Fracassado modelo de negócio de empresas de comunicação sustenta lógica do Facebook

Poucas vezes vi o tema “o impacto do algoritmo do Facebook no jornalismo” retratado com tanta clareza e diversidade de olhares, quanto neste artigo, publicado ontem, no NYT.

A reflexão ilumina questões urgentes para debate, como:
- a bolha algorítmica da desinformação
- o trabalho do editor versus a edição do teu amigo
- consumo de informação e engajamento
- marcas editoriais como anunciantes (ou notícia-produto)
- paywall (juro que sinto vergonha alheia em voltar a esse tema às barbas de 2015, enfim…)

No entanto, a maior constatação a que esse texto me leva não está na esfera editorial, senão nos negócios. Noutras palavras: o êxito do modelo de negócios fodástico que o Facebook consolidou e pelo qual faz o mundo babar só se sustenta pelo modelo antigo de sustentabilidade financeira de uma publicação jornalística: publicidade quantitativa. E isso fica muito claro neste trecho:

Facebook executives frame the company’s relationship with publishers as mutually beneficial: when publishers promote their content on Facebook, its users have more engaging material to read, and the publishers get increased traffic driven to their sites. Numerous publications, including The New York Times, have met with Facebook officials to discuss how to improve their referral traffic. The increased traffic can potentially mean that the publisher can increase its advertising rates or convert some of those new readers into subscribers.

Por “promote“, leia “comprar” visibilidade aos conteúdos no newsfeed. Logo, o esquema de publicidade do Facebook só funciona porque dirige nossas chamadas, sob pagamento, a pessoas que mais provavelmente clicarão nos nossos links. Com isso, empresas de comunicação, seguem buscando a massa, a quantidade de impressões.

Isso se tiverem sorte! Porque o modelo se trai.

Certa vez ouvi de alguém que trabalhava no Google que, quanto menos tempo o usuário passasse na página de busca, mais forte era o sinal de sucesso do produto. Lógica brilhante! E que não se aplica às redes sociais:

Social media companies like Facebook, Twitter and LinkedIn want their users to spend more time, or do more, on their services — a concept known as engagement, said Sean Munson, an assistant professor at the University of Washington who studies the intersection of technology and behavior.
Facebook officials say that the more time users spend at its site, the more likely there will be a robust exchange of diverse viewpoints and ideas shared online.

Eles tentam bancar os bons moços, generosos em fomentar o debate, a pluralidade de ideias e em ceder-nos audiência, ainda que seja muito bem paga e sirva de combustível para um modelo de negócio decadente, soterrado pelo esquema de publicidade instituído pelo próprio Facebook.

Insisto: ao contrário do Google, o Facebook é uma empresa de um produto só. Direcionar o usuário para outro site não é negócio pra eles. Essa rede é um fim em si mesma. Ainda que precise de conteúdo relevante para se sustentar – o que lhe suprimos com afinco e trabalho gratuito – não vai faltar quem compartilhe nossos links por lá. Ou seja, esse namorinho entre Facebook e as empresas jornalísticas é muito conversa pra boi dormir.

Resta ver até quando o mercado vai acreditar nessa mentirinha…

***

Update 1: tks a lot ao Sérgio Ludtke e à Nívia Carvalho por terem compartilhado esse artigo comigo. (sorry, Serginho, estou num teclado castellano e não encontro o trema de jeito nenhum!)

Update 2: já que o assunto é modelo de negócio em redes sociais, acho válidas experiências com formatos inovadores, como o Tsu (sorry de novo pela falta de trema no Tsu) Veja também a análise do YouPix sobre essa rede que promete dividir a receita com os usuários.

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Morte e vida do microjornalismo colaborativo

A riqueza de conteúdo colaborativo que a eleição presidencial deste ano no Brasil impulsionou nas redes sociais tem sido histórica. Em plena pesquisa sobre microjornalismo, dou vivas a esse momento e encho meus alfarrábios de recortes. Entre ontem e hoje, porém, dois recortes me incomodaram.

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Ambos ilustram, à primeira vista, situações de denúncia relatadas em primeira pessoa (sem citação de fonte terceira) e ambos mostram situações de veracidade absolutamente questionável. Óbvio que pensei: então o microjornalismo colaborativo chega só até aí?

O caminho mais lógico, a seguir, seria percorrer a autoria: os dois recortes chegaram até meus newsfeeds por meio de compartilhamento de duas amigas confiáveis, uma eleitora do PSDB, de SP e outra eleitora do PT, de MG. Desconheço os autores dos posts que elas compartilharam (o Zé Adão eu conheço de nome e pela dedicação à dramaturgia, mas não o conheço pessoalmente nem tenho referências próximas a ele). Então até aí pôde ir meu julgamento.

Mas a caracterização ou não desses posts como microjornalismo colaborativo clamava por um seguimento. Fui ao mais óbvio e não menos importante: a repercussão. E aí sim me surpreendi!

Para além da militância, o questionamento sobre a veracidade do conteúdo desses posts se registrou em altos brados. E mais: o público pedia provas. Show me the code! Numa atitude linda de uma sociedade em pleno amadurecimento de consciência sobre o conteúdo colaborativo.

Para o post do Adão:
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Para o post do Movimento Queromedefender:
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Infelizmente, também há registro da dependência pela chancela da grande mídia, que parte do próprio público a incapacidade ou a cegueira de notar-se como produtor de conteúdo relevante, noticioso ou mesmo crítico a ponto de selecionar as informações que vai consumir como jornalismo:

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Meu consolo é que ponderação desse tipo foi minoria entre as repercussões :-)

Lógico que essa discussão não encerra a questão de essas denúncias serem ou não falsas, serem ou não microjornalismo colaborativo. Mas dão uma boa pista de por onde a consolidação desse modelo editorial pode evoluir.

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Mídia espontânea e jornalismo colaborativo

Em 2005, quando estive no OhmyNews, lá em Seul, vi o Mr. Oh Yeon Ho falando sobre as bases de um noticiário colaborativo e sua relação com o mercado. Para além da sustentabilidade financeira garantida pelo modelo padrão de publicidade, Mr. Oh acreditou desde cedo nos “volunteers promoters” – ou aqueles cidadãos repórteres que se incumbiam de viralizar o produto a partir do próprio orgulho de ter participado dele – “Vejam, amigos! Leiam a reportagem que acabei de publicar no OhmyNews!“.

Sim, é uma mistura de uma franca moeda em capital social paga ao colaborador que, através dela, se sente tão parte daquele produto que dissemina aquela marca de modo voluntário, natural, entusiasmado e saturado de credibilidade, já que não recebeu um tostão pra fazer isso.

No último sábado encontrei o Jaime Batista da Silva, colaborador assíduo do VC Repórter, do Terra, divulgando pelo Twitter uma exposição que fará na Câmara dos Vereadores de sua cidade, Blumenau, reunindo fotos que ele publicou no canal de jornalismo colaborativo do portal brasileiro.

A proposta vai além da mídia espontânea. É um caso evidente de enlace social. Não resta dúvidas de que Jaime se orgulha em ser colaborador do VC Repórter. Ele chega a colar sobre sua foto o avatar que o canal mantém no Twitter, como uma espécie de crachá.

O título da exposição também traz o nome do Terra, do VC Repórter. E com isso a mídia gerada por Jaime se prolonga para o ambiente físico, chancelando a força de uma fusão cada vez maior entre ações materiais e digitais.

Certamente, a troca também é benéfica para Jaime, que se projeta nas asas de uma grande marca, porém com um trabalho de própria autoria. Além disso, os interesses em divulgar problemas da cidade e reivindicar soluções pela comunidade de Blumenau também movem a espontaneidade de Jaime. Mas ele só faz isso porque existe uma identificação com o canal. Caso contrário, se não simpatizasse ou não confiasse no espaço, certamente escolheria outro.

Se o uso da marca foi indevido ou não sob o ponto de vista jurídico/corporativo, isso deve ficar em segundo plano quando a maior moeda envolvida possui um valor social inestimável, digna de ser aplaudida por ambas esferas envolvidas: Terra e Jaime.

É a segunda vez que Jaime promove uma exposição assim. A primeira foi no ano passado.

Essa parece a hora certa para criar um time de elite de colaboradores e “pescar” figuras assim para perto do produto.

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A banalização dos cargos de mídias sociais

Logo após a rápida ascensão de uma área estratégica no mercado, é natural que surjam os oportunistas e a estandardização dos cargos. Este artigo da Claudia Valls, na HSM, clama pelo desaparecimento dos “gurus” das mídias sociais. Concordo com boa parte do que a autora defende, mas há um passo anterior – ou talvez decorrente? – à multiplicação desenfreada dos “experts” numa área por onde ainda tateamos.

Me refiro ao ilusório paradigma de achar que o seu sobrinho de 17 anos manja tudo de computador e que, portanto, será “o cara” de mídias sociais da sua empresa. Como se o conhecimento na área fosse proporcional à quantidade de espinhas no rosto…

Papo de quem está à beira dos 30 à parte, tenho uma coluna no TweetDeck que filtra tweets com a expressão “mídias sociais”. E é incrível a quantidade de ofertas de vagas para estagiários, recém-formados, galera sem qualquer experiência no mercado para “resolverem a parada”, a salários realmente incompatíveis com a responsabilidade requerida a quem ocupará uma função tão estratégica em empresas de quaisquer ramos que procuram apostar em plataformas de relacionamento. Mas talvez uma quantia razoável para quem está tão no início da vida que toda a “experiência” que tem em redes sociais seja jogando FarmVille.

Outro dia uma colega de profissão criticou a generalização do cargo de “analista” para identificar qualquer profissional que trabalhe com mídias sociais. “Como se não precisassem existir diretores de mídias sociais, criação, atendimento… é tudo analista de mídias sociais”.

Pois para mequetrefizar ainda mais a situação, encontrei esta vaga-pérola, de “estagiário-analista de mídias sociais”:

Agora me diz… qual estudante, por mais ninja que seja, terá know-how para fazer análise de comportamento do público nas redes sociais, elaboração de planejamento e de relatórios de mídia, gestão de campanhas, elaboração/manutenção de aplicativos, PLANEJAMENTO ESTRATÉGICO PARA AÇÕES DO CLIENTE DENTRO DO AMBIENTE ONLINE!!!!! Acho difícil de encontrar até profissionais antenados, pós-graduados e com experiência no meio online que dêem conta de demandas tão complexas e nevrálgicas pra uma empresa. Algumas vagas se limitam a exigir que o candidato tenha feito ESTÁGIO em comunicação… O anúncio não fala em valores de salário, mas algum estagiário recebe mais de R$ 1.500 hoje, nessa área?

Nem vamos chegar na negligência em relação aos profissionais que investem em desbravar uma área através de pesquisas, eventos, viagens e criação de boas práticas. Empresas que entregam suas estratégias de mídias sociais nas mãos de profissionais (ou estagiários) despreparados sofrem de uma tremenda falta de conhecimento sobre o que se trata o campo ou são mesmo irresponsáveis.

Quer saber? Nem pro estagiário é bom! Como aprendiz, ele tem que ter um tutor! E não carregar nas costas o compromisso de um coordenador com salário e experiência de estagiário.

Nada como viver a fase de amadurecimento de uma área. Fico curiosa para ver qual modelo de mercado e de profissional vai prosperar. Não defendo a figura do especialista até porque ela não existe; o que existem são profissionais cujas carreiras se direcionam já há 8, 10, 15 anos para o ambiente digital, foram early adopters e combinam uso pessoal com aplicação de mercado E reflexão, crítica, pesquisa.

Nem tanto, nem tão pouco. Nem gurus, nem estagiários apenas. Mas um jogo mais limpo, aberto e com responsabilidades compatíveis ao repertório de cada profissional, à demanda de cada empresa e às exigências naturais da área.

EM TEMPO (e pra descontrair…)

Acabo de receber pela lista de discussão WeBees um e-mail bárbaro tirando sarro das seguintes “ofertas”:

“Alguem conhece um escravo anão que manja fazer apresentações no Keynote ?? Estamos oferecendo até almoço se preciso.”

“Fulano de Tal tem #vaga para personal Stylist. Ter experiencia em vestir coxinha é diferencial. xxxx@xxxx.com”

“Agencias de Publicidade esta com #vagas para fornecedores de REBITE e café 100% cafeína. Contato: naodurmo@a3dias.emendei.finaldesemana.com”

Valeu, Jess! ;-D

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Facebook: a maior empresa jornalística da história?

De carona com o lançamento recente de uma fanpage dedicada a divulgar boas práticas aos jornalistas na rede, o Facebook aparece no centro de uma polêmica interessante.

O momento mostra que hiperlocal é hype. E qual outro ambiente consegue se tornar tão segmentado em medidas ajustáveis do que as mídias sociais? Não por acaso, são espaços por onde circula, acontece e se busca muita notícia. Uma lógica possível pode ser essa: jornalismo + hiperlocal = rede social. Mas daí ao Facebook ser a maior empresa jornalística de todos os tempos faz sentido?

Joshua Gans, professor de economia da Melbourne Business School, não só acredita que sim como justifica com a noção do hiperlocal social, ou seja, a vizinhança não geográfica, mas agrupada em torno de interesses comuns – o que sempre estudamos como a base de qualquer comunidade online. O que muda, talvez, seja a escala do Facebook e outro aspecto curiosíssimo que, assim como este, é abordado pelo EditorWeblogs.org.

Fun and News

Um dos diferenciais mais significativos do Facebook enquanto ferramenta jornalística é a combinação de práticas sociais em um mesmo espaço. Mathew Ingram reduz o Twitter a sinônimo de jornalismo, como se o único propósito dos tuiteiros fosse buscar notícias por lá. Enquanto isto, no Facebook, o jornalismo se espalha num emaranhado de fotos divertidas, jogos em rede, conversa de amigos, aplicativos cute… ou seja, não é um espaço somente jornalístico. Mas cá entre nós: vocês vêem o Twitter como sinônimo integral de jornalismo? Eu confesso que não.

Ainda assim, a perspectiva destes caras parece fazer sentido, ainda que um tanto exagerada. Talvez caminhemos para esta configuração do jornalismo em mídias sociais. Talvez tenhamos que buscar fazer um jornalismo mais divertido – o que não é novo, vide os newsgames! – para manter a relevância no convívio social do público.

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Tweets editoriais patrocinados

Não é de hoje que sou percebo certa incoerência em usuários de redes sociais se colocarem como espaços comerciais de mídia. Isso vem desde os probloggers com seus publieditoriais até tuiteiros cobrando – e bem! – por inserções publicitárias.

A razão é uma só: são indivíduos – e não marcas midiáticas vendendo espaços comerciais.

Estou na contramão de uma galera que considero gente fina por outras razões, tipo o Edney Souza, um dos precursores deste formato. Sem confundir com conteúdo customizado, publicidade em perfis de indivíduos em redes sociais me soam tão fakes quanto perfis de marcas no Orkut ou no Facebook – que são lugares de pessoas, com cor de olhos, cabelo, altura e preferência sexual, atributos que… bem… marcas não dispõem.

A caro custo, veículos de imprensa conseguiram (?) estabelecer uma limite entre o que é editorial e o que é publicitário, validando a venda de espaços comerciais ao lado de conteúdos pretensamente desinteressados por outras relações que excluam o compromisso com a verdade.

Bom, até na mídia convencional, igreja e estado ainda se confundem. Imagina em um ser humano, cujo compromisso deveria ser com a própria consciência, que gera a sua opinião.

Talvez por isso, alguns “protwitters” sejam arredios ao falarem sobre o assunto, como cita esta matéria no Estadão:

“Essa resistência em assumir o uso do microblog como mídia se justifica pela ideia cultivada pelos usuários de que os comentários só são críveis se forem espontâneos.
Mas a manipulação comercial é um fato, embora tuiteiros que cobram para divulgar mensagens publicitárias prefiram esconder o jogo.”

E se um perfil editorial vender inserções publicitárias? Quer saber? Acho mais natural. Ao menos é mídia vendendo mídia. E não ser humano vendendo opinião. (Em casos mais exagerados, vendendo até o corpo como mídia)

Por mais que a sinalização aconteça através de não tão claras hashtags do tipo #ad, aplaudo a iniciativa do perfil @igbeleza, do portal iG, em escancarar o jogo de que se trata de um tweet publicitário.

Depois de inquirir e ser inquirida tantas vezes sobre como extrair dinheiro das redes sociais no jornalismo, será essa uma tendência?

UPDATED: o ex-aluno e querido Maurício Tomedi comentou pelo Twitter sobre os ads do perfil @VFeminina. Disse a ele que ainda prefiro o tipo A do que o tipo B. Jogar limpo tem tudo a ver com mídias sociais. E quanto mais explícito for o anúncio, especialmente citando o perfil do anunciante como agente da mensagem, mais limpo o jogo será.

E isso me leva a pensar noutro formato, mas que ainda não encontrei por aí… O RT de mensagens publicitárias em perfis editoriais. Alguém já viu isso? Agradeceria por me indicar :-)

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Acomodados ou pró-ativos?

“Visualize uma luz branca entrando pelo alto de sua cabeça.
Lentamente, esta luz se espalha pelo seu corpo.
A luz relaxa cada músculo; cura cada órgão seu…”

- Como são boas essas meditações de visualização, Mãe…
- Isso tem impacto pra vocês de hoje porque vocês não pegaram o tempo das radionovelas.
- Por quê?
- Porque lá a gente tinha que imaginar cada cena e hoje em dia já vem tudo pronto!

Dona Sonia não só tem razão como me deixou com a pulga atrás da orelha… Como podemos receber tudo pronto e, ao mesmo tempo, celebrar os processos colaborativos na mídia digital?

Somos acomodados ou pró-ativos? Suamos com Wii. O 3D nos conduz a outras realidades sensoriais sem sairmos da cadeira. Escolho o cardápio da janta acessando o site de telentregas. Se não estivermos em casa na hora da novela assistimos pelo celular mesmo. A lembrança do aniversário dos amigos chega até nós pelas redes sociais e até para cutucá-los apertamos um botão.

E sonhamos com TV digital interativa?

E achamos que o diferencial de um site é o que ele tem de interativo?

Queremos realmente fazer algo? O que queremos fazer?

No caso da TV ainda sou meio turrona e penso em Dominique Wolton (se bem lembro) falando sobre a espinha dorsal do ser humano. Ela muda drasticamente de ângulo entre quem assiste à TV e quem se senta à frente de um computador. No primeiro caso, a inclinação do corpo para trás, no sofá, indica aceitação, entrega, ao contrário do segundo caso, onde se vê uma curvatura para frente, insinuando imersão, ação.

Nem tudo deve ser colaborativo. Nem todo o conteúdo tem de precisar do dedo do público para fazer sentido, sob pena de sofrer com o abandono. Daí lembro de projetos como o Limão, em sua proposta inicial, os falecidos Gostei e PinFotos, da Abril, o moribundo Abril Blogs, a TBox, do Terra além de homes e streamings customizáveis à lá NetVibes da vida.

Isso não quer dizer que o público seja preguiçoso, mas que ele tem foco e já selecionou onde quer interagir e qual conteúdo vai produzir. Noutras palavras, ele vai fazer o que ELE quiser, onde ELE quiser, não exatamente no NOSSO site o conteúdo que NÓS quisermos.

As redes sociais se firmam como os locais absolutos para interação e definem, dia após dia, qual o tipo de UGC o usuário está a fim de produzir. É do nosso agrado? Pouco importa. O jornalismo até vai bem ao se infiltrar nestes ambientes próprios do usuário e inventar maneiras de integrar a interação das redes com o conteúdo dos veículos.

Eu arriscaria dizer, inclusive, que as mídias sociais incentivaram o público a produzir ainda mais conteúdo, um acontecimento que tem sido cada vez melhor explorado pelos veículos. Mas vale lembrar que rede social e veículo online ainda estão na mesma mídia.

Como será que a TV vai se sair em redes sociais? Terá ela algum outro apoio para mudar a postura cervical do espectador e estimulá-lo a interagir, a criar?

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Isso é jornalismo? Who cares?

Imagem de George, licenciada por Creative Commons

Outro dia uma amiga me contou, afobada:

ELA: Viu que o câncer da Dilma voltou?
EU: Não! Onde tu viu?
ELA: No Twitter!
EU: Sim, mas no Twitter de quem?
ELA: Ah, não lembro. No Twitter…

Quando comecei a estudar jornalismo colaborativo, em 2003, um conteúdo ser ou não ser jornalismo era uma grande questão. Talvez a imposição dos veículos perante o público ainda mantivesse aberto esse abismo entre conteúdo e notícia. Sempre sublinhei a diferença entre conteúdo colaborativo (YouTube, Flickr, blogs) e jornalismo colaborativo nas aulas e conversas com estudantes.

Lembro que fiquei fula da vida quando perguntei ao Dr. Roberto Civita, durante uma palestra lá na Abril, em 2006, alguma coisa sobre jornalismo cidadão em relação à então recém-lançada Sou+Eu. Ele me respondeu indicando que a revista não era jornalística. Hoje tenho que dar risada da minha brabeza.

O jornalismo não morreu e nem morrerá (sorry, JR). O que a Sou+Eu faz ainda é jornalismo, aos meus olhos, assim como qualquer veículo de imprensa que assim se propõe e leva a cabo a rotina editorial. Mas… quem se importa com isso?

Informação virou commodity. Twitter virou imprensa.
(Demorei pra perceber?)

Assim como o público nunca questionou o que a Fátima Bernardes ou o Faustão dizem pela TV, quem se preocupará em questionar uma informação tuitada?

No debate em que participei na Campus Party desse ano, ao lado do Alexandre Matias, do Demi Getschko e do André Forastieri, nosso moderador, o Gil Giardelli, perguntou se entendíamos o Wikileaks como jornalismo. Fui a única do grupo que discordou. “Mas, afinal, quem se importa se algo é jornalismo ou não?” Pelo jeito, só nós, jornalistas :-P

O público consome informação já sem fazer distinção entre o que esperar de cada mídia, tampouco saber quem a faz, que processo está por trás. Não se trata de uma visão pessimista. É apenas uma crise. E crises costumam ser oportunidades férteis para reinvenções.

E aí, jornalismo? Vai ficar aí parado ou fazer alguma coisa para recuperar o diferencial e a relevância? Talvez se “impor” já não seja exatamente a melhor coisa a fazer…

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Procuram-se leitores

Há duas semanas conversei com Mr. Oh Yeon Ho, criador do OhmyNews, em busca do porquê de o OhmyNews International ter mudado tão bruscamente de formato em setembro, o que muita gente entendeu como “fechamento” de um dos veículos colaborativos mais fortes.

Além da dificuldade em apurar um conteúdo de abrangência global – o que só reforça a ideia de que jornalismo cidadão tende a funcionar melhor em pequenas comunidades – outra razão que Mr. Oh comentou foi a “falta de clareza sobre quem é a audiência“.

Isso me encasquetou como há muito tempo algo não me incomodava. Especialmente porque a conversa com Mr. Oh aconteceu um dia depois eu ter ouvido, no MediaOn, o Ricardo Gandour, do Estadão e o Sérgio Dávila, da Folha de São Paulo falando da importância da colaboração e da aproximação do jornalista com o público.

Levou 7 anos até que ouvisse grandões engravatados da mídia tradicional reverberando papos de barcamps, campus parties e outras desconferências que participei na época do mestrado. Foi bacana perceber que algo em que tanto acredito demorou para acontecer, mas algum dia, aconteceu. Mesmo que o discurso ainda seja maior que os fatos, não apenas no caso do Estadão e da Folha, mas da mídia brasileira de modo geral a maneira como tratam o conteúdo produzido pelo usuário não é mais como um estúpido “show de calouros”.

Do ato à qualidade da publicação

Longe de mim fazer o papel de “do contra”, mas sem perder a crença no UGC e vendo o entusiasmo de algumas pessoas – até mesmo no Newscamp – em proclamar que “o público AGORA tem poder de publicação”, me pergunto se já não era hora dessa discussão estar em outro estágio, pensando não mais no ato, mas na qualidade dessa publicação.

Foi essa a preocupação que identifiquei na fala do Mr. Oh. Ok, as pessoas podem publicar e publicam horrores de conteúdo. Mas que conteúdo é esse? Alguém está a fim de consumir essas informações?

Conteúdo colaborativo é bom de publicar, né? É bom pro veículo, que acolhe sua audiência como co-autora. É bom pro público, que encontra vitrine, status e poder de fala. Mas falta algo pra fechar esse círculo. O bom, velho e “famigerado” leitor. Procura-se por quem se interesse por este conteúdo produzido pelo público. E não falo de Aretuzas ou Show de Schunemann, embora isso também tenha relevância no cenário colaborativo. Falo principalmente de notícia e de seus desdobramentos.

O jornalismo colaborativo, de modo específico, evidencia um problema de target. E isso é preocupação editorial, não apenas de negócio.

Mas a equação não é tão simples quanto diz o título. Não se trata de “encontrar leitores” para o conteúdo que o público, consolidadamente, vem produzindo e veiculando nos braços colaborativos dos players jornalísticos há pelo menos 10 anos. O desafio é encontrar o eixo editorial que case conteúdo produzido pelo usuário com audiência interessada nisso.

Hoje, o caminho que vejo pra esse desafio é o hiperlocalismo. Não penso só em veículos locais, mas em players de qualquer porte dirigindo-se de modo organizado a audiências muito específicas que encontrem no UGC a janela estendida de suas casas.

Sobre o “modo organizado”, conversamos em outro post!

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OhmyNews completa 10 anos

Em 22 de fevereiro de 2000, Oh Yeon Ho dava início a um novo capítulo na história do jornalismo mundial. Em Seul, nascia o OhmyNews, que considero, com tranquilidade, o primeiro veículo de jornalismo colaborativo da história.

Há controvérsias, sabemos. Mas jornalismo colaborativo tal como entendo desde 2003, quando comecei a pesquisar este tema, o OhmyNews foi o primeiro a fazer. Ou seja: jornalismo fundamentado, com profissionais editando e selecionando o conteúdo produzido por cidadãos repórteres do mundo inteiro. E 100% assim. Credibilidade e uso coerente da dupla via do meio digital.

Se o modelo estivesse tão errado, certamente o OhmyNews não completaria seu 10º aniversário.

Há problemas, especialmente de ordem financeira, que os socialmedia watchers não me deixariam esquecer. Problemas que já levaram à transformação radical do OhmyNews Japan e levantaram a possibilidade do crowdfunding para a manutenção do OhmyNews coreano. Há problemas um tanto visíveis no OhmyNews International, que sofre com a atualização lenta, uma plataforma superada (embora ainda à frente de muitos sistemas de envio que se vê por outros noticiários colaborativos mundo afora) e outras questões menos visíveis a nós, que estamos de fora.

Questões assim não são exclusivas ao OhmyNews International. Já faz cerca de um ano que sinto um clima de “commoditie” na atmosfera do jornalismo colaborativo. Houve quem tenha me erguido a hipótese deste modelo estar fadado ao desaparecimento. Creio que ainda é cedo para falarmos nisto. Mas concordo: há o que se pensar a respeito da sobrevivência e da manutenção do jornalismo colaborativo.

Nada melhor do que os 10 bravos anos do OhmyNews para abrir esta discussão!

Como apontar problemas é fácil, vamos ao que chamarei de 10 POSSIBILIDADES PARA O OHMYNEWS (e para o jornalismo colaborativo como um todo):

1. Hiperlocalização
Não faltam exemplos de iniciativas editoriais colaborativas hiperlocais. The Local, do New York Times, pode ser uma delas. A rede chilena ancorada por El Morrocotudo, outro exemplo forte de que a regionalização fortalece o interesse dos colaboradores e dos consumidores daquele conteúdo.
O conceito do village reporter, defendido por Yeon Ho, é valorizado quando o ecossistema digital reconhece a importância do relato do indivíduo “comum” para o seu microcosmos. As coisas não precisam mais ser grandes para ter sua importância. O que é “broad” ou “mass” vem sendo repensado. E o modelo colaborativo só tem a beneficiar-se com isto.
Olhando mais ao OhmyNews International: ele ficaria bem como um hub de vários OhmyNews nacionais.

2. Crowdfunding
Meu modelo maior ainda é o Spot.Us. Idealismo demais acreditar que o público financiará a produção de conteúdos do seu interesse? Isso já aconteceu em cobertura de guerra. Se tem quem pague (ou quem acredita que irão pagar) por ACESSO a conteúdo, por que não pagar pela sua PRODUÇÃO? É uma questão de interesses.

3. Voluntariado
Já está mais do que entendido que existe um grupo de noticiários colaborativos que são desdobramentos de veículos convencionais. Há outro grupo, no entanto, que se dedicam inteiramente ao conteúdo produzido por cidadãos repórteres. Neste caso, a edição continua nas mãos de jornalistas. E se estes jornalistas – que não raro acreditam no modelo – cooperassem na forma de um grupo cadastrado de editores voluntários? Isto daria mais agilidade e ritmo de atualização intenso ao veículo, além de agitar sua vida nas redes sociais (já falo disso).

4. Software livre
Eu sugeriria a substituição do atual sistema de gerenciamento de conteúdo do OhmyNews pelo Drupal, pelo WordPress ou mesmo pelo Joomla. Sairia mais barato, o resultado seria bem melhor para os editores e para os colaboradores e, além disto, integraria o OhmyNews à rede de desenvolvedores do software livre – nada mais coerente, quando se fala em jornalismo open source :-)

5. Notícias… e algo mais
Eu suavizaria o perfil editorial do OhmyNews. Seguiria com hard news, mas deixaria que uma bela fatia do conteúdo fosse ocupada por conteúdos mais triviais como álbuns de viagem, receitas, família, dicas de moda e beleza, arte, dicas de diversão… como se misturasse uma revista semanal de informação com um portal feminino. Sem perder o foco geográfico! E tudo em primeiríssima pessoa!

6. Mais interação!
Parece brincadeira sugerir que um site cujo conteúdo é essencialmente feito pelo público se torne mais interativo. Mas esta sugestão remete à interação imediata. Àquilo que hoje só existe na forma de uma enquete na página do OhmyNews; no máximo, na avaliação das matérias. Talvez votações mais explícitas, galerias de fotos, customização do visual à lá BBC, formulários para envio de comentários direto na capa, com publicação moderada, mas sem grandes barreiras. Um box do Twitter e outro do Facebook para agitar as coisas.

7. Novo design
Aqui eu pediria ajuda ao Rogerinho Fratin e outros amigos webdesigneres especialistas em como atrair pessoas pelo visual. Não se trata de uma urgência. O visual do OhmyNews não é ruim. Eu diria que ele é coerente com o viés editorial a que se propõe. Mas para atender à “flexibilização” do conteúdo que sugiro, um design mais leve, mais colorido e com imagens maiores cairia bem.

8. Mídias Sociais
Existem grupos do OhmyNews no Facebook, um perfil no Twitter e até um canal do OhmyLife no YouTube, com vídeos-reviews de produtos. Bem bacana. Mas estes canais precisariam de muito mais gás! E não esperando isto do público, mas partindo de “dentro”, da própria equipe de funcionários ou voluntários do OhmyNews.

9. Creative Commons
Sempre me pareceu mais coerente que um noticiário colaborativo publicasse o conteúdo sob Creative Commons. Embora hoje o conteúdo esteja licenciado por Copyright, o OhmyNews não impede e até estimula que cidadãos repórteres publiquem seus artigos – sem ônus – em outros lugares. Teve cidadão repórter que já editou um livro com os textos que fez para o OhmyNews. Entraria mais no “espírito” da coisa.

10. Versão impressa
Por muito tempo o OhmyNews sul-coreano teve uma versão impressa que circulava gratuitamente em Seul. Aos moldes do Metro, este OhmyNews-de-papel podia circular nas localidades com índices não tão altos de acessibilidade digital como na Coréia do Sul. Imagine um jornal gratuito feito por você? Ver o seu nome assinando uma matéria que está sendo distribuída nas sinaleiras, nas farmácias, nas estações de metrô? – este apelo talvez batido ainda poderia “caçar” muitos bons colaboradores em países em desenvolvimento como o Brasil.

É possíve que estas medidas não sejam suficientes para garantir longa vida a um noticiário colaborativo, mais especialmente, ao OhmyNews. Quanto à questão financeira, que é o cerne da história, infelizmente não posso opinar muito. Mas parece que há ainda, sim, um caminho a ser trilhado. E que o jornalismo colaborativo tem muito a evoluir, a aprender com o OhmyNews.

***

Vale ler este artigo da Ronda Hauben, sobre os 10 anos do OhmyNews :-)

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