69)
Imagem pela socioespacialização
“Na ordem infoeletrônica atual, a imagem não mais figura como uma superfície para ser somente vista ou contemplada. Ela se põe como uma socioespacialização tecnológica que cartografa o público-alvo de maneira distinta da do passado: e se converteu num campo de atuação humana. Doravante, o ente humano é previsto não somente para postar-se diante dela, mas também para inserir-se nela, ou melhor, para interferir concretamente nos fluxos sígnicos que a presidem, ajudando na construção das tendências possíveis desses fluxos.” (70-71)
Uma obviedade que precisa ser citada…
“No fundo, é toda a vida humana que se reprograma sob o predomínio das tecnologias do tempo real.” (p.71)
Espaço-tempo fora da tradição
“O fenômeno glocal responde por uma radical reprogramação dos vetores do espaço e do tempo tal como representados na tradição racional, tecnocientífica e pragmática da cultura ocidental” (p.71)
Espaço de atuação
“O glocal promove a reescritura integral desse espaço por meio da produção de uma arena tecnológica em dupla via: o espaço imediato da condição glocal, contexto da vivência concreta, e a socioespacialização tecnoimagética do aparelho de base (numa palavra, a tela), seja como eixo de condutibilidade de fluxos mediático-espectrais, elaborados segundo o modelo serial, ‘industrial’, seja principalmente como novo campo de atuação humana.” (p.72)
Estar junto na web
“O isolamento corporal perante a tela verificado no glocal interativo é compensado pela sensação imaginária de gregarismo sobejamente produzido pelo contexto de conexão – gregarismo, no fundo, com artifícios tecnológicos: a máquina, a rede e a alteridade espectral.” (72-73)
Um outro tempo
“Reconfiguração do tempo
Na esteira do que ocorre com o espaço, o glocal também reescreve integralmente o tempo, aqui tomado em sua acepção ordinária, como um tempo astronômico matematicamente cartografado, disposto em períodos lineares, de sucessão contínua, passível de representação instrumental espacializada (relógio, calendário) e de representação teórico-analítica (passado, presente e futuro). Com o glocal, o tempo consta igualmente contraído ao seu mínimo denominador: o interstício milionesimal dos segundos – senão menos que isso, se assim se pode dizer -, na forma de um tempo tecnicamente produzido, o tempo da instantaneidade da luz, o tempo real. Por essa modalidade de tempo, compreende-se a espécie de fluxo temporal que, instituído com o advento dos media eletrônicos e por eles modulado, simula ser o próprio tempo ordinário, o tempo-que-passa da vida cotidiana. O tempo real é uma caricatura bem feita desse tempo-que-se-esvai.
(…) Distingue-se do ponto de vista do que é tornado público pela instantaneidade comunicacional, duas classes relativamente bem definidas de tempo real: (1) o tempo real dialógico, multipolar-bidirecional, flexível (seja live, seja on-line, com abertura para a participação dos receptores, ou melhor, para a interação tecnologicamente mediada entre alteridades humanas) e (2) o tempo real multipolar-unidirecional, rígido (transmissão televisiva livre ou na modalidade VT, disponibilização invariável de dados na www).” (73-74)
Espaço-web
“… o espaço geográfico se reduz, em termos absolutos, ao lugar imediato de acesso, que se reduz à socioespacialização tecnoimagética, que se reduz ao tempo real, que não se põe numa ordem de sucessão passado-presente-futuro, mas como fluxo contínuo, sem começo nem fim, ‘pleno’, se assim se pode dizer (quase como algo ‘dado’), imensurável, e que, por isso, caracteriza-se como um tempo a-temporal, acrônico, um tempo auto-revogaório, auto-supressivo, um ‘tempo sem tempo’, tanto mais assim reconfirmado quanto maior for o investimento imaginário do receptor nos fluxos imagético-informacionais.” (p.75)
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Texto publicado em “Comunicação na Cibercultura“. Editora Unisinos.